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Ouvido: A love supreme

Tem um projeto daqueles geniaizinhos no Sesc Pinheiros aqui em SP: audições históricas. Rola de convocar músicos fodões para tocar inteiro e na ordem um disco de jazz clássico.

Sexta, dia 19, eu fui lá pra A love supreme, do John Coltrane, interpretado por um quarteto (baixo, piano, sax e bateria). Não sou conhecedor de jazz e nem músico pra falar de MODO TÉCNICO sobre o que rolou, mas tenho uma relação muito louca com música, e posso dizer o que pessoalmente penso ter sentido.

Música é muito importante pra mim, tanto que é difícil, sei lá,  ler enquanto ouço; eu meio que me presentifico na canção, eu lhe entrego minha atenção (algumas vezes a proposta é me influenciar por um disco e escrever, que nem faço agora). E já que música é obviamente abstrata, sem aquela falsa imagem de concreto que a palavra vende existir, então, andar por uma canção é um caminho novo a cada audição, não tenho mapas ou memória espacial dos discos que amo.

Não tenho nenhuma relação especial com A love supreme, além de ser um disco que gosto muito e bom de doer as bochechas, mas sentir (não se trata mais de audição) ele ao vivo, com  vibração das notas ali pertinho, é comovente.

A gente ouve em casa e no trabalho e tudo, mas o jazz foi feito praquilo: indivíduos se pondo em instrumentos diante de estupefatos. É simples até.

Eu fechei os olhos e circulei pela melodia, PRESENTE, ali, sem fazer outra coisa; meu passado me empurrou ali, meu futuro, sei lá; ali, aquela música. Sentia como quando medito bem, um calor, um foco, uma lucidez mental e até um certo deslumbre tátil pelos braços. Ao final, claro, estava exausto: a música exigiu de mim, eu dela, nos entregamos até onde pudemos.

Foi auspicioso.

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Na estrada

Sempre quis escrever um livro na estrada, pra ver se as palavras e as ideias acompanham o o vai-e-vem de mim. Um livro não só sobre a viagem, não sobre os lugares, ou as pessoas, ou sobre o que comi, quem conheci. Sempre quis (e ainda desejo) escrever um livro sobre deslocamento.

Em Memorial do convento, José Saramago usa um capítulo inteiro pra descrever a dificuldade pra se levar UMA das milhares de pedras que ergueram as paredes do tal convento. Não é disso que falo.

Um livro que trate de sair de um lugar enquanto vai a si e trate de sair de si enquanto se permanece; um texto que ousasse falar sobre nada e fosse delicioso de se ler, como se engolir aquelas palavras fosse um docinho de festa de criança aos quais se ataca às dezenas. O texto que falasse do ir que se precisa, do ir que se basta.

Mas nunca fiz.

Sempre fico enfebrado do vetor deslocamento quando visito meus pais em Francisco Beltrão, no Paraná. Moro em São Paulo e voo até Curitiba e lá pego 9 horas de ônibus pra manter meu corpo quieto em meio à madeira de minha casa de infância enquanto a mente é atacada pelo excesso de TV, agradada pelo papo qualquer e pelos grandes projetos. A mente giragira, o corpo permanece. Na estrada na volta, o corpo é conduzido e o olho vê o mundo que me olha todo dia.

É preciso falar sobre o deslocamento. Talvez o livro de Barcelona, talvez nunca. Evito citar a velha Hilda Hilst, mas quem a conhece, sabe do que falo (e pra vocês que a conhecem, não evitei falar).

É preciso escrever sobre o deslocamento.

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Instrumentos de dispersão

se me lembro bem, esquecer é parte fundamental.

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não dá pensar que vai morrer enquanto você come bolacha com chá morno, é preciso esquecer a doença de sua mãe enquanto brinca no YouTube.

Espanamos o que se-foi do presente. mas logo a frente, o mesmo pó continua ali, a recobrir sua bolsa, seus livros e as beiradas das portas que deixa de abrir em seu apartamento.

o meu fugir de mim é pré-instalado de nascença.

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não, acho que o dispersar do urgente que é.

mas gosto de encher a mão com os grãos do importante.

(tem uma diferença Gonçalo-tavaresiana entre urgente e importante).

ou talvez só esteja tentando esquecer algo que deveria lembrar. ou isso é um apartamento fragmentado se reconciliando.

mas me lembrei de gostar disto:

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2 X

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entre idas e vindas da corrida de rua regular, hoje tive minha primeira evolução marcante: fiz todo o meu percurso só correndo e ainda tinha energia pra mais.

pela primeira vez desde que comecei a correr não tive que respirar como um búfalo espirrando.

e o ar de Curitiba tá frio de Pinguim pedir pra ir dentro da geladeira.

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milagre? segunda mutação? o contato com o rato me deu novas habilidades?

nope.

aprendi o ritmo de corrida.

o meu ritmo.

levei alguns meses pra encontrar o disgramado, mas agora somos amigos e corremos juntos.

é uma bobagem, coisa pouca, mas depois de ganhar as contas e ter que linchar outro mamífero, encontrar o ritmo parece o começo da harmonia.

sempre com alguma distorção, pra ter graça.

 

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Passadinho…

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Recorda: O Tempo é sempre um jogador atento

Que ganha, sem furtar, cada jogada! Ë a lei.

O dia vai, a noite vem; recordar-te-ei!

Esgota-se a clepsidra; o abismo está sedento.”

