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invisível

Mais uma excelente HQ do Alexandre

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O menino que salta pra alcançar o galho da árvore

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esperava pra atravessar a rua hoje quando vi um menino.

era menino assim, vestido bem de criança.

eu ouvia Yo La Tengo e ele corria ma non troppo com uma lista e (vamos afirmar, mesmo sem certeza – vamos? nós quem?) uma nota de dinheiro na outra mão.

ele correu pela faixa de pedestres sem tocar nenhuma vez no asfalto negro, pondo os pés só na parte branca da zebra. já na praça, porção de concreto cercada por carros de todos os lados, combatia Dom Quixotes e lutava contra sua altura, pulando pra tocar galhos de árvores.

meio corria, meio saltava.

não conseguiu.

parecia faceiro.

eu atravessei a faixa, hipnotizado pelo rastro daqueles movimentos. enquanto ouvia loose no more time, cause it’s been fun e pisava em todas as faixas, numa proustada, quem corria lá era eu, a cidade era Francisco Beltrão, o sol era o mesmo, o jeito de correr era o mesmo e o entusiasmo com vida era o mesmo.

 eu já fui ele. ou melhor, ele já foi eu. e eu também não conseguia alcançar o galho alto que me daria o título mundial de salto em árvore.

só uma vez ou outra.

ele desapareceu em sua correria pra bater a lista, atender a mãe e voltar pra ver seus desenhos  na TV, enquanto escolhe as cores dos personagens que inventou ontem, esparramado no chão de madeira da sala.

atravesso a rua e, sem saltar, estapeio leve uma folha em um galho.

é uma pena que ele não tenha fones. e que eu não tivesse.

na última tentativa antes de sumir do dia, ele alcançou o galho.

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Ver Tarantino no cinema

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eu me sinto obrigado a ver Tarantino no cinema.

obrigado por um piá de 15 anos. sorte do menino que não tenho nenhum problema em assistir os filmes do Tarantino. eu gosto muito, mas ele já deixou de ser meu cineasta favorito há algum tempo.

assisti a todos que pude no cinema, ou seja, de Kill Bill – Volume 1, pra cá.

mas minha principal satisfação de ver Django Livre no cinema tem menos a ver com a direção, os diálogos e a fotografia, do que já teve. tem mais a ver comigo e com o menino adolescente.

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(que todo mundo deve ter sacado que sou eu mesmo, porque sou meio ruim de guardar segredos. é o Lielson de agora fazendo o que Lielson de Francisco Beltrão, sem cinema e sem vídeo-cassete não podia fazer)

em outra circunstância, seria só uma vingança besta contra o mundo, um grito desgraçado perdido numa escada abaixo. mas como é de mim que eu falo, é de um eu ligado a um outro-eu por uma espichada de tempo, é um prêmio dado a tempo (e fora do tempo): eu levo aquele adolescente a ver o seu cineasta favorito no cinema, a encarar em uma grande tela alguém que o influencia e o influenciará.

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sem ter de torcer pra chegar na locadora de vídeo o VHS, e aí organizar uma noite de filmes e SuperNES com o amigo pra ver o filme, decorar diálogos, rever e comer pão com bife. é legal também, mas o que sobra dum lado, falta de outro.

cercado por desconhecidos, estou só no cinema. eu que sou dois (pelo menos dois), encarando as luzes de Tarantino. sorrio nervoso, meu estômago afunda em si mesmo e me sinto bem em ser essa audiência. obrigado, Taranta. bom filme pra todos nós.

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A cidade Zumbi

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Foto de Daniel Castellano, para a Gazeta do Povo

eu gosto de Curitiba. vivi mais de uma década lá, tomei café na XV, passei frio na reitoria da UFPR, vi os primeiros shows do ruído/mm, vi o Trevisan andando em círculos na Santos Andrade, e – o que eu mais gostava – caminhei bastante por toda a cidade.

meus pés e as ruas de Curitiba tem um bruta dum affair interrompido, mas nunca apagado ou resolvido.

por isso e pelos amigos e parentes, volto pra lá vez por outra. tipo no Carnaval. Afinal, são poucos os lugares com um carnaval tão inofensivo quanto o de Curitiba – defendo até a institucionalização do não-carnaval curitibano — sim, com hífen, tamanha sua negação.

e nesse saudável carnaval, a cidade virou zumbi.

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não tô lembrando só da divertida zombie walk, que talvez seja a melhor ideia de brincadeira coletiva para adultos (sem ideologia marcada) já inventada. é uma evolução do flashmob. ou um fashmobão.

aliás, tô pensando sim nas fantasias zumbizentas na rua, mas não só.

