Tag Archives: Cotidianando

Histórias que imaginei enquanto usava o transporte público de São Paulo # 3

(primeira versão)

OU A volta para casa de Ulisses

Media_http1bpblogspot_titfc

ela, vestida de blusa de onça e jeans, atravessou a plataforma de mãos dadas com ele, que estava de tênis, calça larga e camiseta estampada.

ela, com seu salto médio, pisa firme nos olhares que a acompanham até a ponta da plataforma, onde existirão as últimas portas do trem, daqui a poucos minutos. ele, mal olha para ela. segue firme, apressando seu passo curto para não atrasar o conjunto, com olhar firme, pra frente.

ela para ao lado da última coluna, onde o teto da estação deixa de ser e o coloca a frente dela. ela olha pra baixo, mas ele não olha pra cima. ele vê um rapaz bebendo água pra apagar com antecedência o calor da superlotação. e é a partir da água, que tanto já se falou em dicionários de símbolo, que lhe fluiu a palavra, pequena como ele, mas inteira:

– água! tem?

– quer água? acho que não t… ela interrompe o texto e o raciocínio. a busca por aquilo que ela sabe não ter ocupa toda sua vida dentro da bolsa: não, não está ali.

– água? ele insiste, sem acusar, só pedindo mesmo.

– não tem, filho. quer o mamá?

– não… ela passa a mão no cabelo dele e ele se senta.

– filho, não senta no chão que tá sujo, tá?

ele apoia as costas na pilastra, se equilibra e mantém-se de cócoras. quase levanta o pescoço até ela, mas prefere olhar paras as pernas que vem-e-vão.

– … isso, é, assim pode, filho… ela coloca os óculos escuros, confere o relógio da estação, olha pra o celular, o guarda na bolsa, mas não sabe que horas são. vê um espaço no banco a alguns metros. ele, já em pé, a ronda.

– senta lá, filho. eu te espero aqui.

puxado (ou empurrado), ele vai e trepa no banco. balança as pernas. e olha pra mãe pela primeira vez. fica pouco no banco, como se o impulso que o levou até lá fosse um empréstimo a ser devolvido. corre de volta e novamente ronda as pernas da mãe.

ela leva a mão nos cabelos deles, que não a impede, nem a incentiva.

– como foi na casa de seu pai?

– …

– ele fez bolo pro você?

– não…

– mas era seu aniversário, ele não… não tinha bolo?

– tinha bolo de chocolate.

confusa pela ilógica, mas divertida pela mesma razão, a mãe continua:

– bolo de chocolate é bom.

– é…

– tava gostoso?

– me dá o carro?

ela volta a cavocar a bolsa até tirar um pequeno brinquedo vermelho. em uma exploração cinematográfica, poderia se usar um ponto de câmera em contraplongée, valorizando a inundação solar, aproximando lentamente da mão da mãe, garantido o foco no objeto envelopado pela luz natural, faiscando de vermelho. mas não, isso não aconteceu.

ele pegou o brinquedo e fez os seus personagens (que ainda emprestarei um dia) dirigirem um veículo em alta velocidade nas paredes de um edifício gigantesco. tudo é possível aos heróis.

– ó! e mostra pra sua mãe uma epifania em plástico: além do milagre de dar vida a quem não existe, ele também é capaz de tirar as rodas do carrinho. admirada como aqueles que veem sua fé confirmada, sua mãe diz:

– puxa, mas ele não é feito pra isso. cuidado pra não quebrar, tá?

– tá… as rodas voltam ao seu lugar e toda a magia se converte em um trem que chega.

ela passa a mão na cabeça dele de novo, ajeita sua bolsa e o pega no colo.

– o bolo era pra festa, não era pra mim, ele diz perto das bochechas da mãe.

– ai, Ulisses… e ela ri como fazia tempo que não conseguia.

Mãe e filho entram no trem e se sentam. o trem parte e eles navegam, juntos. marinheiros.

Ulisses errará por 14 anos até encontrar sua esposa e livrar sua casa dos pretendentes.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Mais uma vez, na sala de cinema

Media_http4bpblogspot_iieyd

enquanto eu subia a escada rolante da estação consolação, eu praguejei contra a senhora, toda passeante, que não deixou a esquerda livre para os apressadinhos e atrasados. que não deixou a esquerda livre pra mim.

corri pelas calçadas augusta abaixo até chegar ao cinema, interrompi uma moça confusa, que queria comprar uns ingressos pra teatro e não sabia o que fazer, e peguei meu bilhete gratuito praquela sessão da mostra.

me apressei pela porta sem funcionário pra rasgar o ingresso, achei o meio da cortina preta, entrei, localizei a Van e me sentei.

entre dois ufas e goles d’água, desliguei o celular, e fui sugado imediatamente.

