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E então

na última vez que escrevi aqui, disse que voltaria pra comentar como foi um bate-papo com o Ramon e o Guilherme Kroll  lá na Ugra e meio que não voltei.

(fica de boas, este não vai ser um texto sobre noooossaaa faz tempo que não escrevo – tô aprendendo a não me dar tanta importância assim)

[aproveito, inclusive, pra deixar os links prometidos e até então descumpridos, dos meus textos do Bacana sobre os dias 3 (RADIOHEAD!) e 4 (SIGUR RÓS!) do Primavera Sound de 2016.]

{o bate-papo lá foi maneiríssimo, aliás}

e então?

meses depois me sento na mesa amarela em que conversei meu café da manhã por meia década, mas há meses que não. agora é de tarde, o café já esfriou e eu só procuro a próxima palavrinha pra fazer um texto que vocês gostem de ler e pensem o quanto meu texto é/pode ser massa. escrevo justamente o que leem, com um mapa daquilo que não quero falar e ajustando pouquito.

dessa vez, visito São Paulo; visito ela para dar os parabéns pelo seu aniversário; para dar um curso no Instituto HQ sobre OuCriPo (que esqueci de jabazar aqui antes [e que espero escrever sobre ele depois, mas eu não confiaria tanto assim em mim]); para participar de um evento de quadrinhos no sábado ali na Ugra.

depois, São Gonçalo – marca funda no mapa afetivo, depois, Salvador – a nova casa.

(ó eu me desaprendendo a não dar importância)

acho que a gente sempre escreve por vaidade de que gostem da gente; sempre escreve por uma ânsia de emaranhar os fios de lá e cá; escreve por estar a fim de ver as palavrinhas serelepes pulando dos dedos pra tela; escreve sem saber bem a razão. só acho, né, sei lá.

e então?

não. e agora?

agora é hora de botar o corpo pra comer e andar, porque agora é hora de acumular mais um pouco de memória pra depois escrever aqui.

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Amsterdã dia 4

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Postagem curta, curtinha.

Acordo 5:31 horário daqui, depois ter dormido-acordado a noite toda. Enrolo a pizza que sobrou de ontem, fecho malas, dou aquela última olhada, sento, espero, saio, check-outo e corro pro ponto de ônibus.

Consegui um esquema sovina pra não pagar outro trem pro aeroporto. Envolve busaaum, boonde, busaaum e aquele passe livre pra 24horas de transporte público.

O comovente horário que se cumpre no transporte público europeu fez com que a saída 6:07 e a chegada 7:18 acontecesse sem esperas maiores que 10 minutos (isso por eu ser cagão de perder o primeiro ônibus).

Despachei a mala, comi a pizza, bebi a água, passei pelo raio-x e pela migração e neste momento tô na Terra de Ninguém do aeroporto. Só entrar no avião, pegar busão e metrô em SP em chegar em casa,

Essa viagem acabou. Pela atenção, obrigado.

Nos próximos capítulos: mudança de casa, companheiros batutas de moradia, busca por trabalho e menos fotos no Instagram.

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Amsterdã dia 3

Primeiramente, bloomsday!

A programação do dia era Rijksmuseum, almoço em pub irlandês, visitar o Moco e andar a toa, fazendo o Bloom em Amsterdã. E pode dar check em tudo.

Pirei mais na parte medieval do museu. E, claro, nos Vermeer e Rembrandt. Tem pouco, pouco, quase nada de arte contemporânea. Pra quem curte, tem muita mobília, armas e maquetes de navios (porcos colonialistas).

Também tinha uma expo com estátuas do oriente e vi um budedo lá bem massa. Hum.

O museu é gigante e assumindo que não veria tudo com o cuidado devido, levei 4 horas lá.

De lá fui prum pub tomar cerveja irlandesa, comer irish  stew e ver Inglaterra e País de Gales, numa forma enviesada de bloomdayzar (também li o Ulysses no ônibus – não inteiro, né, porra).

Saí de lá bastante empanturrado, comprei água e chocolate num mercado e parti pro segundo museu, com expos pequenas do Warhol e do Banksy e acho que não recomendaria empenhar 12,50 euros nisso.

É estranho ver muros recortados e expostos, parece errado colocar aquilo entre paredes, aquilo é a parede. O Warhol é bem legal, mas a maior parte, óbvio, é reprodução.

