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“Chegou a hora de ler o Ulysses” – Sergio Rodrigues

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abaixo vai o texto do Sergio Rodrigues, publicado em seu blogue sobre o Ulisses, de James Joyce e sua nova tradução. concordo com ele, mesmo eu sendo um cara entusiasta dos enigmas joyceanos no livro. vai o texto:

“CHEGOU A HORA DE LER O ULISSES – MAS SEM STRESS

Se você for um daqueles que contemplam a obra-prima de James Joyce a certa distância, com um misto de fascínio e pavor, sem jamais se animar a encarar suas muitas centenas de páginas, saiba que seu nome é legião.

Talvez você tenha passado batido pela tradução pioneira de Antonio Houaiss (Civilização Brasileira, 1966) porque ela tem fama de erudita demais – “será que ele usa todas as palavras do dicionário dele?” – e um estranho “Sims” como palavra final, quando o original é um simples Yes. (Millôr Fernandes, irreverente como o próprio Joyce, sugeriu a tradução “É”, como num grito de orgasmo.)

Pode ser ainda que a versão mais coloquial da professora Bernardina Pinheiro (Objetiva, 2005), que procurou tornar o “Ulisses” menos intimidador, mais joycianamente brincalhão, e ainda restituiu o “Sim” de Molly Bloom à sua singularidade, também não tenha sido suficiente para levá-lo a encarar o tijolo.

Nesse caso, quem sabe você está se sentindo finalmente tentado a dar uma chance a Leopold Bloom na recém-lançada tradução de Caetano Galindo (Penguin/Companhia), que consumiu dez anos de trabalho, contou com a “coordenação editorial” de um tradutor experiente como Paulo Henriques Britto e vem embalada numa capa elegante e cabeçuda como o próprio romance – embora também, como a versão Houaiss, tenha encontrado sua letrinha da discórdia na decisão de manter um ípsilon anglófilo no coração do título: “Ulysses”.

Será que chegou a hora de ler “Ulisses”, afinal?

Por que não? Se as inevitáveis comparações entre as três traduções, esse surpreendente luxo brasileiro, já ocupam hoje um time de eruditos – e continuarão a ocupar por muito tempo – o certo é que a ideia de “tradução definitiva” para uma obra tão apinhada de jogos de linguagem e referências subterrâneas como “Ulisses” é ridícula. Em vez de ficar esperando pela corporificação dessa miragem, começar imediatamente é uma decisão tão boa hoje quanto teria sido em 1966.

O único conselho que me parece importante é o seguinte: não leve “Ulisses” tão a sério, é só um livro. Grande, influente, inovador, ambicioso – certo. Elogiado por ninguém menos que Jorge Luis Borges com palavras fortes: “Mais que a obra de um único homem, o ‘Ulisses’ parece o trabalho de muitas gerações” – OK. Mais até do que isso, é provavelmente o único livro na história da literatura que conseguiu conciliar o máximo de vanguardismo com o máximo de “popularidade” – entre aspas porque se trata de uma popularidade erudita, com perdão do paradoxo, mas de todo modo resistente à passagem do tempo e com traços inequívocos de beatlemania, cosplay e outros componentes de histeria.

Tudo isso é verdade, mas é sempre bom ter em mente um alerta sábio de Raduan Nassar: “Reverenciam-se mitos de modo obsceno. Tem gente que fala em Joyce ou em Pound e parece que está dando cria”. Para contrabalançar os possíveis efeitos emburrecedores dessa mitologia, ajuda saber que um compatriota de Joyce, o escritor Roddy Doyle, declarou há poucos anos que o “Ulisses” era superestimado e “teria melhorado com uma boa edição”. Não se trata de dar razão ao autor de “The Commitments”, apenas de aproveitar o efeito benéfico de sua coragem herética.

Esse efeito benéfico é o de ler “Ulisses” em busca de prazer, não de charadas, enigmas, paralelos com Homero, piscadelas variadas. É claro que, com muita frequência, o prazer que houver virá de charadas e piscadelas, o que é ótimo. Acontece que inverter as prioridades, deixando de ser um leitor de carne e osso para ser um exegeta de pincenê, é para a maioria das pessoas a forma mais garantida de estragar a leitura e abandoná-la antes da página 20. Não por acaso, é também uma traição ao espírito de Joyce, um sujeito dotado de altíssimos teores de molecagem que, diante do reverente culto acadêmico que inaugurou, talvez reagisse com um ataque de flatulência e meia dúzia de palavrões.