BAUDELAIRE, Charles – O relógio in Flores do Mal (trad. Ivan Junqueira)

tenho tentado.

acho que não o suficiente, mas tenho.

me livrei de jogos do Facebook, reduzi meu período no Twitter e no e-mail, mas o efeito ainda não veio.

a pilha de livros só aumenta (talvez, se eu parar de comprar e emprestar da Biblioteca), os filmes a ver já ocupam muitos GBytes, as correções da pós-graduação em HQ vão se escoando, digo sim a frilas, digo sim a congressos e não começo – simplesmente não começo – a escrever.

a covardia de falhar se banha na arrogância de que posso fazer a qualquer momento.

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em Beltrão, minha mãe disse, meio que por brincadeira:

“se eu tivesse mais um filho, obrigava a ser médico e ganhar dinheiro. de sonhador, já basta um.”

como diz Saint Bachelard, o sonho é importante e sem ele não há mundo desperto.

mas a matéria antiplatônica tem de ser erigida e não basta apenas o prático e onírico.

é preciso a consciência do desperdício.

do dia comido pelo próprio dia, oroboro cósmica do puta que te pariu!

que ninguém me fale em passatempo, eu quero um paratempo!

eu quero um fluitempo, eu quero um melevajuntotempo.

nem que seja só por um instante.

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Por pouco

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reunião setorial avança perigosamente para o horário de almoço.

a pirâmide de Maslow cobra sua taxa e o pagamento é em paciência e problemas de dicção.

todos olham pra ele. é agora.

que nem ele ensaiou, que nem ele viu no filme.

todos ali, a posição correta da cadeira, o sorriso correto. é agora.

“o que eu acho? acho que eu me demito disso. não me demito dessa empresa, me demito das reuniões, do horário vilão, do ônibus lotado, das vontades sufocadas, das planilhas do Excel, do bloqueio das ideias, da minha força gerar dividendos aos acionistas. demito a mim dessa vitae, desse curriculum, dessa porra aqui.”

(bate na mesa, bate na mesa, vai, é agora! – todo mundo acha que surtou mesmo, aproveita: não há meio surto)

“estou fora dessa mediocridade, dessa lesa-vida. e todos vocês deveriam fazer isso também. pelo menos pensar em fazer, pelo se imaginar fazendo…”

é, quase. mas ainda não é o momento.

semana que vêm tem outra reunião e dessa não passa. fique tranquilo, ainda dá tempo de desentalar.

está cada vez mais perto. ou desentala ou morre afolegado.

mas, ao menos, conseguiu definir como é a parte em que bate na mesa.

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Se o cinema é 3D, a existência é 10 D

vi lá no Trabalho Sujo, mas esse é o vídeo com legenda em português torto.

advirto: não me responsabilizo por nós na cabeça.

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Um minuto

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o que você consegue fazer em um minuto?

é, 1 segundo depois do outro, até 60.

Uma boa ideia chega em 1 minuto. e uma ideia ruim chega em 1 minuto.

quantos eu te amo cabem em 1 minuto? quantos clichês cabem? quantas frases do saramago?

um corredor consegue a 4 metros por segundo fazer 240 metros – o que dá umas duas quadras se não precisar esperar pra atravessar a rua.

já pensou esperar sempre, 1 minuto pra atravessar a rua? esperar sempre 1 minuto antes de cada qualquer?

em 1 minuto dá pra fazer quantas vezes os 140 caracteres do twitter?

em 1 minuto, quanto dá pra sentir do Osman Lins, do Lars Von Trier?

em 1 minuto dá pra resolver foder com tudo, não fazer e por isso, sim, foder com tudo de verdade. será que dá?

em 1 minuto, você lê esta postagem aqui. ou até menos.

tenha 1 minuto de mau-humor.

1 minuto pra se perder entre os pontos de ônibus certo e errado.

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tem uma proposta aqui de parar por 2 minutos.

 

tenta parar metade disso.

se perca por 1 minuto e depois volte e lembre disse por 1 minuto.

1 só.

e chega! vai lá viver 1 minuto depois do outro.

 

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1, 2, 3, vai!

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tenho pensando em começar a correr. não metaforicamente, fisicamente. mas tem a ver.

só dou um tempo antes de começar, pra que não pareça resolução de ano novo, que já vem com etiqueta frustração (variações de Taiwan tem desistência).

comecei a procurar por isso, e descobri um mundo ao redor dos meus pés (o umbigo do falsa humildade?).

os pés não se dividem em direitos e esquerdos, da maneira que os não corredores pensam. existem trocentas classificações e até testes pra você saber qual é o tipo de tênis adequado pra você.

tenho tido dificuldade de encontrar um modelo que decente – todos os tênis de corrida que encontrei são combinações em variadas porcentagens de molonas, gel, cores berrantes e glitter.

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quem diga que isso é por causa dos meus 30 anos (quase 31). eu prefiro acreditar que é para evitar um futuro que se agarra ao batente da porta pra sair de casa. mas a verdade, provavelmente, é outra.

tem algo de por as pernas em ação pra ver a vida andar, em vez de correr. eu corro, e você espera um pouco. tem a ver com segurar a corrida do relógio baudelairiano enquanto acelero as canelas. tem a ver com a metáfora. tem a ver com a prática.

 

ah, assim que encontrar um tênis decente, eu aviso.

 

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aeroportos, de ontem até hoje

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se eu pudesse inventar uma lenda de internet (tipo o final lost da Caverna do Dragão) seria de que T.S.Elliot escreveu seu Wasteland enquanto esperava em aeroportos.

depois do raio-x entramos numa terra de ninguém, com grandes marcas vendidas a dólar e sem impostos, de vários idiomas e de nenhum wi-fi disponível.

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estive numa cápsula fora do tempo entre Curitiba, às 18 h de ontem e o aeroporto, seguido de uma série de metrôs, trens e overgrounds, às 18 h de hoje.

ainda assim, deu tempo de tomar dois pints de cerveja e descobrir que batata frita não muda nada com um atlântico no meio. amanhã, ao centro de Londres.

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