Media_httpmsalxvejasp_jdxfe

eu saí daquela sala de cinema na rua Augusta, eu estava em um mundo de granulados, luzes e cores envelhecidas.

por 45 minutos, eu vivi dentro de Vestígio.

a singela e delicada história sobre os últimos fios de vida de Uno Kawase, avó que criou Naomi, a diretora do filme.

não há muito o que falar que não pareça piegas, por isso a Naomi fez um filme – que é emocional no melhor sentido da palavra. as imagens e a construção do filme é tão certeira que a avó/mãe de da Naomi se transforma.

Uno Kawase se torna a mãe de todos nós, que todos sabemos (sem querer pensar muito nisso) que enterraremos um dia. eu nunca estarei preparado pra isso que sei que vai acontecer. pra ver que saber e entender nem sempre se entendem.

é o caminho da vida que nos tornemos órfãos.

a beleza e a sutiliza dessa ameaça tão forte, cria uma rede frágil, que enrola todo o espectador. e o expectador se vê em Uno. é certeza da vida que assim que nossos pais morrem, que sejamos os próximos.

a dicotomia dessa vidinha curta e sempre mal-aproveitada com o final certo assustam, apavoram e comovem.

se há filmes que fazem a experiência de cinema valer a pena, esse é um deles.

quando Naomi encerra o filme (“muito obrigada”), sou arremessado de volta na cadeira no meio de uma sala escura. Vanessa e eu nos pegamos pela mão e saímos dali.

eu sei que algo intenso aconteceu em mim, mas não sei se um dia serei capaz de entender.

1 Comentário

Filed under Uncategorized

O lado Obladi-obladá

Media_http29mediatumb_dxzaf

a pior música dos Beatles.

embora, pra  mim, a suada de brega And I love her seja pior. mas partamos dum certo consenso beatlezento de que Ob-la-di ob-la-da é a pior música dos Beatles.

mas peraí: Ob-la-di ob-la-da não é exatamente ruim. é possível cantar junto, pular e ser feliz por 3 minutos e 8 segundos. claro, ela pode trazer bons momentos, mas nunca vai deixar de ser ob-la-di ob-la-da.

é tipo o seu amigo que come de boca aberta. não é legal, mas ele conta boas piadas de estética enquanto come. toda a filosofia envolta em feijão, arroz e alface. não esvazia as afirmações, pelo contrário, as preenche de grãos mastigados.

ou seja, é ruim, mas você se lembra de algo bom e se bobear já canta a música no ônibus da volta pra casa.

não há dúvida, ob-la-di ob-la-da tem seu garbo.

Media_http4bpblogspot_gvjqf

mas continua ruim. é indissociável desta canção ser boa e ao mesmo tempo boba. e isso a torna a música mais humana dos Beatles.

nós temos isso: sabemos ser batutas e, exatamente por isso, somos também intratáveis e misteriosos vilões. nós somos obladi-obladazados.

carregamos um afinado e harmônico lado obladi-obladá, que renegamos ao fundo de nós. é preciso entender essa letra, e decorar essa melodia, é preciso subir no palco e encarar a plateia.

eu nunca confronteim inha parte obladi-obladá, mas já assumo a diversão que ela proporciona. foi divertido cantar alto no meio do show do Macca ano passado: “laifi gouzon-bra-lalalalalaifi gouzon”.

afinal, a vida segue e é preciso engrandecer o coro.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Pauliceia comentada

eis que estou em São Paulo.

Media_httpwwweditorac_mhasg

uma cidade que acumula vários maiores da América Latina.

não é meu caso, claro. não sou nem américo-latino direito, quanto mais O maior em qualquer ranking.

parei de crescer com 18 anos. não sou maior nem em relação a mim mesmo.

vivo improvisado, neste momento, na casa de um amigo gentil, enquanto tento desatar os nós káfkos da burocracia imobiliária brasileira.

Ao mesmo tempo, tenho um emprego daqueles que se pensa em estar na infância. mas se chega na idade adulta.

a mesma idade adulta das contas, imobiliárias, cartórios e trens.

(não há crianças nos trens – obviamente, elas estão na escola, mas isso me dá um cheiro de cidade sem crianças — mesmo eu trabalhando em um ‘puxa vida’ infantil.)

Media_http2bpblogspot_fsteg

a cidade cresce mais que a sua gente, porque as gentes param de esticar, o seu limite biológico?

mas a cidade também tem seu pé métrico. nenhuma cidade vai além de seu mapa. embora cresça constantemente.

o crescimento vai além dos limites – é isso que ele é — rompedor –, é uma semente implantada num pedaço longe da ciência e perto de mim.

e quando eu cresço, a cidade vai junto.

assim, eu faço de São Paulo um dos maiores devaneios da América Latina.