O homem não era flor que se cheirasse. “Enfiei (no ‘Ulisses’) tantos enigmas e charadas”, disse, “que ele vai manter os professores ocupados por séculos, discutindo o que foi que eu quis dizer, e esta é a única forma de garantir a imortalidade.” É um dos traços de sua genialidade que essa declaração seja ao mesmo tempo uma verdade e uma gozação, duas faces de uma moeda que nunca para de girar. Vladimir Nabokov, que percebia o risco de enxergar apenas o lado sério da questão, atacou violentamente o autor do mais famoso “guia de leitura” do romance, Stuart Gilbert, “um chato”, afirmando que “seria uma completa perda de tempo procurar paralelos próximos (com a ‘Odisséia’) em cada personagem e cada cena do livro”.

Pode ser que o conselho não sirva para todos. Foi o que me serviu. Quando, após anos de relutância, finalmente li “Ulisses” (no original), fiquei surpreso de descobrir que o livro é – nem sempre e não só, mas certamente também – apaixonante, sensual, engraçado, cheio de efeitos sonoros, cromáticos e olfativos de um certo dia em Dublin, tudo plasmado em frases de musicalidade irresistível. Quanto a “entender” tudo, esmiuçar tudo, dissecar a borboleta, deixo para aqueles “professores ocupados por séculos”. Com todo o respeito, tenho mais o que fazer.”

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Aspas pra Ernesto Sabato

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uma passagem – dentre diversas – muito bonita de Sabato, na tradução de Janer Cristaldo:

“Mas nesse momento, naquele caloroso dia de verão, naquele úmido e pesado entardecer, com a transparente bruma de Buenos Aires velando a silhueta dos arranha-céus contra as grandes nuvens tormentosas do oeste, apenas eriçado por uma brisa distraída, sua pele se estremecia apenas como pela lembrança apagada de suas grandes tempestades; essas grandes tempestades que certamente sonham os mares quando dormitam, tempestades apenas fantasmagóricas e incorpóreas, sonhos de tempestades, que só conseguem estremecer a superfície de suas águas como estremecem e grunhem quase imperceptivelmente os grandes mastins adormecidos que sonham com caçadas ou combates.” (SABATO, Ernesto. Sobre heróis e tumbas. Abril: 1986, pp. 142 e 143)

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Instantes poéticos (ou Van ao vivo)

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hoje, a favorita de toda a equipe Lugar Certo, Van Rodrigues vai ler alguns de seus poemas no evento Zoona Literária, acompanhado de outros cabras.

22 agá, no Solar do Barão.

vai uma amostra grátis aí:

 

“18.

No que se vê não há leveza. Um navio flutua porque pesa. Submersos ficam as cordas, os ratos, os restos. A despensa, os traumas e tudo o que não se quer mostrar. No entanto, é pelo lastro que o navio desliza.”

e um pouco da prosa também:

Porque é preciso aceitar seus traços. Olhar cada deformidade, todas as assimetrias com o amor de uma mãe pelo seu filho um tanto torto. Olhar-se com compaixão, isso eu ensinaria a meu filho adolescente ou a minha mãe, que tem medo dos espelhos dos provadores desde que não tem mais a mesma medida de antes.

E falo isso porque me ocorreu que não nos acostumamos com nossa imagem. Talvez porque não temos diante de nós sempre um espelho e quando temos são os detalhes que nos interessam. Os olhos, a pele, as sujeirinhas dos poros, nunca o conjunto todo. Não há o distanciamento. Nem a recorrência.

Há também a insatisfação. A comparação com as demais faces do mundo só é possível quando vemos aquela fotografia um tanto maldosa, em qualquer ângulo desfavorável, que estampa seus defeitos achatados em duas dimensões. Há a comparação com a imagem que criamos com o tempo, um quebra-cabeça de lembranças e aquela, real, inegável.

Sem o frescor do jeito como mexemos os olhos, ou o tom de voz, ou as coisas que somos capazes de dizer toda beleza se resume à superfície de uma imagem chapada. E às vezes é pouco.

É preciso a cada manhã olhar-se com delicadeza e com a luz certa. Porque tudo é emanação.”

veja o restante da programação no blogue do evento.

