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Tirei as cartas e o arcana maior era o Jodorowsky

Hoje saiu mais HQ lá no Diletante Profissional, site do Zé Oliboni. Eu fiz o roteiro e ele desenhou (a parceria tá rendendo bem). Aqui vai a história e lá embaixo eu falo sobre o roteiro dela.

tarô

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Eu queria fazer uma HQ sobre presente e a força de cada momento em si mesmo. Pensei em vários quadros soltos com aspectos da vida - não da vida de um personagem, mas a vida ela mesma. Achei que a narrativa do tarô era legal pela suas cesuras e força simbólica. Na minha pesquisa, encontrei o Jodorowsky falando que lia o tarô pra enxergar o presente e não o futuro. Incluí a noção de que as cartas são brancas, portanto sem nada, portanto com tudo, e cheguei ao título.

Em seguida apostei num esquema que gosto pra HQs curtas: uma frase forte e importante que direciona o sabor das imagens, e que é interrompida entre uma página e outra. Pensei em usar o Mallarmé e seu Lance de dados, mas queimei a cabeça numa frase original: quando o tarot mostra a finitude, as cartas foram tiradas pelo infinito. é como se os desenho fosse uma virgulazona,

(vale aqui a reflexão de quanto se valoriza o original, porque é óbvio que essa frase é inferior a qualquer uma do poema do tio Stéphane)

Primeiro pensei na tentativa organizada de dispor os momentos da nossa vida, por isso os ângulos retos, a linearidade (que evoca sua irmã, a circularidade). A última página quebra isso com a espiral, meio que dizendo que essa coisa de encaixotar e alinhar tudo não vai rolar, véi. Acredito porém que a HQ tem abertura de leituras bastantes pra outras coisas serem encontradas ali.

O texto no livro é de Charles Baudelaire, e coloquei justamente por conta da última frase, uma bússola conceitual da HQ; segue o seu trecho final:

A primeira pessoa que vi na rua foi um vidraceiro, cujo pregão cortante, dissonante, me chegou através da pesada e suja atmosfera parisiense. É-me, aliás, impossível dizer por que fui tomado, em relação a esse pobre homem, de ódio tão repentino e despótico.
“Ei! Ei!”, gritei-lhe que subisse. Entretanto refletia, não sem algum contentamento, que, ficando o quarto no sexto andar e sendo a escada bastante estreita, seria difícil para o homem operar sua ascensão sem enganchar por toda parte os ângulos de sua frágil mercadoria.
Finalmente apareceu-me: examinei curiosamente todos os vidros e lhe disse: “Mas como? Não tem vidros de cor? Vidros cor de rosa, vermelhos, azuis, vidros mágicos, vidros do paraíso? Como é descarado! Ousa passear pelos bairros pobres sem ao menos trazer vidros que tornem a vida bela!” E o empurrei vivamente para a escada, onde tropeçou resmungando.
Cheguei até o balcão, apanhei um vasinho de flores e, quando o homem reapareceu na soleira da porta, deixei cair perpendicularmente meu engenho de guerra sobre a parte de trás de seu fardo; o choque o derrubou e ele acabou de quebrar sobre as costas toda a sua pobre fortuna ambulatória, que fez o barulho estrondoso de um palácio de cristal arrebentado por um raio.
E inebriado com minha loucura, gritei-lhe furiosamente: “que tornem a vida bela! a vida bela!”
Essas brincadeiras nervosas não deixam de comportar algum perigo, podemos pagar caro por elas. Mas que importa a eternidade da danação para quem encontrou num segundo o infinito do gozo?
BAUDELAIRE, Charles. O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa. Trad. Leda Tenório da Motta. Rio de Janeiro: Ed. Imago, 1995:34-35)

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