Category Archives: Literatura

Avulsinho 6

 

Baudelaire recolhe o baralho da mesa e o enrola num pano de cetim vermelho.

– Ei, senhor, antes de se ir, poderia, por gentileza, ler as cartas para mim?

– Desculpe, senhor, mas só as leio para mim mesmo.

– Mas, senhor, isso é possível? Ver seu próprio futuro?

– Não, não é. Leio cartas difusas que mostram algo que não virá e mantenho a surpresa da vida.

 

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Avulsinho 5

 

De repente, me dou conta que caio e fecho os olhos. A massa de ar no rosto me pergunta em que velocidade estou; grãos arranham meu braço; a boca seca; a testa lateja. Abro os olhos: continuo caindo e há outros comigo. Todos que conheci estão em algum ponto da queda; eles e muitos que nunca vi. Alguns tiveram a boa ideia de gritar; vou com eles até perceber que não há chão para abraçar.

 

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Avulsinho 4

 

Somos um sitcom para os budas, que riem como prova de sua compaixão.

 

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Lido: Nocilla Experience

1

Livro de capítulos curtos, que vai se encontrando calmamente.

2

Um tipo comprido, de bigode e terno janota se aproxima. Traga o cigarro e o abandona.

3

Eu mataria por ter pensado nessa estrutura narrativa. PORRA!

4

Esse é o segundo de uma trilogia chamada de Nocilla, mas o Brasil nunca viu o terceiro volume. O primeiro é o Nocilla Dream.

5

Tu vai acompanhando uma trama aqui, outra ali, daí algumas delas se cruzam, outras jamais se encontram, outras têm a ver tematicamente.

6

Esse é o primeiro que leio do Mallo. Gostei, viu?

7

O tipo dá um tapinha nas costas de um resenhista de blog e fala em inglês (já traduzido aqui): “desiste, tu não sabe o que falar do livro.”

8

 

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Avulsinho 3

Sonhei que lia um livro que já reli. O texto era o mesmo do livro que existe e eu sorria e me sentia feliz, pois ler aquilo me reconfortava tipo ouvir a piada recorrente de um amigo que há tempos não vê. Acordei e o texto estava tatuado no meu braço.

O braço é meu, a frase do Joyce e o trampo do @andrecostatattoo

A photo posted by Lielson Zeni (@lielsonzeni) on

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Avulsinho 2

 

Nado em palavras e mais nada.

 

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Tem alguma coisa rolando: Manual do desenhista amador

Parênteses

Em 2014 eu participei de vários encontros  para desenhar nas ruas de São Paulo. O Desenhando SP foi uma ideia do Eduardo Nasi e da Marcia Tiburi e a cada mês quem estivesse a fim se encontrava num lugar diferente da cidade pra desenhar o que quisesse.

Eu adoro desenhar, mas não faço isso muito bem (pros curiosos, tem aqui uns desenhos meus que fiz numa aula de desenho no Sesc Pompeia) (e aqui uns do Desenhando SP).

Quando recebi o convite da revista Parênteses pra escrever um conto, depois de muito me bater, optei por um esquema de um título de 3 palavras – Manual do Desenhista Amador – que se alternavam (Desenhista Manual Amador, Amador do Manual Desenhista etc) e a partir daí eu fazia os textos. Como tinha parada do desenho, achei uma desculpa consistente (o “amador” do título) e incluí uma seriezinha que roubei de um casal em profunda DR na Estação da Sé.

O resultado pode ser lido em PDF, Epub e Mobi dae dição # 6 de janeiro do ano passado, nas páginas 30 a 38.

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Lendo menos

teve um prodigioso ano de 2000 (séculos diferentes), em que li em torno de 120 livros. fazia faculdade, tinha me mudado de Francisco Beltrão pra Curitiba, estava escandalizadamente maravilhado com uma biblioteca pública daquele tamanho, não tava muito focado em fazer amigos na pensão que morava, não conhecia ninguém e adorava (ainda adoro) ler. outros caras na minha situação tavam por aí atrás de mulher, mas cada aí age conforme suas possibilidades, talentos e poderes mutantes.

foi nesse ano que fracassei na leitura de Ulisses, que li Flores do Mal, Montanha mágica, trocentos Saramago, Leminski, Salinger, Turgueniev, Whitman, Raduan, Camus e outros autores que eu conhecia na louca, andando pelas estantes e escolhendo um livro qualquer.