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lendo Esculpir o tempo

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leio atualmente,. o bom livro do cineasta russo Andrei Tarkovski. a tradução é meiaboca, mas vale a citação: 

“O material cinematográfico, porém, pode ser combinado de outra forma [em relação a sequência lógica e habitual dos filmes] , cuja característica principal é permitir que se exponha a lógica do pensamento de uma pessoa. A origem e o desenvolvimento do pensamento estão sujeitos a leis próprias e às vezes exigem formas de expressão muito diferentes dos padrões de especulação lógica. Na minha opinião, o raciocínio poético está mais próximo das leis através das quais se desenvolve o pensamento e, portanto, mais próximo da própria vida, do que a lógica da dramaturgia tradicional. E, no entanto, os métodos do drama tradicional são vistos como os únicos modelos possíveis, e são eles que, há muitos anos, determinam a forma de expressão do conflito dramático.

Através das assossiações poéticas, intensifica-se a emoção e torna-se o espectador mais ativo. Ele passa a participar do processo da descoberta da vida, sem apoiar-se em conclusões já prontas, fornecidas pelo enredo, ou nas inevitáveis indicações fornecidas pelo autor. Ele só tem a sua disposição aquilo que lhe permite penetrar no significado mais profundo dos complexos fenômenos representados diante dele.”

ANDREI TARKOVSKI in “Esculpir o Tempo”, p. 17. Editora Martins Fontes, 1998, tradução de Jefferson Luiz Camargo.

Troca ‘cinematográfico’ por ‘literário’ e ‘espectador’ por ‘leitor’ e tem uma aula de escrita.

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Quintântico dos quintânticos

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parece que HOJE é dia da poesia.

mando lá umas aspas, só pra constar:

A oferenda

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos…

Trago-te estas mãos vazias

Que vão tomando a forma do teu seio.”

Mario Quintana, lírico e safado, como a boa poesia.

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Eu li o Contardo Calligaris

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a (sempre) elucidativa coluna do Calligaris de ontem vai abaixo.

interessantíssimo o modo de ver o Carnaval e a bela leitura de O cisne negro, filme queridinho da equipe desse blogue.

“Cisne Negro”, o Carnaval e as mães


Se conseguimos viver plenamente, é graças a autores e intérpretes que nos revelam nosso lado B


“CISNE NEGRO” é a história, muito bem contada, do desabrochar de uma loucura. Mas amei o filme por outras razões. Aqui vão duas delas.

1) Revi “Cisne Negro” no domingo e, na volta do cinema, assisti ao Carnaval na TV.

Gosto da exuberância de alegorias e fantasias, e o que mais importa no Carnaval talvez seja a paixão das escolas ao preparar o desfile, mas resta que, na televisão, o espetáculo do carnaval e de seus bastidores consegue a façanha se ser, ao mesmo tempo, vulgar e careta. Como é possível?

É que, no espetáculo televisivo, a transgressão da folia consiste numa tremedeira de carnes (vagamente sugestiva de um exercício sexual), acompanhada de uma dose diurética de cerveja. Ou seja, o Carnaval na televisão é um programa infantil, pois é assim que as crianças imaginam a transgressão: vulgar como xixi-cocô e careta como suas suposições sobre o que acontece entre adultos na hora do sexo.

Só para confirmar: as crianças encaram com prazer o tédio de uma noite de desfiles em família, na frente da televisão. Elas acham reconfortante supor que o lado B dos adultos seja parecido com a visão infantil da transgressão: comilança, bebedeira, bunda e peitos.

Só falta um pum final.

Na verdade, fora esse momento anual de regressão coletiva, espera-se que, para os adultos, a transgressão seja uma excursão em territórios mais tenebrosos e mais aventurosos. Espera-se que o lado B da gente não caiba no Carnaval televisivo e que sua descoberta peça mais do que alguns litros de cerveja.

1) Nada torna a vida interessante tanto quanto a descoberta de nossa própria complexidade; 2) Talvez a função mor da cultura seja a de nos dar acesso a partes de nosso âmago que normalmente escondemos de nós mesmos; 3) Conclusão: se conseguimos viver plenamente, é graças a autores, atores, intérpretes etc. que nos revelam nosso próprio lado B (e C e D).

Agora, será que o artista poderia levar espectadores ou leitores para territórios que ele não tiver primeiro desbravado nele mesmo?