Curitiba toda virou zumbi.

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(a foto não é de Curitiba. coloquei ela só pelo impacto visual)

além dos eventos desmortos do carnaval, e do jargão de que os usuários de crack parecem zumbis, trôpegos, enrolados em farrapos, feridos, fedidos e delirantes que tomam as ruas como se vivessem uma Zombie Walk em sua half-life, há ainda um ar de morto por todos os lugares.

acompanha comigo: ninguém nas ruas, lojas fechadas, shoppings lotados, aquela nevoazinha e é claro, o cenário de guerra que recebe o viajante na rodoviária da cidade.

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torço pelo clichê, mas não me encontro com as bolas de feno rolando pela rua.

é engraçado: um texto sobre uma cidade que encontrei meio-morta, num blog que tem dificuldades de se manter vivo se contrasta com um lugar que lembra muito da minha vida.

não, não é engraçado. até sorrio, mas não sei o que é. engraçado, não.

na minha cabeça, tudo está disponível: os cafés, as livrarias, a Biblioteca Pública, a universidade, o rumo da minha (ex) casa no Alto da XV.

Aqui Curitiba vive.

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Uma cena roubada do mundo entre o trem e o ponto v. 1

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Em um pequeno condomínio de prédios iguais, um menino de boné e mochila  e um senhor de camisa branca abotoada, balançando as chaves, saem pelo portão para a calçada mal cuidada:

“…mas já tô me fodendo lá das 10 às 6, o que ma…”

“olha a boca! depois não sabe porque o supervisor pega no teu pé!”

“tá, tá… mas olha: tô lá diretão, todo dia das 10 às 6, no sábado, das 10 às 4… sério, quem trabalha no sábado até às 4?”

“Você tá com 16 anos. já devia tá ganhando mais…”

“porra, dou o cu lá o dia inteiro e no sábado. não tenho jeito de fazer mais… que foi?”

“Que que eu acabei de te falar?”

“.?.”

“Sobre o supervisor? Cuida essa boca, filho…”

“tá, tá… porra, mas que que eu podia fazer de diferente? não tenho como pegar outro trampo!”

“Acontece que você vai ter de abrir mão de algumas ‘ideias’ que você colocou na cabeça…”

“Como assim? Que ideias?”

“Com 16 anos, você já devia tá pegando uns 2600/ 2800, não esses milão aí.”

“Tá, tá, mas que eu tenho que fazer diferente pra ganhar mais?”

“Então: tem que pegar um emprego das 8 às 6, usar outras roupas, botar sapato, cortar esse cabelo…”

“Ah, também não fode, né? Pra quê? Até parece que ser boy de escritório vai me ajudar a ganhar mais…”

“Mas é assim, Kauê. se começa de baixo e quando vê já é gerente.”

“Pai, de boa, as coisas não são assim…”

“E eu, Kauê? Cheguei onde estou como? Não foiu dando o cu, não… foi trabalhando, ficando direto no escritório, até o chefe reconhecer o teu empenho, o teu talento. é assim que as coisas funcionam.”

“Mas pai, tu tá nessa há anos e nunca chegou lá em cima. Além do mais, eu edito vídeo. Gosto disso. Não quero carimbar papel num escritório…”

“Pelo menos é um trabalho de verdade. que mal há em ‘outorgar veracidade’ a documentos?”

“Mas pai, não quero um trabalho de verdade. Só quero, sei lá, ter um dinheiro, que você e a mãe não me encham o saco e ficar com a Jaque.”

“Encher o saco? estamos é preocupados com seu futuro. é preciso um emprego estável.”

“Pai, tudo é impermanência. por isso quero pegar a Jaque agora, porque depois, sei lá, vai que ela muda demais, começa a curtir um outro som, ler umas coisas erradas…”

“Para tudo! Você quer ficar com uma garota pelo tipo de música que ela ouve?”

“Ué, óbvio. Não dá pra pegar alguém que curte bosta universitária.”

“Tua mãe não gosta do rei ou do tremendão.”

“Mas agora a merda tá feita, né? Tem trocentas prestações do apê pra pagar, tem que dar jeito na infiltração na parede, filho pra estudar, essas coisas tudo aí.”

“Filho, você tá se ouvindo?”

“Tô pai, tu precisa sacar essa impermanência melhor. Eu te explico outro dia.”

Os dois entraram num carro seminovo com 31 prestações a pagar. O pai de Kauê ficou balançado pela certeza do IPTU e pela tal impermanência. Kauê lembrou de Jaque cantarolando Winter Wooskie.

