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Lendo menos

teve um prodigioso ano de 2000 (séculos diferentes), em que li em torno de 120 livros. fazia faculdade, tinha me mudado de Francisco Beltrão pra Curitiba, estava escandalizadamente maravilhado com uma biblioteca pública daquele tamanho, não tava muito focado em fazer amigos na pensão que morava, não conhecia ninguém e adorava (ainda adoro) ler. outros caras na minha situação tavam por aí atrás de mulher, mas cada aí age conforme suas possibilidades, talentos e poderes mutantes.

foi nesse ano que fracassei na leitura de Ulisses, que li Flores do Mal, Montanha mágica, trocentos Saramago, Leminski, Salinger, Turgueniev, Whitman, Raduan, Camus e outros autores que eu conhecia na louca, andando pelas estantes e escolhendo um livro qualquer.

Tomoko Takeda

mantive essa mania de ler maniacamente, dedicando meu trajeto casa-trabalho-casa à leitura (e também casa-cinema ou casa-almoço fora) (em casa leio mais HQ, escrevo, frilo, jogo videogame, vejo filmes e converso) (já falei que leio andando do metrô até em casa?).

nos últimos anos, nessas de autoexposição pornográfica de nosso cotidiano, organizei painéis com o que comecei a ler (2013, 2014, 2015 e 2016). a verdade é que gosto de retornar e ver o que li e lembrar de coisas que me/se passaram enquanto eu lia.

nesse 2000 campeão aí, eu anotei numa contracapa de caderno cada livro lido e me vi, crackeiro de páginas, escolhendo livros menores pra ter um número mais poderoso (eu pensava como um político na época).

Manga farming

este ano retomei a leitura de um tarrasque literário, Graça infinita. o mamutão tem mais de 1100 páginas e peguei ele bem no comecinho (só tinha lido 300 páginas em 2015). calculei com a quantidade de páginas que leio por dia e com as que faltavam, que eu preciso de mais de 20 dias de leitura pra ele, o que vai ser pra lá do carnaval.

nessas eu pensei, putz vai foder com minha meta do programa “meu metrô minha vida”, de ler um livro por semana na média anual e me vi pensando em atacar simultaneamente livros curtos SÓ PRA MAQUIAR os números.

me esbofeteei dentro da minha cabeça e decidi que esse ano vou ser o opposite George e num empreendimento monty-pythonesco vou ler o menor número possível de livros.

ora, ora, você me dirá, caríssimo que me lê (talvez não diga), que bastaria abraçar a estimativa de leitura brasileira e não ler. mas isso qualquer um pode fazer, onde fica então o nível de desafio?

 Brian Dettmer

Brian Dettmer

o lance é ler pouco lendo todo dia E SEM SABOTAR (p.e., ao limitar o número de páginas lidas por dia). ou seja, eu preciso ler que nem sempre, mas ler menos. a chave é ler livros maiores! rá!

este 2016 será dedicada a leitura de tarugos tipo Irmãos Karamázov, Guerra e paz, Anna Kariênina, Homem sem qualidades, Arco-íris da gravidade. Mil e uma noites e Em busca do tempo perdido estão na comissão de ética pra decidir o rito de volumes, tomos e partes e saber se valem como um só ou, respectivamente, 4 e 7 livros.

eu sei que tô dando uma de diferentão enquanto booktubers cagam resenhas semanais de dezenas de livros, mas cada um age aí conforme sua índole, interesse e poderes mutantes. desapegar de glórias, desacelerar, aprofundar, valorizar cada um e matar o colecionador de recordes interno; tô nessa em 2016.

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Linha 7 – Rubi

os trens de São Paulo têm sua eficiência. o que eles não têm é suficiência.

mas rola umas histórias boas, me segue:

DIÁLOGO ROUBADO # 1

– mas então, eu fiquei mal com aquilo, quando vi aquele cara daquele tamanho chorando…

– mas também, que mais ele podia fazer, né?

– sabe o que ia me deixar mal, mas mal mesmo? se o luciano huck e angélica se separassem. pensa o que ia ser daquele filho deles?

CENA EMBLEMÁTICA DE UM SERIADO RELEVANTE (penúltima temporada)

tá lá um vendedor de chocolate (a partir daqui com maiúsculas). daí que o Vendedor de Chocolate fala alto, meio sem noção

“prestígio, chokito, é chocolate, é qualidade, É SÓ UM REAL. É DELÍCIA, É QUALIDADE, É SÓ UM REAL.”

um cidadão se irritou com o grito na orelha e “vai gritar pra lá, ô folgado. carioca do caralho.” daí que o Vendedor de Chocolates disse “eu não sou carioca” (parecia ser, na real), “eu sou BRASILEIRO. EU E MAIS 170 MILHÕES!” nada de sou-brasileiro-com-muito-orgulho-com-muito-amoooor (pensei que ia ter uma empolga do povo, mas acho que bateu o a depressão pós-trampo).

O Cidadão devolve “eu sou paulista, aqui é paulista. que que um carioca tá fazendo aqui?”

“TÔ VENDENDO CHOCOLATE.”

“AQUI É PAULISTA” (ele realmente tava bitolado com essa ideia)

“Tu não é paulista…”

“sou! nascido e criado aqui!”

“e teu pai?”

“veio da Bahia. MAS EU NASCI EM SÃO PAULO!”

“MOREI 15 ANOS NA BAHIA! DÁ UM ABRAÇO AQUI.”

o populacho aplaude o que poderia ser um fim sereno/fofo pro embate que se arrastava há 3 estações, mas O Cidadão recusou o abraço.

“VAI TOMAR NO TEU CU, CARIOCA DO CARALHO”

“senhor, a gente é tudo brasileiro: morei 20 anos no rio, 15 na Bahia, tô há 10 em São Paulo…”

“aqui é paulista” (sim, ideia fixa e falta de argumentos, eu sei)

“o senhor não quer um chokito pra adoçar a boca?”

o trem chega na estação da Luz.

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