Alguns pensam assim: só quem ousa se aventurar pelo seu próprio lado B consegue revelar aos outros o lado B que eles escondem de si mesmos. Nina, a estrela do “Lago dos Cisnes”, não poderia arrebatar seu público sem se entregar corajosa e perigosamente a seu lado obscuro, sem se entregar ao cisne negro nela.

Outros pensam que, para encarnar o cisne negro, Nina não precisa sentir sua lascívia na pele. Bastaria ela atuar e dançar (como dizia Diderot) com a inteligência, e não com o coração. Mas como ela poderia dançar e atuar o cisne negro com a inteligência sem conhecer e entender o que ela precisa expressar?

Seja como for, quem acha que seu lado obscuro é feito de carnes trêmulas e cerveja deveria fazer um esforço sério para sair da infância. Nesse esforço, Nina e “Cisne Negro” seriam de bastante ajuda.

2) Homens e meninos, mesmo quando aspiram à perfeição, convivem razoavelmente bem com falhas e fracassos. É porque acreditam firmemente que, mesmo imperfeitos, eles nunca deixarão de ser tudo o que suas mães pediram a Deus.

Mulheres e meninas, ao contrário, sentem que, mesmo alcançando a perfeição, não serão o que suas mães pediram a Deus. A explicação clássica disso é que elas, pelo simples fato de serem mulheres, nunca preenchem a expectativa materna tanto quanto um filho varão. Paradoxo: as mulheres aspiram à perfeição mais do que os homens porque tentam merecer uma aprovação materna que é quase impossível.

Há uma outra explicação do sentimento feminino de não corresponder às expectativas maternas. Essa explicação, mais inquietante, diz que, para uma mãe, o triunfo de uma filha (profissional ou amoroso) sempre apresenta ao menos um defeito: o de não ser o triunfo dela mesma, da própria mãe.

A mãe de Nina espera que o sucesso da filha compense suas frustrações de bailarina que renunciou à carreira. Também acusa a filha de ser a causa dessa renúncia. Qual será o melhor bálsamo para a ferida: o sucesso ou o fracasso da filha?

Muito frequentemente, as mães rivalizam com as filhas. Essa rivalidade é especialmente óbvia e feroz quando, de um jeito ou de outro, oferecendo pelúcias ou preparando chazinhos, uma mãe tenta manter a filha parada numa eterna infância.

ccalligari@uol.com.br

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Jornal velho – Marcelo Coelho

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Na Ilustrada de ontem, Marcelo Coelho fala sobre sungas e sobre a revolução egípcia.

Concordo com tudo, menos com a parte do mocassim.

MARCELO COELHO 

Sungas, jamais! 


Às favas, portanto, com vossas sungas, cariocas, pernambucanos, paulistas: soy antes argentino