 

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O mar parecia um sátiro contente após o coit*

Eu e Osvaldo

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[da exposição do Museu da Lingua Portuguesa, em SP: Oswald: culpado de tudo!]

eu sempre gostei de Oswald de Andrade e nunca tinha lido.

gostava sem saber que ele existia.

aí um dia eu li aqueles poemas pau(brasil) pra toda obra, aquela demolição da frase feita e do clichê, aquele humor meio sem graça, uma desseriedade muito da importante. parecia que eu abraçava uma dose concentrada de de açaí com macaunaíma.

daí eu li o Memórias sentimentais de João Miramar. Aì eu li o Serafim Ponte Grande. Aí eu entendi que sempre gostei do Oswald e da sua dança sem rebolado com as palavras.

(há de se confessar que lembro NESTE instante que tive um contato enganoso com o Oswald de Andrade pela citação em um CD da Legião Urbana – como é difícil confessar Legião hoje em dia – que era do Serafim: “O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus” – – descobri depois que a texto se completa com “depois todos morrem” e aquilo me pareceu aperta-coraçãosamente sério –. hoje eu penso que SP da época devia ser bem diferente da de hoje pro Oswald falar em árvore)

 

Ítaca com Serafim

com o aluno O. de Andrade eu soube qual o tipo de texto que eu gosto, que eu faço (cof!), que eu sou (cof, cof, cof!).

eu preciso ter muito cuidado pra não copiar o Oswald. a tentação é vergonhosa e poderosa.

e o lance com o Oswald é a sem-vergonhice.

mas e aí eu peguei pra reler o Serafim Ponte Grande (possivelmente alucinado pelo cinema de Sganzerla, que conversa tanto com a obra de Oswald, que é preciso mandar os dois embora de casa pra dormir) a diversão bate records a cada releitura, claro.

nessas, voltando de algum lugar, paro perto das máquinas pague quanto quiser de livros no metrô.

 

A história de como Lielson de Andrade encontra um livro e de que maneira isos o leva a postar em seu blog

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lá, estava ele ele: Pinto Calçudo ou Os últimos dias de Serafim Ponte Grande. eu descobri: José Ramos Góis Pinto Calçudo, expulso do romance por Serafim Ponte Grande, foi cumprir seu ostracismo numa máquina de livros. fez sentido demais!

convencido que se tratava de um ensaio sobre o Oswald, fiz o investimento em cash.

na leitura circular que sempre faço (orelhas, quarta capa, primeiro parágrafo, cinta/sobrecapa e índice – não nessa ordem) descobri que era uma obra de ficção de Sérgio Augusto Andrade.

que inveja, que desbunde, que delícia!

Sérgio faz um contralivro ao não-livro Serafim Ponte Grande, contando a história a partir da perspectiva do coadjuvante, Pinto Calçudo. as relações com a obra de Oswald estão muito além do óbvio, embora Augusto de Andrade (também queria ser de Andrade, parece que dá certo pra escritor) emule com maestria o humor oswaldiano.

o livro, como sua contraparte, é uma cesta de piquenique de gêneros literários, com alusões claras ao Ulysses de Joyce e a Mario de Andrade, por exemplo. e muita putaria, óbvio. pra tornar ainda mais agravante, essa pérola é o primeiro livro do Sérgio.

é um híbridão, que mistura ensaio, ficção, paródia, desrespeito e homenagem pra falar de Oswald. isso sim é entender do que se fala. se não sacanear, não tá certo. se for muito respeitoso, entendeu errado. se explicar demais, enche o saco.

 

Última frase em busca de um fecho imponente a um texto

não se digere antropofagicamente oswald, se rumina.

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Simples consulta

Já conhece aquela do cara que foi no médico e daí tava lá na sala de espera e…

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– senhor [_}?

– sim?

– pode entrar, o doutor ^~^ vai atender o senhor agora.

– obrigado.

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– bem, [_}, o que posso fazer por você? 

– tá.. é o seguinte, ^~^: estou com um probleminha…

– Doutor…

– ahn?

– Doutor, pode me chamar de Doutor ^~^.

– mas aposto que você não fez doutorado, né?

– a lei permite que eu use esse nome e eu gosto. por favor, me chame de DOUTOR…

– certo, estou com um desconforto nas costas.

– tá, exatamente, onde é esse desconforto,  [_}?

– Mestre…

– oi?

– me chame de mestre.

– porque eu deveria…

– é que ainda não terminei o doutorado, na real, acabei de entrar.

– isso é um pouco infantil,  [_}…

– MESTRE  [_}. somos duas crianças em acordo, então, doutor ^~^: a lei me permite isso e eu gosto.

