Tag Archives: Souvenirs

E então

na última vez que escrevi aqui, disse que voltaria pra comentar como foi um bate-papo com o Ramon e o Guilherme Kroll  lá na Ugra e meio que não voltei.

(fica de boas, este não vai ser um texto sobre noooossaaa faz tempo que não escrevo – tô aprendendo a não me dar tanta importância assim)

[aproveito, inclusive, pra deixar os links prometidos e até então descumpridos, dos meus textos do Bacana sobre os dias 3 (RADIOHEAD!) e 4 (SIGUR RÓS!) do Primavera Sound de 2016.]

{o bate-papo lá foi maneiríssimo, aliás}

e então?

meses depois me sento na mesa amarela em que conversei meu café da manhã por meia década, mas há meses que não. agora é de tarde, o café já esfriou e eu só procuro a próxima palavrinha pra fazer um texto que vocês gostem de ler e pensem o quanto meu texto é/pode ser massa. escrevo justamente o que leem, com um mapa daquilo que não quero falar e ajustando pouquito.

dessa vez, visito São Paulo; visito ela para dar os parabéns pelo seu aniversário; para dar um curso no Instituto HQ sobre OuCriPo (que esqueci de jabazar aqui antes [e que espero escrever sobre ele depois, mas eu não confiaria tanto assim em mim]); para participar de um evento de quadrinhos no sábado ali na Ugra.

depois, São Gonçalo – marca funda no mapa afetivo, depois, Salvador – a nova casa.

(ó eu me desaprendendo a não dar importância)

acho que a gente sempre escreve por vaidade de que gostem da gente; sempre escreve por uma ânsia de emaranhar os fios de lá e cá; escreve por estar a fim de ver as palavrinhas serelepes pulando dos dedos pra tela; escreve sem saber bem a razão. só acho, né, sei lá.

e então?

não. e agora?

agora é hora de botar o corpo pra comer e andar, porque agora é hora de acumular mais um pouco de memória pra depois escrever aqui.

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Filed under A gente tenta, it's the real life?

Lendo menos

teve um prodigioso ano de 2000 (séculos diferentes), em que li em torno de 120 livros. fazia faculdade, tinha me mudado de Francisco Beltrão pra Curitiba, estava escandalizadamente maravilhado com uma biblioteca pública daquele tamanho, não tava muito focado em fazer amigos na pensão que morava, não conhecia ninguém e adorava (ainda adoro) ler. outros caras na minha situação tavam por aí atrás de mulher, mas cada aí age conforme suas possibilidades, talentos e poderes mutantes.

foi nesse ano que fracassei na leitura de Ulisses, que li Flores do Mal, Montanha mágica, trocentos Saramago, Leminski, Salinger, Turgueniev, Whitman, Raduan, Camus e outros autores que eu conhecia na louca, andando pelas estantes e escolhendo um livro qualquer.

Tomoko Takeda

mantive essa mania de ler maniacamente, dedicando meu trajeto casa-trabalho-casa à leitura (e também casa-cinema ou casa-almoço fora) (em casa leio mais HQ, escrevo, frilo, jogo videogame, vejo filmes e converso) (já falei que leio andando do metrô até em casa?).

nos últimos anos, nessas de autoexposição pornográfica de nosso cotidiano, organizei painéis com o que comecei a ler (2013, 2014, 2015 e 2016). a verdade é que gosto de retornar e ver o que li e lembrar de coisas que me/se passaram enquanto eu lia.

nesse 2000 campeão aí, eu anotei numa contracapa de caderno cada livro lido e me vi, crackeiro de páginas, escolhendo livros menores pra ter um número mais poderoso (eu pensava como um político na época).

Manga farming

este ano retomei a leitura de um tarrasque literário, Graça infinita. o mamutão tem mais de 1100 páginas e peguei ele bem no comecinho (só tinha lido 300 páginas em 2015). calculei com a quantidade de páginas que leio por dia e com as que faltavam, que eu preciso de mais de 20 dias de leitura pra ele, o que vai ser pra lá do carnaval.

nessas eu pensei, putz vai foder com minha meta do programa “meu metrô minha vida”, de ler um livro por semana na média anual e me vi pensando em atacar simultaneamente livros curtos SÓ PRA MAQUIAR os números.

me esbofeteei dentro da minha cabeça e decidi que esse ano vou ser o opposite George e num empreendimento monty-pythonesco vou ler o menor número possível de livros.

ora, ora, você me dirá, caríssimo que me lê (talvez não diga), que bastaria abraçar a estimativa de leitura brasileira e não ler. mas isso qualquer um pode fazer, onde fica então o nível de desafio?

