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Kafkamente

quem nunca usou de um símile na vida pra se explicar?

“trabalhei que nem um imigrante andino escravizado em SP”

“você parece de vidro de tão frágil”

“minha vida é um livro aberto”

“carrego o mundo nas costas”.

uma pessoa acorda com uma miniatura do mundo nas costas. Outro personagem encontra um livro em que sua vida está toda escrita até o último dia. um menino pula da cadeira, bate a mão na mesa e vê seu braço trincar como vidro. e outro ainda se percebe como um personagem de ficção, obrigado a representar um boliviano num livro de um autor que detesta.

o querido e difícil Franz tinha dificuldade de lidar com os significados denotativos da linguagem (distúrbio identificado pela ‘patafísica como concretância). por isso humorizava e bizarizava tudo em alemão e assim criou A metamorfose, O artista da fome, O processo, O veredito, O Castelo e a lista segue.

é como se a realidade fosse tão cruel que até as palavras fossem incapazes de lhe aliviar e se tornaram somente um outro campo de batalha.

mas ele preferiu essa luta nas entrelinhas do que a vida na repartição, com o pai, com as noivas.

as lentes de Kafka não era de vidro, eram de letras.

Kafka usou sua palavra escrita pra mediar sua vida por aqui. por isso pediu que Max Brod destruísse seus textos ao morrer: ele não precisaria mais deles.

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hoje é aniversário de 130 anos do Kafka. aliás, não é, né? ele meio que morreu com 40 anos de idade.

fiz um mestrado que evolvia A metamorfose – se você pensar a enrolação que é um mestrado, todos as dissertações deviam ser sobre o Kafka numa espécie de homenagem torta.

(espero que a frase acima não soe como argumento de autoridade, autoridade tão temida por Franz)

dessa torteza, penso que seria uma verdadeira merda pro Franz ter sua obra ligada ao que odiou tanto, mas tanto, a ponto de fazer disso sua literatura: a maldita falta de noção engessada de um sistema desfuncional.

sim, caras, não é de burocracia que a literatura de K. fala. burocracia é mera organização e sistematização de algum processo, e também sua face mais aparente.

o problema é quando o sistema só serve pelo sistema. leis a serem acatadas porque está na lei. papéis a assinar porque um carimbo espera isso.

leiam o tcheco lá e vejam se não é isso. se não for, me desculpem.

e perdoem Kafka.

ele não é culpado das imobiliárias serem tão kafquianas.

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