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O mar parecia um sátiro contente após o coit*

Eu e Osvaldo

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[da exposição do Museu da Lingua Portuguesa, em SP: Oswald: culpado de tudo!]

eu sempre gostei de Oswald de Andrade e nunca tinha lido.

gostava sem saber que ele existia.

aí um dia eu li aqueles poemas pau(brasil) pra toda obra, aquela demolição da frase feita e do clichê, aquele humor meio sem graça, uma desseriedade muito da importante. parecia que eu abraçava uma dose concentrada de açaí com macaunaíma.

daí eu li o Memórias sentimentais de João Miramar. Aí eu li o Serafim Ponte Grande. Aí eu entendi que sempre gostei do Oswald e da sua dança sem rebolado com as palavras.

(há de se confessar que lembro NESTE instante que tive um contato enganoso com o Oswald de Andrade pela citação em um CD da Legião Urbana – como é difícil confessar Legião hoje em dia – que era do Serafim: “O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus” – – descobri depois que a texto se completa com “depois todos morrem” e aquilo me pareceu aperta-coraçãosamente sério –. hoje eu penso que SP da época devia ser bem diferente da de hoje pro Oswald falar em árvore)

Ítaca com Serafim

com o aluno O. de Andrade eu soube qual o tipo de texto que eu gosto, que eu faço (cof!), que eu sou (cof, cof, cof!).

eu preciso ter muito cuidado pra não copiar o Oswald. a tentação é vergonhosa e poderosa.

e o lance com o Oswald é a sem-vergonhice.

mas e aí eu peguei pra reler o Serafim Ponte Grande (possivelmente alucinado pelo cinema de Sganzerla, que conversa tanto com a obra de Oswald, que é preciso mandar os dois embora de casa pra dormir) a diversão bate records a cada releitura, claro.

nessas, voltando de algum lugar, paro perto das máquinas pague quanto quiser de livros no metrô.

A história de como Lielson de Andrade encontra um livro e de que maneira isso o leva a postar em seu blog

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lá, estava ele ele: Pinto Calçudo ou Os últimos dias de Serafim Ponte Grande. eu descobri: José Ramos Góis Pinto Calçudo, expulso do romance por Serafim Ponte Grande, foi cumprir seu ostracismo numa máquina de livros. fez sentido demais!

convencido que se tratava de um ensaio sobre o Oswald, fiz o investimento em cash.

na leitura circular que sempre faço (orelhas, quarta capa, primeiro parágrafo, cinta/sobrecapa e índice – não nessa ordem) descobri que era uma obra de ficção de Sérgio Augusto de Andrade.

que inveja, que desbunde, que delícia!

Sérgio faz um contralivro ao não-livro Serafim Ponte Grande, contando a história a partir da perspectiva do coadjuvante, Pinto Calçudo. as relações com a obra de Oswald estão muito além do óbvio, embora Augusto de Andrade (também queria ser de Andrade, parece que dá certo pra escritor) emule com maestria o humor oswaldiano.

o livro, como sua contraparte, é uma cesta de piquenique de gêneros literários, com alusões claras ao Ulysses de Joyce e a Mario de Andrade, por exemplo. e muita putaria, óbvio. pra tornar ainda mais agravante, essa pérola é o primeiro livro do Sérgio.

é um híbridão, que mistura ensaio, ficção, paródia, desrespeito e homenagem pra falar de Oswald. isso sim é entender do que se fala. se não sacanear, não tá certo. se for muito respeitoso, entendeu errado. se explicar demais, enche o saco.

Última frase em busca de um fecho imponente a um texto

não se digere antropofagicamente Oswald, se rumina.

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