Tomoko Takeda

mantive essa mania de ler maniacamente, dedicando meu trajeto casa-trabalho-casa à leitura (e também casa-cinema ou casa-almoço fora) (em casa leio mais HQ, escrevo, frilo, jogo videogame, vejo filmes e converso) (já falei que leio andando do metrô até em casa?).

nos últimos anos, nessas de autoexposição pornográfica de nosso cotidiano, organizei painéis com o que comecei a ler (2013, 2014, 2015 e 2016). a verdade é que gosto de retornar e ver o que li e lembrar de coisas que me/se passaram enquanto eu lia.

nesse 2000 campeão aí, eu anotei numa contracapa de caderno cada livro lido e me vi, crackeiro de páginas, escolhendo livros menores pra ter um número mais poderoso (eu pensava como um político na época).

Manga farming

este ano retomei a leitura de um tarrasque literário, Graça infinita. o mamutão tem mais de 1100 páginas e peguei ele bem no comecinho (só tinha lido 300 páginas em 2015). calculei com a quantidade de páginas que leio por dia e com as que faltavam, que eu preciso de mais de 20 dias de leitura pra ele, o que vai ser pra lá do carnaval.

nessas eu pensei, putz vai foder com minha meta do programa “meu metrô minha vida”, de ler um livro por semana na média anual e me vi pensando em atacar simultaneamente livros curtos SÓ PRA MAQUIAR os números.

me esbofeteei dentro da minha cabeça e decidi que esse ano vou ser o opposite George e num empreendimento monty-pythonesco vou ler o menor número possível de livros.

ora, ora, você me dirá, caríssimo que me lê (talvez não diga), que bastaria abraçar a estimativa de leitura brasileira e não ler. mas isso qualquer um pode fazer, onde fica então o nível de desafio?

 Brian Dettmer

Brian Dettmer

o lance é ler pouco lendo todo dia E SEM SABOTAR (p.e., ao limitar o número de páginas lidas por dia). ou seja, eu preciso ler que nem sempre, mas ler menos. a chave é ler livros maiores! rá!

este 2016 será dedicada a leitura de tarugos tipo Irmãos Karamázov, Guerra e paz, Anna Kariênina, Homem sem qualidades, Arco-íris da gravidade. Mil e uma noites e Em busca do tempo perdido estão na comissão de ética pra decidir o rito de volumes, tomos e partes e saber se valem como um só ou, respectivamente, 4 e 7 livros.

eu sei que tô dando uma de diferentão enquanto booktubers cagam resenhas semanais de dezenas de livros, mas cada um age aí conforme sua índole, interesse e poderes mutantes. desapegar de glórias, desacelerar, aprofundar, valorizar cada um e matar o colecionador de recordes interno; tô nessa em 2016.

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Li o Senhor Risus

Assim: não é que eu não goste de Ficção Científica (sou bem fãzoca de Vonnegut, na real), mas não sou um leitor de FC QUE COMPARECE. Leio lá de vez em quando e tal e, por causa disso, não sei relacionar Senhor Risus e outras obras, nem posicionar esse conto na literatura do autor, o russo Aleksandr Romanovitch Belyaev. Coisas da vida.

“Mas, talvez, no dia de amanhã, estaria de braços dados a uma mocinha de olhos celestes e de boca púrpura, se sentaria junto a ela em um automóvel luxuoso e a levaria ao melhor restaurante da cidade. […] Antes teria de encontrar um emprego, trabalhar como engenheiro para algum industrial, guardar dinheiro e, logo, montar um negócio próprio. Então, tudo rolaria bem.”

a capa não é essa aí, não. é só pra vocês verem como é o nome do autor em cirílico.


O conto todo se vira com dois elementos BASICÕES: a industrialização (e suas paradas desumanizadoras) e o ajuste social padrão (que não deixa de ter a ver com o primeiro). Me acompanha.

A parada rola nos Estados Unidos. Guarde isso porque é importante  pras simbologias do conto (sim, o autor, é russo mas achou mais massa passar uma história sobre consumismo e industrialização sem noção na terra que botou o Ford e o Taylor no mundo).

O autor morreu de fome em 1942 durante a ocupação nazista na cidade russa de Pushkin. Coisas da vida.


O papel da mulher na projeção de Spalding é o mesmo que o de um objeto, tipo um carro, mas dessa vez de valor social. Não existe amor no coraçãozinho do senhor Risus.

Spalding, engenheiro recém-formado, luta para ter um lugar na indústria (vai vendo). Mesmo com notas fodonas e aptidão física poderosa, Spalding fica BATENDO CABEÇA e não consegue o trampo e segue “livre no mercado de trabalho”.

“Mas comprovou muito rápido que apenas isso não bastava. As unhas lhe serviam apenas para arrancar, um dia, em um acesso de ira, o aviso colocado no portão de uma fábrica: “não há vagas”. […] Na maioria dos casos não conseguia ser recebido sequer pelo secretário, quanto mais pelo diretor. Restava apenas o recurso de telefonar da antessala. Uma vez havia tentado arrancar violentamente o fio do telefone, mas acabou sendo vergonhosamente expulso do escritório […].”