OS BRASILEIROS invadiram Punta del Este neste verão, segundo li na Folha algumas semanas atrás. Um detalhe, entretanto, chama a atenção de uruguaios e argentinos.
Estranha-se muito, naquelas praias do sul, que os brasileiros estejam sempre de sunga. E de correntinha. Por lá, o uso da sunga parece ser restrito apenas aos membros da comunidade gay.
Ao ver alguém de sunga em Punta del Este, portanto, o argentino típico hesita: é gay ou é brasileiro? Ou será as duas coisas?
No que tange à indumentária masculina, tendo a admirar os padrões argentinos. Demorei muito a “assumir”, digamos, o uso da sunga e da havaiana em lugares de praia.
Preferi, durante muitos anos, usar a bermuda de algodão e o mocassim. Era menos “popular”; mais “distinto”, mais “clássico”, mais… argentino.
Tendo aposentado esse modelito aí pela segunda metade do governo Fernando Henrique Cardoso, assinalo que minha antipatia pela sunga não diminuiu com o uso, e possui diversas razões para se manter.
Razões históricas, psicológicas, etimológicas e sociais.
Históricas: minha aversão pela sunga remonta aos anos 80, quando numa operação de marketing político divulgaram fotos do general Figueiredo fazendo exercício. Compenetrado e furioso, o então presidente da República levantava halteres, bufava numa pista de corrida, expelia suor e testosterona pela careca; tudo isso, de sunga e tênis.
Esse tipo de atleta já passado em anos é comum em certos lugares do Rio de Janeiro, como a praia do Flamengo; sem dúvida, um paraíso para militares aposentados. Jogam peteca e fazem cooper; a pele, de tanto tomar sol, já é uma espécie de couro, de casco, de couraça cangaceira; a energia desses sexagenários, voltada para o frescobol ou o vôlei de praia, ganha aspectos de inconfundível revanchismo.
Por cima, a sunga. Tudo, menos usar uma coisa dessas! Verdade que minha repugnância escondia outros complexos, outros traumas. Nunca me orgulhei do meu próprio físico. O uso da sunga -pura e simples, sem camisa- inspira-me um nada falso movimento de modéstia. Às favas, portanto, com vossas sungas, cariocas, pernambucanos, paulistas: soy antes argentino. Quizás uruguayo.
A palavra, em si, já me desagrada, com seu “g” pendurado depois da cava do “u” e do “n” invertido na frente.
Passemos à correntinha. Provavelmente aquelas antigas, de Nossa Senhora Aparecida, não se usam mais; o que causa estranheza em Punta del Este deve ser mais aqueles correntões de ouro, tipo bicheiro e traficante, outra herança dos anos Figueiredo.
Mas que seja: correntinhas; beijá-las antes de entrar na água. Fazer o sinal da cruz na hora de cobrar um pênalti. Um argentino não sei, mas um americano poderia talvez pensar, a cada gesto desse tipo, que o povo brasileiro é composto de religiosos, e mesmo de fanáticos.
Cada vez que vejo muçulmanos inclinados para Meca, naquelas fotos que os mostram em multidão, a ideia do “fanatismo” se acende em mim do mesmo jeito. Como saber? Talvez uma reza seja apenas uma mistura de reverência e hábito, de respeito e medo, como o ato de quem se persigna ao entrar no mar.
E aquelas mulheres de véu na cabeça, participando das manifestações no Egito, usam o véu por razões “religiosas”, é certo. Mas quem sabe se não tão religiosas assim.
Evitar o uso de sunga e preferir a bermuda não é religião, mas quase -envolve pudores, convicções, tabus, hábitos, preconceitos, crenças, sei lá o que mais.
Escrevo isso enquanto leio artigos dizendo o que os egípcios querem ou deixam de querer em seus movimentos de protesto. Não são religiosos. Querem liberdade. Não querem liberdade. Querem emprego. Não querem emprego. Querem…
Com que autoridade se multiplicam essas interpretações! É como se alguém dissesse, durante as Diretas Já, que os brasileiros não querem democracia, mas sim uma moeda estável… Ou se, em 1979, alguém dissesse que os iranianos queriam democracia, e nunca iriam aceitar um regime fundamentalista xiita.
Não me arrisco a interpretar os egípcios, portanto. Aquela situação pode evoluir em muitas direções. Só para quem acredita em Alá, de resto, tudo já está escrito. Eu, por exemplo, nunca quis usar sunga. Acabei usando -sabe-se lá onde isso vai parar. 
coelhofsp@uol.com.br

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Jornal velho – Antonio Prata

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Sou fã desse cara!

Saiu no Cotidiano, da Folha de S.Paulo de ontem:

ANTONIO PRATA

Cê tem aí uma faquinha?


Adiaremos sempre o “tá resolvido!”, repetindo em seu lugar o angustiante “até aqui, tudo bem”


“DEEM-ME UMA ALAVANCA e tirarei a Terra de seu eixo”, disse o grego Arquimedes, no século 3 a.C. “Deem-me uma faquinha e um pedaço de fita isolante que eu a coloco de volta”, diria um brasileiro, em qualquer época.


Não há desafio neste mundo -de trocar a fiação do prédio a consertar um carro usando peças do motor da geladeira- que o patrício não se ache capaz de enfrentar, munido destes dois multifuncionais objetos: faca & fita.


A faca, entre nós, é chave de fenda e Philips, alavanca, plaina, martelinho, espátula, pincel, régua, alicate, pá; até como antena de rádio já vi usarem-na, presa ao aparelho por -claro!- um pedaço de fita isolante, sua fiel companheira. Se a faca, clara e brilhante, corta, penetra, separa, desbrava, qual bandeirante varonil, a fita, negra e opaca, une, remenda, conserta, protege, mãe gentil. Eis a dupla perfeita, nosso Yin Yang made in Brasil.