Aí, me joguei pruma parte de Amsterdã que ainda não tinha ido, mas nem sei o nome. Andei uns 40 minutos só e resolvi voltar.

Mas aí a cerveja fez efeito e eu precisava meio que muito de um banheiro. Entrei num café amigável, pedi um espresso e

(me deixa fazer um parêntese aqui – já tá ali – os caras desse café eram italianos e acharam que eu fosse, io no parlo italiano molto bene e tal. Outras 3 vezes me tiraram pra francês).

Termino esse relato comigo mijando, tipo, Bloom e Stephen no Ulysses, sim.

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Amsterdã dia 2

Se ontem Amsterdã foi queria-estar-m-o-r-t-a, hoje foi só queria me dar um soco na boca.

Reservei o dia pro Museu Van Gogh.

Tentei acordar cedo (museu abre 8:00), mas me enrolei um tanto e cheguei no museu só pelas 10:pouco.

Aí, vou preferir não contar que o passe de uso ilimitado por 24h de Amsterdã e arredores funciona pra uma das linhas que passa no ponto do hotel, mas não pra outra que faz basicamente o mesmo caminho (com mesmo ponto final) e o motorista preferiu me cobrar 5 merkels em vez de falar peraí e pega o outro que vem daqui 3 minutos.

Também vou pular a parte sobre a falta de sinalização pra achar o ônibus que precisava. Vou focar no simpático holandês do guichê de informações que anotou os bondes que eu deveria pegar e me sugeriu comprar os ingressos antes pra pular fila.

Chegando no museu, vou esquecer do funcionário que me mandou pra fila errada e pro guarda do museu que brigou comigo quando fotografava uma placa com nome do quadro (achei que podia, porque tinha gente fotografando com câmera profissa do lado) e vou me concentrar no museu.

O museu Van Gogh é nível PUTALAMERDA.

São 3 andares com muitas pinturas do Vincent, um ou outro objeto pessoal, algumas das populares cartas que ele mandou pro Theo, além de pintores relacionados, tipo amigos, influências e influenciados.

Tem também um espaço pra expos temporárias, que dessa vez era o retrato das prostitutas. Picasso, Munch, Van Gogh em doses comedidas e Degas e Toulouse-Lautrec em quantidades paquidérmicas. Foda de lascar, óbvio.

Ele é realmente bastante cheio, mas se usar alguma GINGA E MALEMOLÊNCIA, você consegue estacionar sozinho, por exemplo, na frente de O quarto por minutos (fiz) (pelo menos nessa época que vim).

Mas eu estacionei o ônibus da atenção na frente da área de um desenho fudido, que é estudo pruma pintura que está em outro museu. Todos os desenhos do Vincent me possuem, mas poucos estão expostos, por causa da conservação da bagaça. Pena.

Acabei pendurando na memória mais uma tela: Three roots, uma inacabada, embora tenha coisa o bastante já pra eu me encaixar ali. Toda a fase dos últimos 3 anos de vida do Van Gogh me comovem muito.

Nessa pira do museu acabei sem almoçar. Achei um mercado, comprei coisas almocentas e sentei pra comer quando CHOVEU. Era uma garoinha bostona que me impedia de comer, mas deixava caminhar pela cidade.

Liguei o esquema ande à toa por aí e veja o que aparece. Apareceu uma boa vontade minha Amsterdã.

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Barcelona dia 15/ Amsterdã dia 1

Barcelona hoje foi só pra tomar café.

Saí bem cedo por causa da huelga de trens na Espanha e consegui chegar com um bom tempo no aeroporto. O resto foi trâmites de viagem, esperar, escrever, comer, embarcar.

Em Amsterdã, desde que pus a mochila de 11 kg pra fora do Schiphol, só trolha. Começa com uma fila tupiniquim pra comprar a passagem de trem, num sistema com diversas opções, cheias de estações com nomes holandeses. Quando o sudoku de vogais abundantes é resolvido, você pode descobrir que a máquina não aceita dinheiro, só moedas.

Isso vencido, pode ser que você pergunte prum fiscal se o bilhete que comprou (e que autenticou porque fortuitamente viu alguém fazendo e macaqueou o movimento) é daquele trem, ele confirme e que seja o trem certo pro bilhete errado, fodendo o caminho que sabia fazer.