O leitor já saca rapidão que o Spalding é o cara que acredita na meritocracia (vai vendo). E quando isso o derruba, aposta tudo em se tornar um empreendedor: inventar uma patente de algo que entupa seus bolsos. Chega a conclusão que pode decompor laboratorialmente o humor e levar todos a rir (sacou o Senhor Risus?).


Surge uma noção aqui de que seria possível sintetizar os sentimentos por meio de engenharia e que, desse jeito, poderia levar as pessoas ao riso, às lágrimas. Passa até pela ideia de uma máquina de compor músicas em escala industrial (vai vendo) pra dispensar o pagamento de direito autoral (né?).

“Da sala ao lado, como um eco, podia-se ouvir soluçar, bufar, tossir, espernear, gritar e delirar a várias vozes, mas ninguém vinha ao socorro do diretor; talvez os demais também precisassem de socorro.”

O riso vira uma espécie de franquia que pode ser aplicado a qualquer negócio, aumentando as possibilidades de entrada de dinheiro. Nessa, o riso se desumaniza e passa a seguir uma fórmula certeira de funcionamento.

Sacaram que a ira inicial do Spalding leva ele ao humor?

Pietro Aretino teria morrido de tanto rir

A morte do poeta Pietro Aretino (1854, oléo sobre tela, Kunstmuseum Basel) – Anselm Feuerbach (1829–1880)


“Bekford ria, debatendo-se em convulsões, como um pássaro preso em uma rede. Estendeu a mão até o alarme, mas um acesso de riso espasmódico paralisava cada movimento.”

Tem também o lance do investidor, Bekford, se recusar a lhe pagar o acordado (ridículos 2%), o que obriga Spalding a ir pro outro lado da lei. Mas o pilantra do Bekford não é criminalizado por sua exploração  (vai vendo).

“[…] digitadoras e secretários se retorciam em paroxismos de hilaridade, semelhantes aos espamos pré-agônicos de alguma doença epidêmica terrível.”

Numa sociedade mecanizada, que tudo pode ser substituído por uma máquina industrial, o riso é uma força demoníaca capaz de arregaçar todo o sistema. Senhor Risus é sobre a força do rir diante de um mundo absurdo, de como esse riso é doloroso e torturante (se fosse uns paranauê acadêmico ia sugerir Bakhtin).

“Ele se decompunha tanto que apresentava olhos revirados, lábios azulados, sentia cólica nas costelas e lhe faltava ar.”

Não é o absurdo uma das bases do humor? Coisas da vida.

Ah, muito grato à batutíssima Balão Editorial que me enviou o ebook. Você pode comprar a obra aqui, no site da editora.

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Sobre não ser esquecido

Que nem lego:

até o Vasco tem mais gols que este blog postagens. feio, feio.

a última vez que escrevi aqui nem tinha tatuada uma frase do Ulysses no braço. pois é.

a última vez que escrevi aqui, se bem me lembro, nem tinha lido Vonnegut ainda. pois é.

mas então: coisa velha – direito ao esquecimento foi promulgado por uma corte europeia e obriga o Google a apagar os registros de uma pessoa e destruir, assim, a rede que a liga a outras pessoas, a instituições, a vexames e a glórias.

o nome pomposo promete muito mais Kafka (Beckett? Borges?) do que entrega, mas ser esquecido é um golpe histórico que esfaqueia o rim de cada um de nós. talvez, sei lá, Shakespeare e Einstein e uns outros tantos nunca sejam esquecidos, mas bote fé que tem um monte de caras legais da história que a gente não lembra porque… bem, porque esqueceu (ver Oswald de Andrade e seu retorno graças a Pignatari e os Campos; ver Tom Zé e David Byrne). pois é.

ser ignorado parece difícil pra nós, macaquinhos dominantes (pra mim, é). ser esquecido é não ser conhecido, é não ser considerado, é não entrar na conta. e isso é pra todos nós, mas não é pra qualquer um.

o impacto do dia fica com o norte-americano que queria ser lembrado e por isso abraçou a memória-zero. cansado de ~não existir~, Williams mandou uns emails marotos, falou de sua obra desconhecida e pulou dum prédio no Japão. pois é.

tô eu aqui falando dele.

matéria a ser lida aqui ó, no Público. E aqui pra quem preferir o texto em inglês.

uns querendo apagar as pegadas digitais e outros tentando sair da vida pra entrar pra história.

pois é.

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