Dia desses, eu estava no banho e senti um cheiro de queimado. Chamei um eletricista. Ele constatou que o fio que ia da caixa de luz ao chuveiro era mais fino do que o recomendado pelo fabricante. “Precisa trocar a fiação, seu Antonio”. Fiquei olhando-o com aquela cara suplicante que todo brasileiro faz diante de um problema, esperando por uma solução mágica. Ela veio: “Se bem que, no caso, se eu desencapar aqui na ponta e refizer a ligação, enrolando bastante fita isolante, segura mais uns dois, três meses.


Quer?”. “Quero!”. “Beleza. Cê tem aí uma faquinha?”. Já faz uns quatro meses e, até aqui, tudo bem.


Claro que nem toda faquinha é concreta, nem toda fita é tangível.


Quantos presidentes da República não se elegem prometendo reforma política e tributária mas, chegando lá, dizem que, “se bem, no caso, se desencapar aqui, cortar dali, enrolar acolá, pronto!” O próximo proprietário que troque a fiação – e arque com o custo.

Que não se anime demais o leitor liberal, desses que pensam que os males do país são todos frutos da governança pública e de uns seres maléficos chamados políticos, tão diferentes de nosotros. O que são esses terceiros andares ilegais nas casas de São Sebastião, que o Cotidiano tem revelado? No projeto aparecem como mezaninos; na paisagem, lá estão: um andarzão a mais, a contrariar as leis de ocupação. E as danceterias com alvará de restaurante? E as máfias das autoescolas, que agem junto ao Detran, para “liberar” e “agilizar” a documentação do pessoal? Tudo puxadinho, construído na base da faca e da fita isolante, a criar cômodos e incômodos sobre e sob as lajes da lei.


“Ah!” – diz o brasileiro, em sua defesa – “é que com as leis absurdas” “com os fiscais corruptos”, “com o Congresso que a gente tem”, “com as lombadas eletrônicas”, “com o preço da reforma” -esse fui eu – “não dá pra fazer a coisa correta. Esse país só funciona com gambiarra!”


Então tá. Adiaremos sempre o “tá resolvido!”, repetindo em seu lugar o angustiante “até aqui, tudo bem”.
Até a hora de o chuveiro pegar fogo, o morro deslizar, o prédio despencar, a luz do país inteiro apagar. Já imaginou que horror, se acontecesse alguma coisa dessas? Deus me livre! -digo eu, e dou três batidas no cabo -de madeira- da minha faquinha.

antonioprata.folha@uol.com.br

@antonioprata

Blog “Crônica e Outras Milongas” 
antonioprata.folha.blog.uol.com.br

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Jornal velho

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dizem que jornal de ontem já não vale de nada. eu, em protesto, apresento o texto da coluna de Marcelo Coelho para a Ilustrada de ontem.

o tema da ética nacional me interessa particularmente e, embora não pareça pelo início, é disso que o texto trata.

MARCELO COELHO 

Corrompa ou obedeça 


Inspeção veicular, tomadas de três pontas ou nova ortografia: o Estado sempre inventa das suas