– você acha mesmo necessário…

– com certeza acho.

– bem, “mestre”  [_}, onde é sua dor?

– à esquerda, abaixo da omoplata, “doutor” ^~^.

– não gostei das aspas…

– sabe que doutor DE-VERDADE é um grau maior que mestre, né?

– eu sou de verdade! e posso exigir que me chame de doutor, que vai parecer sempre melhor que mestre. vire-se, por favor.

– pensei uma coisa: era mestre dos magos ou doutor dos magos.

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– sei que é Doutor Estranho, não mestre estranho.

– nunca quis ser mestre de RPG? porque doutor de RPG, só se for um clérigo apelão… e é webmaster, né? não webdoc. acho isso significtaivo. sem falar que um bom jogador pode ser um mestre da bola.

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– o sócrates era doutor…

– ele era. mas aposto que se pudesse escolher ia preferir ser mestre. no rap é MC, não DC. mais um ponto pra mim.

– ponto pra você,  [_}? O…

– MESTRE  [_}, por gentileza. Doutor Yoda ele não é…

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– olha, isso tá ficando ridículo…

– ridículo é alguém que não sabe reconhecer o valor do mestre. o desrespeito e dessignificação da autoridade do mestre é um retrocesso na educação!

– Do que você tá falando?

– não me olhe assim, não confunda autoridade com autoritarismo. me empresta teu bloco de anotações doutor ^~^.

– tó. mas pra quê você…

– tô te receitando uma Hannah Arendt pra essa situação. vou também colocar um Foucault em gotas, mas só em caso de não melhorar da sua doutorite. pelas suas pupilas posso perceber algum grau de bom senso ainda…

– mestre [_}, não tô entendendo..

– leu o médico rural do Kafka? bem, vamos fazer assim: tome essa Arendt que receitei, exercite ensaios 2 x por semana e artigos científicos outra 3. eu volto a te visitar em uns 20 dias. acha que consegue dar conta?

– sim, eu… acho que consigo…

– grande, nos vemos em 15 dias. pode me escrever um email caso as coisas fiquem difíceis. aí eu receito uns comentadores pra facilitar a entrada, tá?

 [_} levantou-se e saiu. ^~^ passou os próximos dias ansiosos pelo retorno do mestre. ocupava seu tempo com aulas de alemão e filosofia.

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Histórias que imaginei enquanto usava o transporte público de São Paulo # 3

(primeira versão)

OU A volta para casa de Ulisses

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ela, vestida de blusa de onça e jeans, atravessou a plataforma de mãos dadas com ele, que estava de tênis, calça larga e camiseta estampada.

ela, com seu salto médio, pisa firme nos olhares que a acompanham até a ponta da plataforma, onde existirão as últimas portas do trem, daqui a poucos minutos. ele, mal olha para ela. segue firme, apressando seu passo curto para não atrasar o conjunto, com olhar firme, pra frente.

ela para ao lado da última coluna, onde o teto da estação deixa de ser e o coloca a frente dela. ela olha pra baixo, mas ele não olha pra cima. ele vê um rapaz bebendo água pra apagar com antecedência o calor da superlotação. e é a partir da água, que tanto já se falou em dicionários de símbolo, que lhe fluiu a palavra, pequena como ele, mas inteira:

– água! tem?

– quer água? acho que não t… ela interrompe o texto e o raciocínio. a busca por aquilo que ela sabe não ter ocupa toda sua vida dentro da bolsa: não, não está ali.

– água? ele insiste, sem acusar, só pedindo mesmo.

– não tem, filho. quer o mamá?

– não… ela passa a mão no cabelo dele e ele se senta.

– filho, não senta no chão que tá sujo, tá?

ele apoia as costas na pilastra, se equilibra e mantém-se de cócoras. quase levanta o pescoço até ela, mas prefere olhar paras as pernas que vem-e-vão.

– … isso, é, assim pode, filho… ela coloca os óculos escuros, confere o relógio da estação, olha pra o celular, o guarda na bolsa, mas não sabe que horas são. vê um espaço no banco a alguns metros. ele, já em pé, a ronda.

– senta lá, filho. eu te espero aqui.

puxado (ou empurrado), ele vai e trepa no banco. balança as pernas. e olha pra mãe pela primeira vez. fica pouco no banco, como se o impulso que o levou até lá fosse um empréstimo a ser devolvido. corre de volta e novamente ronda as pernas da mãe.

ela leva a mão nos cabelos deles, que não a impede, nem a incentiva.

– como foi na casa de seu pai?

– …

– ele fez bolo pro você?