Numa dessas, você descubra estudando cartelas de linhas de ônibus, que pode usar o mesmo número que usaria mesmo, só que em outra direção. E vai que não tenha nenhuma indicação muito clara em inglês de pra onde ir e que você consiga entrar no busão, confirma com o motora, mas descobre que não sacou o sistema de aviso de paradas em holandês, o que, quem sabe, te leve a um paniquito.

Talvez um signore italiano te dê a buona parola e te ajude a descer no ponto perto do hotel e te aponte onde a bagaça fica, que logo ali, atrás daquilo tudo lá.

Pode ser também que você tenha achado que um hotel mais barato há alguns quilômetros do fervo não seria um problema e que os ônibus pra essa região não iam custar 5 euros, que você estaria longe de tudo e que esse coño de lugar de moradia teria um lugar pra comer e você não teria que comer no hotel.

Acontece às vezes de tudo isso mais os preços altos nos Países Baixos faça você querer remarcar a passagem e ir embora. Pode rolar de você tomar um banho e ver o por do sol lá pelas 22:30 e pensar que os gigantes voltaram a ser moinhos e amanhã é mais um dia pra Quixote.

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Barcelona dia 14

Tá lá, a segunda antes do dia de vazar de Barcelona caiu no vácuo do não planejamento. Deixei assim, pra resolver na hora. Daí que acordei e pensei “porra, praia” e fui.

Não sou nem remotamente praieiro, embora curta o litoral que nem velhinho: caminhadas pra sentir o vento marítimo e o cativante som das ondas à noite.

A praia daqui é badaladinha e tal, porém em Poblenou ela é menos frenesi que Barceloneta.

Caminhei uns quilômetros pela praia (de camiseta do ruído/mm) e voltei. Nesse entrecaminhos vi velhinhos pelados (tem uma parte nudista da praia), nórdicos deitados horas no sol e cultivando câncer de pele, e vermelhão na minha pele.

Fui pra casa, comi as sobras do domingo, comecei a melancólica ajeitada da mochila de viagem, limpar o tênis e chega a mensagem de O., amigo da primeira faculdade que passava por Barcelona.

Resultado: segundo rolezinho na praia, muita conversa e a paulada: a gente não se via a uns 6 ou 7 anos. Daí me lembrei que quando via As meninas, do Picasso, pensei se aquela não era a última vez que via aqueles quadros.

Eu tô sentimental o necessário pra empacar com essa informação.

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Barcelona dia 13

Mais um dia dedicado ao nada, afinal, domingo é dia morgado por aqui também. Es lo que hay.

Começamos com a notícia do massacre em Orlando. Não comentamos muito, porque não temos o que falar.

À tarde, amigos da Anfitriã chegam. Yo no hablo español, pero tento acompanhar as conversas como posso – exercício que me encanta, aliás.

Depois, meu primeiro contato, bastante tímido, com a praia de Barcelona num passeio de fim tarde. Vejo no Twitter notas sobre o frio no Brasil e eu, que gosto de gelado, na praia em Barcelona. Não reclamo, só me parece um pouco injusto com os esfriados. Es lo que hay.

De resto, só a vida a resolver no Brasil já me dando tchauzinho.

Es lo que hay.

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Barcelona dia 12

Um dia pra acordar tarde, comprar mais uns pares de meia e ficar em casa bebendo cerveja com a Anfitriã. É claro que quando se vai a casa de um amigo não vai lá pra tomar-lhe uns metros quadrados e lençóis emprestados, também é pra roubar sua atenção e ocupar as horas com conversas.

Acho importante dias intensos de caminhada decorados por singelos cotidianos preguiçosos. Assim me parece que vivi melhor esses lugares estrangeiros que não me pertencem (talvez um pouco agora).

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Barcelona dia 10

Pra zerar o articket, eu precisava ir a Montjuïc, que além dos 2 museus que fui visitar, é onde está as paradas olímpicas todas (Barcelona 92, lembram?).

Fui com a linha 2 do metrô até Paral.lel e lá peguei o BONDINHO morro acima. O parque de Montjuïc é grandão, mas meio que me foquei nos museus.