VAI TERMINANDO janeiro e, se você for como eu, já está se preocupando com o que deixou de fazer neste ano. Em especial em matéria de burocracia automotiva: IPVA, multas, licenciamentos e revisões. Digo isso porque, até agora, nada fiz no tocante à inspeção veicular do meu velho Astra, já veterano nessa espécie de Enem sobre quatro rodas.
Procurar novamente no mapa o lugar (inexistente, inacessível) onde há “agendamento disponível” para “efetuar” o “controle do meu veículo”? Como assim? Já não fiz isso no ano passado? Ou melhor, não fiz isso há coisa de um ou dois meses, nada mais?
Sim, responde, grave, a voz da consciência. Fizeste a inspeção em dezembro, porque consentiste com meses e meses de atraso descomunal. Viraste o ano, renasce o teu desleixo. Janeiro já faz a conta dos teus pecados.
Eis, entretanto, a boa notícia. Surgem na cidade mecânicas especializadas na inspeção veicular. Ou seja, previnem surpresas desagradáveis na hora da medição das emissões do seu veículo. Fazem mais: agendam a inspeção, levam o carro, devolvem-no perfeito e aprovado.
Não duvido da existência de profissionais honestos nessa nova área de atividade, como os há nas auto-escolas, nos exames psicotécnicos e em coisas do gênero.
Disseram-me, entretanto, que muitas oficinas sabem o truque para passar na inspeção. Desregulam o carro antes de levá-lo aos técnicos da Controlar, que aprovam tudo, e depois o cliente recebe o carro com a desregulagem desfeita, isto é, poluindo tanto quanto devia desde o início.
Muito trabalhoso e inverossímil, penso eu, quando, num bom sistema de agendamento terceirizado, a burla poderá ser feita de comum acordo entre a oficina e algum técnico mais camarada.
Honestas ou não, vejo que pipocam oficinas na própria vizinhança dos estabelecimentos de controle. Vejo também que, com isso, surgem dois tipos de cidadãos.
O primeiro tipo é aquele que entra de cara amarrada na inspeção, pronto a liderar algum movimento contra o sistema. Depois de dez minutos no máximo, recebe o laudo: foi aprovado.
Pude ver, esperando na fila, o sorriso de felicidade desse cidadão; sente-se limpo, cumpriu sua parte, não terá nova chatice antes do ano que vem, seu problema pessoal foi resolvido -e o escândalo, se escândalo havia, já não é mais da sua conta.
O segundo tipo de cidadão é aquele que já recorre direto à oficina especializada e não se incomoda se estiver acontecendo alguma coisa errada por baixo do pano.
Por mais opostos que pareçam, os dois se complementam. Quem paga propina está na verdade se vingando de um Estado que impôs, certamente com fins arrecadatórios, uma fiscalização nova, uma exigência a mais sobre os cidadãos.
Já tentaram tornar obrigatório o estojo de primeiros socorros, como o seguro contra terceiros, a cadeirinha das crianças, e não esqueçamos do próprio pedágio… O cidadão corrompe no varejo em reação ao que vê como corrupção no atacado -as grandes licitações e negociatas para impor legislações desse tipo.
Por sua vez, o sujeito que não paga propina e sai feliz com seu pequeno certificado de plástico padece de mentalidade parecida. Os assuntos públicos não lhe dizem respeito se consegue safar-se deles.
Nos dois casos, o Estado surge como uma entidade alienada, estrangeira, que não está sob nosso controle nem nasceu de nós.
Há outros exemplos disso: a nova tomada de três pontas, que ninguém sabe como foi imposta, e que temos agora de adotar ou de adaptar, para lucro de quem inventou a nova moda. E a nova ortografia, que, uma vez em vigor, todo cidadão de bem se preocupou em obedecer, gastando mais dinheiro e tempo em aprendê-la do que em protestar contra sua criação.
Quase 200 anos depois da Independência, ainda temos do Estado uma visão colonial. Trata-se de uma entidade arrecadatória, nascida de algum reino estrangeiro que inventa novas coisas para nos infernizar e que cumpre enganar do mesmo modo com que nos tapeia.
A corrosão ética da coisa toda nasce, a rigor, da política, e não o contrário: por se tratar de uma cidadania imperfeita, de um autoritarismo latente, de uma democracia sem participação e de um Estado, afinal, sem dono, mas com muitos gerentes e coronéis, é que corromper ou obedecer são as saídas que conhecemos. Não adianta reclamar depois.

coelhofsp@uol.com.br 

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Neve até o pescoço e abstinência de vodka

copiando a ideia do blogue do André de Leones, jogo aqui uma citação de Liév Tolstóy, na tradução de Tatiana Belinky.

qualquer relação com Memórias póstumas de Brás Cubas fica por sua conta. Nikita sobreviveu a uma noite de nevasca. Anteriormente, por conta de sua bebedeira, sua mulher o havia trocado por outro marido.

feita a introdução, Tolstóy:

“Nikita acabou morrendo em casa, como desejava, sob as imagens dos santos e com uma vela de cera acesa na mão. Antes de morrer, pediu perdão à sua velha e, por sua vez, a perdoou, pelo toneleiro. Despediu-se também do filho e dos netinhos, e morreu sinceramente feliz porque, com sua morte, livrava o filho e a nora do fardo de uma boca a mais e porque, ele mesmo, já passava desta vida da qual estava farto para aquela outra vida, que, a cada ano e hora, se lhe tornava mais compreensível e sedutora.

Estava ele melhor ou pior lá, onde acordou, depois desta morte verdadeira? Terá ficado desapontado, ou encontrou aquilo que esperava? Todos nós o saberemos, em breve.”

Senhor e servo, in A morte de Iván Ilitch (Editora Paulicéia, 1991), páginas 66-67.

 

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