 Brian Dettmer

Brian Dettmer

o lance é ler pouco lendo todo dia E SEM SABOTAR (p.e., ao limitar o número de páginas lidas por dia). ou seja, eu preciso ler que nem sempre, mas ler menos. a chave é ler livros maiores! rá!

este 2016 será dedicada a leitura de tarugos tipo Irmãos Karamázov, Guerra e paz, Anna Kariênina, Homem sem qualidades, Arco-íris da gravidade. Mil e uma noites e Em busca do tempo perdido estão na comissão de ética pra decidir o rito de volumes, tomos e partes e saber se valem como um só ou, respectivamente, 4 e 7 livros.

eu sei que tô dando uma de diferentão enquanto booktubers cagam resenhas semanais de dezenas de livros, mas cada um age aí conforme sua índole, interesse e poderes mutantes. desapegar de glórias, desacelerar, aprofundar, valorizar cada um e matar o colecionador de recordes interno; tô nessa em 2016.

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Se a vida fosse listas de 100?

esses dias eu tava lembrando: quando comecei a escrever em blog, a conexão era discada (usava CD instalação do IG), eu nunca tinha tido meu próprio computador (laboratório de computação da faculdade) e eu escrevia muito sobre música (o que eu conseguia baixar, claro).

postar um vídeo de uma banda que eu gostava era conteúdo, era posicionamento ~cultural~. daí lembrei que naquele tempo eu fazia muita lista e muito texto inspirado em música.

esses dias tava indo pro trem e pensei se eu conseguiria escolher 100 bandas ESSENCIAIS DA MINHA VIDA NESSA EXISTÊNCIA POP E SEM SATORI QUE LEVO.

acho que meu eu de 2002 viajou no tempo e possuiu meu corpo.

“mas que bobagem, Lielson, coisa mané de se fazer: lista. aff…”

ai resolvi postar de 10 em 10. vamos lá?

show do Radiohead em SP. escrevi sobre ele

show de 1966 do Velvet Underground, só fineza

uma musiquinha dos Beatles. afinal… né?

Morphine corre pela espinha, né? (se discorda, pena)

Portishead evoluiu de Trepa Hop pra trepa eterna

Mogwai em uma celebração de cada célula do meu corpo e ossos (a Van espetacularizou sobre esse dia)

Sharon Van Etten: obsessão recente (songwriter crush de 2014)

Yo La Tengo banda velha que me flutuou através de 2013 com Fade

Mutantes é demais (até escrevi um livro baseado num disco dos caras)

 

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Filed under É meu, Música

O menino que salta pra alcançar o galho da árvore

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esperava pra atravessar a rua hoje quando vi um menino.

era menino assim, vestido bem de criança.

eu ouvia Yo La Tengo e ele corria ma non troppo com uma lista e (vamos afirmar, mesmo sem certeza – vamos? nós quem?) uma nota de dinheiro na outra mão.

ele correu pela faixa de pedestres sem tocar nenhuma vez no asfalto negro, pondo os pés só na parte branca da zebra. já na praça, porção de concreto cercada por carros de todos os lados, combatia Dom Quixotes e lutava contra sua altura, pulando pra tocar galhos de árvores.

meio corria, meio saltava.

não conseguiu.

parecia faceiro.

eu atravessei a faixa, hipnotizado pelo rastro daqueles movimentos. enquanto ouvia loose no more time, cause it’s been fun e pisava em todas as faixas, numa proustada, quem corria lá era eu, a cidade era Francisco Beltrão, o sol era o mesmo, o jeito de correr era o mesmo e o entusiasmo com vida era o mesmo.

 eu já fui ele. ou melhor, ele já foi eu. e eu também não conseguia alcançar o galho alto que me daria o título mundial de salto em árvore.

só uma vez ou outra.

ele desapareceu em sua correria pra bater a lista, atender a mãe e voltar pra ver seus desenhos  na TV, enquanto escolhe as cores dos personagens que inventou ontem, esparramado no chão de madeira da sala.

atravesso a rua e, sem saltar, estapeio leve uma folha em um galho.

é uma pena que ele não tenha fones. e que eu não tivesse.

na última tentativa antes de sumir do dia, ele alcançou o galho.

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Ver Tarantino no cinema

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eu me sinto obrigado a ver Tarantino no cinema.

obrigado por um piá de 15 anos. sorte do menino que não tenho nenhum problema em assistir os filmes do Tarantino. eu gosto muito, mas ele já deixou de ser meu cineasta favorito há algum tempo.

assisti a todos que pude no cinema, ou seja, de Kill Bill – Volume 1, pra cá.

mas minha principal satisfação de ver Django Livre no cinema tem menos a ver com a direção, os diálogos e a fotografia, do que já teve. tem mais a ver comigo e com o menino adolescente.

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(que todo mundo deve ter sacado que sou eu mesmo, porque sou meio ruim de guardar segredos. é o Lielson de agora fazendo o que Lielson de Francisco Beltrão, sem cinema e sem vídeo-cassete não podia fazer)

em outra circunstância, seria só uma vingança besta contra o mundo, um grito desgraçado perdido numa escada abaixo. mas como é de mim que eu falo, é de um eu ligado a um outro-eu por uma espichada de tempo, é um prêmio dado a tempo (e fora do tempo): eu levo aquele adolescente a ver o seu cineasta favorito no cinema, a encarar em uma grande tela alguém que o influencia e o influenciará.

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sem ter de torcer pra chegar na locadora de vídeo o VHS, e aí organizar uma noite de filmes e SuperNES com o amigo pra ver o filme, decorar diálogos, rever e comer pão com bife. é legal também, mas o que sobra dum lado, falta de outro.

cercado por desconhecidos, estou só no cinema. eu que sou dois (pelo menos dois), encarando as luzes de Tarantino. sorrio nervoso, meu estômago afunda em si mesmo e me sinto bem em ser essa audiência. obrigado, Taranta. bom filme pra todos nós.

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A cidade Zumbi

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Foto de Daniel Castellano, para a Gazeta do Povo

eu gosto de Curitiba. vivi mais de uma década lá, tomei café na XV, passei frio na reitoria da UFPR, vi os primeiros shows do ruído/mm, vi o Trevisan andando em círculos na Santos Andrade, e – o que eu mais gostava – caminhei bastante por toda a cidade.

meus pés e as ruas de Curitiba tem um bruta dum affair interrompido, mas nunca apagado ou resolvido.

por isso e pelos amigos e parentes, volto pra lá vez por outra. tipo no Carnaval. Afinal, são poucos os lugares com um carnaval tão inofensivo quanto o de Curitiba – defendo até a institucionalização do não-carnaval curitibano — sim, com hífen, tamanha sua negação.

e nesse saudável carnaval, a cidade virou zumbi.

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não tô lembrando só da divertida zombie walk, que talvez seja a melhor ideia de brincadeira coletiva para adultos (sem ideologia marcada) já inventada. é uma evolução do flashmob. ou um fashmobão.

aliás, tô pensando sim nas fantasias zumbizentas na rua, mas não só.

Curitiba toda virou zumbi.

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(a foto não é de Curitiba. coloquei ela só pelo impacto visual)

além dos eventos desmortos do carnaval, e do jargão de que os usuários de crack parecem zumbis, trôpegos, enrolados em farrapos, feridos, fedidos e delirantes que tomam as ruas como se vivessem uma Zombie Walk em sua half-life, há ainda um ar de morto por todos os lugares.

acompanha comigo: ninguém nas ruas, lojas fechadas, shoppings lotados, aquela nevoazinha e é claro, o cenário de guerra que recebe o viajante na rodoviária da cidade.

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torço pelo clichê, mas não me encontro com as bolas de feno rolando pela rua.

é engraçado: um texto sobre uma cidade que encontrei meio-morta, num blog que tem dificuldades de se manter vivo se contrasta com um lugar que lembra muito da minha vida.

não, não é engraçado. até sorrio, mas não sei o que é. engraçado, não.

na minha cabeça, tudo está disponível: os cafés, as livrarias, a Biblioteca Pública, a universidade, o rumo da minha (ex) casa no Alto da XV.

Aqui Curitiba vive.

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A leiturosseia

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Sei que meu primeiro encontro com o Ulisses de James Joyce, foi na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba.

o livro tava na lista do Cristovão Tezza como uma das opções para uma apresentação de sua disciplina. eu não fazia a matéria na época – eu não fazia nem Letras na época – mas tinha a lista e a intenção de completá-la.

eu era só um magrão do interior do Paraná que fazia comunicação, gostava muito de ler e morava numa pensão com entusiastas da primeira onda do sertanejo universitário. nesse ano, li mais de 100 livros (sim, eu anotava – ah, as ingênuas e não menos belas flores da juventude…).

mas e o Ulisses?

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sim, o Ulisses. flertei, cheguei junto e levei o livro pra pensão. achei estranho e pouco amigável, apesar de formas sobranceiras e fornidas (tradução do Antonio Houaiss). não consegui terminar.

cheguei até a quarta fase do livro, mas acabou meu continue na biblioteca e tomei um gameover do prazo. deixei pra lá.

na verdade, deixei nada! já tinha lido O retrato do artista quando jovem, aí li Dublinenses, biografias, material teórico. foi a primeira vez que li material em inglês também: li Giacomo Joyce e uns poemas em inglês do irlandês. e Stephen Hero também.

a obsessão estava instaurada. aí, surgiu Luís Bueno (que orientaria meu mestrado anos depois) e sua disciplina para a leitura do Ulisses.

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comprei num sebo a única tradução disponível (mas não única edição) em 2001 e fui pra aula do señor Bueno (a compra do livro foi uma odisseia prum estudante de bolso curto que nem eu, mas para histórias de gente sem dinheiro recomendo Os ratos, do Dyonélio Machado).

e nesse ano foi a primeira vez que li o Ulisses. foi legal, mas eu ainda tava obcecado e precisava ler de novo. mas na tradução do Houaiss seria muita dor e sofrimento (drama queen).

anos depois eu soube que a tradução da Bernardina eu ia sair. eu já era um digno estudante de Letras na época.

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soube daí que um cara que pirava no Joyce tava traduzindo o Ulisses pro seu doutorado. Era o Caetano Galindo. já tinha tido aulas com ele e conversávamos sobre Radiohead, Oasis e Joyce nos corredores da UFPR. pedi que me deixasse ler o seu trabalho.

na época, desempregado e com muita obsessão, li os 4 primeiros capítulos do Ulisses, de novo. mas dessa vez, cotejado com o original em inglês e com a tradução do Houaiss. e como a do Caetano era melhor.

(essa leitura aí me levou pra página de agradecimentos da edição do Ulysses do Galindo. deveras gentil, esse moço)

mas a edição da Bernardina saiu antes. comprei e li. dessa vez, li numas férias em Francisco Beltrão. gostei de novo, mas senti que faltava um pouco da engenhosidade joyceana que eu tinha provado no texto em inglês e na tradução do Galindo. como se o Houaiss tivesse apertado demais o parafuso do rebuscado e esquecido da diversão e a Bernardina fez o versa desse vice.

quando eu soube que o Caetano tinha acabado de traduzir e que ia sair pela Cia. das Letras, fiquei bem feliz. primeiro, porque eu poderia indicar uma versão decente do livro pras pessoas. depois porque eu poderia ler o Ulisses de novo!

(o Caetano me disse numa aula que somos sempre macaquinhos egoístas, que usamos o discurso pra se dar bem – esse é mais um exemplo).

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domingo passado comprei o Ulysses, descobri que eu era citado num dos meus livros favoritos e comecei a empreender a leitura da bagaça. e hoje resolvi fazer um diário de leitura aqui no blogue. esse é só o texto de abertura, minhas impressões estão nas postagens adiante.

não se entra num labirinto de palavras destes sem linhas inteiras e frases ocasionais sublinhadas à lápis.nos encontramos lá no último ‘Sim’.

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Instrumentos de dispersão

se me lembro bem, esquecer é parte fundamental.

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não dá pensar que vai morrer enquanto você come bolacha com chá morno, é preciso esquecer a doença de sua mãe enquanto brinca no YouTube.

