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Histórias a contar

Deixando cair um vaso da dinastia Hang (1995). AI WEIWEI

hoje morreu (ontem talvez) o João Gilberto Noll. segunda-feira já tinha se ido embora meu tio.

vou contar uma historinha: comecei o dia com uma estupidez. tive um momento de fúria contra um objeto (por ele não compreender o que eu queria dele). é o tipo de coisa que me intoxica, tipo passar o dia tentando não me odiar por ter sido essa fúria bestial e absolutamente despropositada.

enquanto desenvolvia uma autopunitiva azia e alguma dor de cabeça, bateu na minha timeline do Twitter a notícia da morte do Noll.

Trago de lá as observações que fiz:

encontrei a literatura do João Gilberto Noll por causa da famosa lista do Cristovão Tezza
famosa pra quem fazia Comunicação/Letras na UFPR até o Tezza pedir pra amarrar o cavalo em outra estância (era uma lista com uns trocentos livros de diversos autores, finesse da finesse literária)
eu, taradinho por listas, comecei a SEGUIR A LISTA pras minhas leituras (foi assim que encarei Montanha mágica e Ulysses, p.e.)
quando cheguei no João Gilberto Noll, fui pra Biblioteca pública do PR em Curitiba (top 5 pontos do mapa afetivo do lielsonistão) procurar
(eu, ALINHÁS, fazia isso: pegava indicação de um livro, ia pras prateleiras e olhava e olhava e olhava até colidir por acaso com outro livro: foi assim que cheguei no Camus)
((quanto texto interposto, hein)) (((acho que é coisa da memória)))
quando cheguei na estante com os livros do Noll, vi que eles eram finos e pensei “levar logo uns 3 desse caraê”
(um deles era da coleção Pleno Pecados, Canoas e marolas, a preguiça no caso, que me levou a ler os outros 6)
nessa devo ter lido uns 7 ou 8 livros do cara. são personagens em desmanche, diluindo-se, e o narrador nos dá o mundo pelos olhos deles
é tudo meio incerto, provável, um baita “pode ser”, impressionista, lírico, doído, bonito pra caralho, cenas homoeróticas soberbas
(arisco dizer que a literatura dele abriu minha cabeça pra entender isso de amor e desejo entre homens)
o Harmada, por exemplo, é um antiromance de construção. invés da formação, vemos a destituição de um personagem
tem a coisa de eu ter lido esses livros todos e mal lembrar dos enredos, porque importa pouco: o que vale é a sensação que eles passam
Esse sentimento e memória de ter lido e me sentido desse ou daquele jeito tá aqui comigo até agora. juntos, lamentamos a morte do Noll.

aumento ainda dizendo que meu tesão por histórias incertas e sem objetivos pode ter sido tonificada pela literatura do Noll.

na outra ponta da semana, meu tio Zanin. Ele também contava histórias, muito mais objetivo que o Noll. Pra ele, a coisa era a coisa, um seguidor de Alberto Caeiro que nunca o leu. Tudo que ele contava, fazia como se tivesse se passado com ele. Das situações impossíveis, pensávamos se tinha sonhado aquilo ou imaginado tanto, que virou memória.

surdo de nascença, mudo por causa disso, idade mental de uma criança numa vida de 50 e tantos anos e uma cegueira progressiva, eu pensava de onde vinham os estímulos para criar as histórias contadas com gestos firmes e efeitos sonoros, numa rede de significados. A família divergia sobre o sentido de alguns dos signos que ele criou (nunca soubemos se era um barbudo ou um papudo ou ainda um homem de lenço o principal vilão das narrativas, que tanto o atacava e recorrentemente apanhava e era posto na cadeia).

perto desses dois, minha história da manhã fica ainda menor e talvez alcance o seu ponto de ervilha no colchão.

disso tudo de hoje, sobram os livros do Noll, a vergonha e a saudade de meu tio e de suas histórias que, agora sim, estão mudas.

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Sobre não ser esquecido

Que nem lego:

até o Vasco tem mais gols que este blog postagens. feio, feio.

a última vez que escrevi aqui nem tinha tatuada uma frase do Ulysses no braço. pois é.

a última vez que escrevi aqui, se bem me lembro, nem tinha lido Vonnegut ainda. pois é.

mas então: coisa velha – direito ao esquecimento foi promulgado por uma corte europeia e obriga o Google a apagar os registros de uma pessoa e destruir, assim, a rede que a liga a outras pessoas, a instituições, a vexames e a glórias.

o nome pomposo promete muito mais Kafka (Beckett? Borges?) do que entrega, mas ser esquecido é um golpe histórico que esfaqueia o rim de cada um de nós. talvez, sei lá, Shakespeare e Einstein e uns outros tantos nunca sejam esquecidos, mas bote fé que tem um monte de caras legais da história que a gente não lembra porque… bem, porque esqueceu (ver Oswald de Andrade e seu retorno graças a Pignatari e os Campos; ver Tom Zé e David Byrne). pois é.

ser ignorado parece difícil pra nós, macaquinhos dominantes (pra mim, é). ser esquecido é não ser conhecido, é não ser considerado, é não entrar na conta. e isso é pra todos nós, mas não é pra qualquer um.

o impacto do dia fica com o norte-americano que queria ser lembrado e por isso abraçou a memória-zero. cansado de ~não existir~, Williams mandou uns emails marotos, falou de sua obra desconhecida e pulou dum prédio no Japão. pois é.

tô eu aqui falando dele.

matéria a ser lida aqui ó, no Público. E aqui pra quem preferir o texto em inglês.

uns querendo apagar as pegadas digitais e outros tentando sair da vida pra entrar pra história.

pois é.

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