– não…

– mas era seu aniversário, ele não… não tinha bolo?

– tinha bolo de chocolate.

confusa pela ilógica, mas divertida pela mesma razão, a mãe continua:

– bolo de chocolate é bom.

– é…

– tava gostoso?

– me dá o carro?

ela volta a cavocar a bolsa até tirar um pequeno brinquedo vermelho. em uma exploração cinematográfica, poderia se usar um ponto de câmera em contraplongée, valorizando a inundação solar, aproximando lentamente da mão da mãe, garantido o foco no objeto envelopado pela luz natural, faiscando de vermelho. mas não, isso não aconteceu.

ele pegou o brinquedo e fez os seus personagens (que ainda emprestarei um dia) dirigirem um veículo em alta velocidade nas paredes de um edifício gigantesco. tudo é possível aos heróis.

– ó! e mostra pra sua mãe uma epifania em plástico: além do milagre de dar vida a quem não existe, ele também é capaz de tirar as rodas do carrinho. admirada como aqueles que veem sua fé confirmada, sua mãe diz:

– puxa, mas ele não é feito pra isso. cuidado pra não quebrar, tá?

– tá… as rodas voltam ao seu lugar e toda a magia se converte em um trem que chega.

ela passa a mão na cabeça dele de novo, ajeita sua bolsa e o pega no colo.

– o bolo era pra festa, não era pra mim, ele diz perto das bochechas da mãe.

– ai, Ulisses… e ela ri como fazia tempo que não conseguia.

Mãe e filho entram no trem e se sentam. o trem parte e eles navegam, juntos. marinheiros.

Ulisses errará por 14 anos até encontrar sua esposa e livrar sua casa dos pretendentes.

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Mais uma vez, na sala de cinema

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enquanto eu subia a escada rolante da estação consolação, eu praguejei contra a senhora, toda passeante, que não deixou a esquerda livre para os apressadinhos e atrasados. que não deixou a esquerda livre pra mim.

corri pelas calçadas augusta abaixo até chegar ao cinema, interrompi uma moça confusa, que queria comprar uns ingressos pra teatro e não sabia o que fazer, e peguei meu bilhete gratuito praquela sessão da mostra.

me apressei pela porta sem funcionário pra rasgar o ingresso, achei o meio da cortina preta, entrei, localizei a Van e me sentei.

entre dois ufas e goles d’água, desliguei o celular, e fui sugado imediatamente.

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eu saí daquela sala de cinema na rua Augusta, eu estava em um mundo de granulados, luzes e cores envelhecidas.

por 45 minutos, eu vivi dentro de Vestígio.

a singela e delicada história sobre os últimos fios de vida de Uno Kawase, avó que criou Naomi, a diretora do filme.

não há muito o que falar que não pareça piegas, por isso a Naomi fez um filme – que é emocional no melhor sentido da palavra. as imagens e a construção do filme é tão certeira que a avó/mãe de da Naomi se transforma.

Uno Kawase se torna a mãe de todos nós, que todos sabemos (sem querer pensar muito nisso) que enterraremos um dia. eu nunca estarei preparado pra isso que sei que vai acontecer. pra ver que saber e entender nem sempre se entendem.

é o caminho da vida que nos tornemos órfãos.

a beleza e a sutiliza dessa ameaça tão forte, cria uma rede frágil, que enrola todo o espectador. e o expectador se vê em Uno. é certeza da vida que assim que nossos pais morrem, que sejamos os próximos.

a dicotomia dessa vidinha curta e sempre mal-aproveitada com o final certo assustam, apavoram e comovem.

se há filmes que fazem a experiência de cinema valer a pena, esse é um deles.

quando Naomi encerra o filme (“muito obrigada”), sou arremessado de volta na cadeira no meio de uma sala escura. Vanessa e eu nos pegamos pela mão e saímos dali.

eu sei que algo intenso aconteceu em mim, mas não sei se um dia serei capaz de entender.

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Gibiteria e Quinto Mercado de Pulgas

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sexta-feira conversarei com Diego Gerlach, DW e Pedro Franz na Gibiteria, na praça Benedito Calixto. vai ter lançamento de Alvoroço, do Gerlach e do terceiro volume de Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo, do Pedro. o DW e eu vamos lá pra avacalhar, embora ele possa pelo menos falar sobre a HQ que está terminando.

sábado, às 11h30, estarei em uma mesa sobre quadrinhos infantis, no Mercado de Pulgas, com Cassius Medauar (JBC) e Paulo Maffia (Abril/Disney). o evento vai ser bem pertinho do metrô Vila Mariana.

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