Como ainda tava meio baleado pela gripe, invertida lógica do PRORROGADOR DE PRAZERES e fui logo pra Fundació Joan Miró. O acervo do museu, obviamente de Mirós, é embasbacante. Se o Museu Picasso se ressente de poucas obras significativas, aqui é pra dar tilt na cabeça, porque é uma caralhada de quadro.

Estava particularmente sintonizado com a obra do Miró nesse dia e ele acabou sendo meu pós-rock visual (ou descobri que o pós-rock é meu Miró auditivo). Passei horas no museu, sendo presentificado intensamente por algumas obras.

O grau de sutileza, desde a pincelada até o detalhamento dos fundos, esconde uma complexidade embaixo de linhas diretas e simples. Miró não desenvolveu uma linguagem, criou um idioma usando formas de comunicação familiares, como símbolos, cores, tinta, metal, pedra. Por isso as esculturas, cerâmicas, tapeçarias, murais e quadros são a mesma coisa.

Quando cheguei na sessão dedicada à arte influenciada pelo zen, e também por estar carregado de tudo que vi antes, desabei. Talvez seja o quadro mais discreto da mostra, o mais poderoso pra mim. Todo branco, com um ponto azul à direita, na parte superior. Ao ver de perto, aquele branco do fundo, tem sutilezas e discretas palavras em mirózence. A descrição é inútil, mas ali fiquei, chorei, voltei e entendi que foi algo muito pessoal, com interpretações que vou manter entre mim e essa pintura.

A imagem lhe deixa ordinária, mas é esta aqui. Só olhando na cara pra entender. Ou talvez só sendo eu, naquele dia, naquela hora, vai saber…

Da outra vez que estive lá, o impacto foi bem diferente.

Fiquei meio anestesiado, então peguei um cantinho de grama, almocei meus sanduíches, escrevi um tanto, e encarei o Museu Nacional de Arte da Catalunha. Como o nome indica, coleciona obras de artistas catalães desde o período medieval.

Dei aquela passada de turista velho, que passa por todas as salas e não vê nada, mas recomendo o museu pra quem curte arte religiosa medieval e coisas mais realistas e românticas. Claro, lá no meio tem uns 2 Dalì realista, um Miró estudante, tem um mural foda do Miró, um Picasso bom, uns 4 Tapiès (2 deles escondidos na arte medieval, se liguem) (descobri também que se fala tápiAs), móveis de Gaudí e amigos, uns Rodin do nada, e arte japonesa bem massa também.

O próprio prédio tem sua graça de visitar, mas depois das paisagens do Miró, tava difícil andar por outros lugares.

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Barcelona dia 9

Acordei mudando os planos. Em vez de cair pra Montjuïc e ver 2 museus, pensei em ficar mais perto da base, porque vai que a gripe piora? Daí não queria estar lá no cu da cobra pra voltar.

Caminhei até Museu Picasso. Lá rola sempre um acervo permanente com obras do Pablito, focado na produção dele em Barcelona e uma exposição temporária de mais de 150 gravuras do homem.

A preocupação do acervo é mostrar o percurso do Picasso. Nessa, embora de alta qualidade técnica, tem muita obra desinteressante, como uns estudos realistas, por exemplo.

Mas mesmo assim, dá pra acompanhar (pelos desenhos principalmente) o trabalho da economia de traço que vai se incorporando. Tem uns rascunhos de toureiros que são comoventes de tão poucas linhas e ao mesmo tempo, tanto movimento.

Lá pro final surge uns quadros fodas pra caralho e minha sessão favorita: a reinterpretação de As meninas, com muitas obras que foram estudos pro quadro. É uma sala cheia! ❤

Casquei dali, comi um sanduíche no CCBB, me tiraram pra francês e entrei pra ver a exposição sobre design contemporâneo africano. Essa ainda não sei bem o que comentar, mas achei foda. Tô ruminando ainda.

No meio dessa segunda expo, começou coisas da gripe: cansaço, dor nas costas, dor nas pernas e outras velhices. Desci a Paseig de Gràcia e entrei na Carrer Mallorca atrás da livraria La Central, mas desisti e deixei pra voltar outro dia, tendo o endereço dessa vez.

Peguei o H16 na Plaça Catalunya, cheguei na base e dormi. Quando a Anfitriã chegou, fomos ao mercat e na volta eu fiz o jantar: legumes na manteiga, arroz (o melhor que fiz, it’s magic) e carne em tiras. Tava bom, hein?

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