Espanamos o que se-foi do presente. mas logo a frente, o mesmo pó continua ali, a recobrir sua bolsa, seus livros e as beiradas das portas que deixa de abrir em seu apartamento.

o meu fugir de mim é pré-instalado de nascença.

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não, acho que o dispersar do urgente que é.

mas gosto de encher a mão com os grãos do importante.

(tem uma diferença Gonçalo-tavaresiana entre urgente e importante).

ou talvez só esteja tentando esquecer algo que deveria lembrar. ou isso é um apartamento fragmentado se reconciliando.

mas me lembrei de gostar disto:

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Hoje não

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tinha uma brincadeira uma tortura consentida entre os piás de Francisco Beltrão que se chamava “tratar verdura”.

(nunca descriptografei essa)

a regra era mais clara que o Arnaldo: ao ver a outra parte tratada, você deveria dizer ‘hoje não’. aquele que não disse ‘hoje não’, tomaria murros e pontapés até que dissesse a frase código.

por que as crtianças, todas do sexo masculino, participavam dessa ludicidade espartana?

não sei, nunca entendi também.

nem quando tinha idade pra ‘tratar verdura’.

mas me deu uma vontade de dizer “hoje não” bem na cara do marasmo e metre-lhe um socão no braço!

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Luto para um amigo

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cercado pelo casamento real de um lado e pela morte (insira sua dúvida conspiratória favorita sobre isso aqui) de Osama Bin Laden, se centra o mais importante – na verdade, pior – acontecimento do final de semana: a morte do escritor e pintor argentino Ernesto Sabato.

não precisa se sentir estúpido ou, pior, fingir que conhece o mestre gringo. pouco falado no Brasil e obscurecido pelos magistrais Cortázar, Bioy Casares e Borges, Sabato chama pouca atenção no meio literário daqui.

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mas essa injusta atenção pequena, é em nada desprezível. a Compania das Letras tem tudo (ou quase) do hombre em sua linha editorial.

o sempre foda Zé Castello escreveu sobre ele. leia.

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eu fui amigo de Sabato.

não, nunca o encontrei, nunca apertei sua mão e passei pelos segundos sem saber o que falar pra um ser humanao que (a mim) é (ainda É) tão admirável. nunca escrevi cartas pra ele ou e-mails (que eu duvido que ele tivesse). mas ele me conhecia muito bem. e eu a ele.

fomos amigos, e nossas conversas, urdidas pelo Túnel, Sobre heróis e tumbas, Homens e engrenagens e tantas outras palabras, apesar de iguais, cometem novidade. sempre.

ele me falava sobre o cientificismo e do racionalismo dogmático, que segundo ele, são a pinoia desse pampa desumanizador.

quando o conheci, em meio de um capítulo de Homens e engrenagens, no primeiro ano de faculdade, eu entendi alguma coisa. até hoje, não estou bem certo o quê, mas entendi. nessa época, Sabato já tinha abandonado a ficção e praticamente parado de escrever. apenas pintava, em sua casa em um lugar chamado Santos Lugares.

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pintava, até que esses olhos, perenes apontadores pro mundo, cansaram. e, nas armadilhas do idioma, no sábado passado, Ernesto Sabato morreu.

eu já tinha sentido que perdia um tio distante quando José Saramago morreu (não se fica impune a ler tanto o escrito de alguém), mas com o Sabato quem se vai é um tio querido, que nunca vi e nem verei, mas que encontrei mais vezes do que a mim mesmo.

como ele mesmo me disse, quando explicava porque a humanidade não se arrebata por uma onda suicida quando compreende sua mortalidade e vacuidade do viver:

“Que valor existiria se trabalhássemos e vivêssemos entusiasmados se soubéssemos que nos espera a eternidade? O maravilhoso é que o façamos apesar de nossa razão nos desiludir permanentemente. Como é digno de maravilhamento que as sinfonias, os quadros, as teorias, não sejam feitos por homens perfeitos, mas por pobres de seres de carne e osso.” (Homens e engrenagens, p. 129, Papirus, 1993)

vou continuar a conversar com Sabato. eu me vou um dia, e ele vai continuar a ser ouvido. quem sabe eu mesmo continue a ouvir…

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