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Dificultando a literatura

 

num mundo cheio de adaptações e facilitações, proponho-me a discordar e publico aqui o princípio de um trabalho que se propõe a dificultar a obra de autores em domínio público.

a guisa de comparação, oferece-vos um primeiro rascunho de O Alienista, em uma versão alimentada a partir das 20 primeiras palavras. a ideia é retrabalhar o material e o dificultá-lo em escala geométrica.

eis as palavras inciais: “As crônicas da vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, …”

eis, portanto, a versão beta da transformação dificultada do texto:

“De um ponto do mapa doravante designado por vila de Itaguaí, apropriadamente escreveu-se nos mais elaborados e doutos textos destinados à preservação da memória e dos atos ditos incansáveis que por lá se produziam em tempos que se diria imemoriais (ver Matéria e memória, Bergson), porém, o texto que nos escusa a desculpa de esquecer de tudo de pronto se ergue e nos leva a galgar sobre fatos de antes que ainda ecoam em nosso mãos e corpo e espírito. Algumas diversas linhas valorosas acha-se desses tão portentosos documentos, entrementes sobretudo deita o interesse a contemplar aquelas judiciosas que fizeram-se um dia sobre um homem em especial, um que dentre todos aqueles que já houveram nos endereços de Itaguaí se ergue como a voz valorosa de nosso encontro autor-leitor aqui (ver Teoria da Recepção, Iser), cuja alcunha ficcional de personagem protagonista não narrador nos obriga a força ficcional, sim, ela, a nos fazer nomear questo ragazzo, de chofre disparamos Simão Bacamarte e não se mais fala nisso. Inclua-se apenas sua linhagem, pois desse modo aprendemos com o livro daqueles crentes na fé do Deus único; e na sequência que ligeiramente se proponha sobre seus dotes de profissão e sua formação de estudos, bem como a passada breve, porém fundamental a seu acesso à educação formal e sua aquisição de linguagem (ver Chomsky; ver Piaget. Confrontar ambos e depurar em Bakhtin)…”

perceba-se que oferecemos aos nossos leitores frases de sintaxe invertidas, repetições, vocábulos unusuais, algum estrangeirismo, ancoragem teórico, mau emprego de terminologias, circunlóquios que miram o barroco. um upgrade do texto trará a versão em finegans-wakenês. entre em contato na caixa de comentários que nós retornaremos a você. afinal, se literatura é só a historinha que se conta, eu posso tirar ou pendurar o que eu quiser ao redor dela!

PS – se você achar isso tudo uma bobagem, leia o original do Machadão aqui.

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