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Encrenca, de Manoel Carlos Karam

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a literatura é notória em lembrar, é um exercício de memória e lembrança (tem diferença?).

talvez, por exigir tanto da memória, que o entorno literário seja tão bom em esquecer. ou talvez seja por isso que ele é bom em solapar, pra daí esquecer.

tive a sorte de ser um “vidaloka de estante de biblioteca” (como soa ridículo isso) e emprestar livros completamente na lôca – nessas li Jean Genet, Osman Lins, Campos de Carvalho e muito mais gente que esqueci.

fui numa dessas que eu li Pescoço ladeado de parafuso, de Manoel Carlos Karam. e como aquilo era insano, doentio, lindo e sei lá mais o quê.

lembra que falei de memória coisa e tal ali no começo? pois bem, esse é o momento de justapor as informações e gerar uma ideia, que é óbvia, não?

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[Manoel Carlos Karam, por Pedro Franz]

pra mim, Karam é um autor mal-tratado pela memória literária. ele não é negado, pois para ser negado é preciso ser visto, coisa que acontece pouco com ele.

Karam morreu em Curitiba em 2007. de lá pra cá, pouco se falou de sua obra.

(meu sonho é que uma editroa bem hype lançasse a obra do cara, pros putinhas de editora comprarem e descobrirem esse material – enfim, sonhos sem creme são de graça)

pois bem, sendo eu essa criatura karamzeada ia ver Fausto e por um “erro de agenda” precisei esperar 4 horas até o filme começar. fui e comprei um livro transportável o bastante pra atravessar esse tempo.

entrei na Martins fontes da Paulista e quase levei o Tu não te moves de ti, da Hilda Hilst, mas peguei pelo rabo d’olho o Encrenca do Karam. 

o livro, em primeira pessoa, é sobre um cara que anda por uma cidade imaginária de carro, imaginando-se perseguido por uma ambulância cheia de enfermeiras sinuosas, indo e voltando de um bar chamado About, onde bebe drinks que se chamam Bambu e Gerard. esse narrador, especialista em achar coisas, vive se perdendo em pensamentos.

mas o que acontece no livro?

quase nada. mas é um dos nadas mais divertidos e habilidosos que eu li. a manipulação de tempo e espaço que Karam lança nas páginas do livro é fantástica. só lendo pra entender (Aqui tem trecho do livro.)

uma prosa vergonhosamente original salpicada de muito humor e de muitas ideias. o texto do Karam não se parece com o grande romance (sul)americano da vez, nem com “a voz” de sua geração. as pretensões são outras, de outros formatos e tamanhos.

faz falta mais escritores desse tipo, de prosa alucinada, que alucinam seus leitores.

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