Phillip Glass – Metamorphosis I by Qld Con-Daniel Sullivan

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

do que eu digo quando eu falo…

Media_http2bpblogspot_vhhtc

sabe, eu acho que ele sempre esteve ali sentado. não, é claro que ele não passou a vida toda ali, é que me lembro do velho, de chapéu, sentado naquele banco, sempre do mesmo jeito. com chuva, sem chuva, tanto faz. sempre ali, naquele banco que já deve ter sido o centro da praça.

hoje, HOJE, é a primeira vez que o velho não tá ali…

é, sim, acho que ele pode ter morrido sim…

não, é bem tristeza, é mais uma coceira no meio da cabeça, como se algo não tivesse certo…

não, não é o velho ter sumido e eu não ver o cara ali. não. é mais como se tivessem me feito de metáfora e eu não conseguisse entender.

1 Comentário

Filed under Uncategorized

Menos

Media_http3bpblogspot_eemdj

a foto é da livraria Ghignone, de Curitiba. ela está aqui pela cidade desde 1921. mas vai fechar.

amanhã, sábado e acabou.

enquanto isso, o mundo não “mind the gap” em Londres, e apesar de todos os saques, as livrarias foram poupadas das chamas da anarquia.

ou parece que é isso.

Media_httpmediaftcomc_dcfrd

aqui, a Ghignone faz queima de estoque e eu cumpro meu ritual de despedida comprando um par de livros.

um comércio fechar é motivo pra reclamação, pra tristeza, pra blogagem?

se não é, não sei como pode se chamar isto aqui e este por trás das teclas.

é só uma loja, mas fechou umas portas aqui também.

deixa, deve ser só eu começando a fechar minha Curitiba pra abrir casa nova.

1 Comentário

Filed under Uncategorized

O rato está morto

Media_httpxafaricaweb_pcbfd

não teve jeito.

o veneno que joguei, o Senhor Rato estocava prum futuro suicídio.

a ratoeira, o mercado não tinha.

a única pessoa da casa que não treme à menção da palavra ratazana sou eu.

meus princípios éticos foram pelo ralo que o Senhor Rato usou pra chegar à minha casa.

encarei o animal frente a frente.

um duelo entre mamíferos.

não se fala mais em inteligência e artimanhas, apenas em velocidade, agilidade e força.

matei o Senhor Rato a pauladas.

foi triste.

principalmente pra ele.

2 comentários

Filed under Uncategorized

Ratiando

Media_http2bpblogspot_ehege

eu entrei na cozinha e o rato também. ele tava ali, focinhando vida e eu parado, ainda meio paralizado.

é a primeira vez que eu duelava com um bicho desses.

(por ser pequeno, ele ganha bônus de armadura contra mim).

o rato optou por uma fuga veloz e rasteira para os quartos dos fundos da casa, entre “é, gosto do livro do Dyonélio” e “o Mickey é imensamente mais simpático”.

cerquei o perímetro e sei em qual área está. resta agora pôr o rato pra roer grama pela raiz.

mas cada vez que planejo o assassinato do Senhor Rato, ouço o barulho de ossos pipocando.

às vezes, um gemido de vida em fio acompanha.

ele sangra, sabe?

somos ambos mamíferos, temos pelos.

temos ossos que estalam.

Media_httpfivedeadlye_sxiiy

optei por uma saída mais shakesperiana: o veneno.

me sinto mal por induzir o Senhor Rato a, em desespero famélico, comer a desvida.

mas é ele ou eu.

Media_httpi5photobuck_iyfcj

que vença o primata.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Eu fui demitido

Media_httpbeforethebu_jerli

eu fui demitido.

ontem.

perdi o emprego. estou na rua da amargura. fui chutado. dispensado.

ou como se diz hoje no mundo RHquico: desligado da empresa.

me chamaram com mais 4 colegas pruma sala, engataram o papinho temos uma notícia triste pra vocês, vocês estão sendo desligados.

entregaram um papelzinho carente de assinatura em que, resumidamente, a empresa dizia que me dispensava e que tinha um motivo de enorme alegria em ter trabalhado comigo.

se a alegria fosse tão grande, me manteriam na firma só pelo ambiente feliz que proporciono com minha jovialidade. afinal, funcionários felizes são mais produtivos, até o Toyota sabe disso.

eu não me engano: bom, não foi. ser demitido é uma bosta. mas não é o fim do mundo também.

fim do mundo é te mandarem embora, e pedirem pra você responder um questionário demissional que começa com: “Qual a razão da sua demissão?”

8 comentários

Filed under Uncategorized

Oh, abre alas!

Media_http4bpblogspot_gmbdu

os jornais matutinos eram a comissão de frente da repetição sobre os desfilos das escolas de samba dos mais diversos topoi.

O que se pode depreender é que nada aconteceu no mundo durante final de semana diferente de samba no pé e bunda na tela. assim, interrompemos a folia e malemolência para tornar pública e notória a morte da informação não redudante televisiva brasileira.

EXTRA EXTRA EXTRA

denúncias anônimas dão conta de que passistas sambam satisfeitos no túmulo da informação.

voltaremos assim que tivermos novidades.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized