Category Archives: Cinema

Cemitério do esplendor

Sábado vi Cemitério do esplendor do Apichatpong Weerasethakul. Acho que o que mais gosto no cinema do AW (né?) é que eu não pego muita coisa. Na real, minha razão dá um perdido em boa parte do filme, mas eu encaro com certa intuição o que me salta como cenas favoritas. No caso de Cemitério do esplendor é a cena das pessoas trocando alucinadamente de lugar nos bancos, a cena final do futebol e as teofanias (deusas comendo algo tipo ARITICUN foi demais).

Esse mundo que não entendo bem, mas vou mordendindo como posso, com os dentes tortos que tenho, é o que chamaria de realismo. Pois a realidade que a gente vive, se alguém diz que entende ou tá mentindo ou tá errado. Diante de uma incompreensão sistemática de tudo ou abraçamos as perguntas ou fugimos dela. Apichatpong torna as perguntas mais bonitas.

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Tem alguma coisa rolando: Balbúrdia

Ontem postei no Balbúrdia uma coluna que gostei demais de fazer, sobre o Incal, de Moebius e Jodorowsky, mas passeio também pelos filmes do Jodô e por outras obras deles. Segue aí o comecinho dele:

Sonhei que andava por dunas e que o sol refletia no chão e me doía os olhos. Caminhei até encontrar Alejandro Jodorowsky; ele não me falou nada, mas com as mãos pediu que eu o seguisse. Passamos por AREIA, areia, arena céu e areia até um lago raso. Jodorowsky entrou e, mesmo com 80 anos, apoiou-se nas mãos e permaneceu de ponta-cabeça. Pude ver ele refletido na água. Diante de mim, ele e seu reflexo se misturavam, um era luminoso, outro era negro. Sorriam consoantes e um Jodorowsky se entrelaçou no outro e explodiu em luz.

Desse clarão surgiu um livro que se abriu (pelo vento? não sei) e eu caí dentro do livro, mergulhei em páginas líquidas “Eu não sei nadar! Ayúdame, Jodorowsky!”.

Eu caí no Incal, o gibi. Sumiram as águas e eu estava no Beco do Suicídio, com muita gente caindo comigo (basta que um salte e vários insatisfeitos também se jogam). Os aristos mijam e atiram, e sempre erram. A queda, ao contrário do gibi, não acabava no lago de ácido; ela não acabava. Quando entendi isso, conversei com aqueles que caíam:

O RESTO SEGUE LÁ NO BALBÚRDIA.

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Vendo filmes

Tenho usado o cinema como um tempo deslocado: eu paro tudo, a sala escurece eu ganho memórias de outros, e me empresto histórias que gostaria que fossem minhas ou que adoraria que não fossem tão parecidas com minha vida.

É um tempo em que me escapo, sem me alienar de todo, porque quando volto, parece que há um reencaixe (não se preocupe, não faz muito sentido mesmo)

No último final de semana vi 3 filmes: no sábado, o clássico 8 1/2.

Cada vez eu gosto mais dele, não sei bem como lidar com isso. Cada vez que eu revejo, acho um novo. Dessa vez, fiquei doido com o texto da conversa entre Mastroianni e Claudia Cardinale. Que doideira ser-se Federico.

No domingo, sessão dupla com O sabor da vida e Anomalisa.

O sabor da vida é da Naomi Kawase que fez um filme que eu amo e deve passar no meu velório (Vestígio, já falei sobre ele). Andamento lento, com um drama pesadamente oriental e que o conflito só se põe a nu aos 55 minutos (eu vi no relógio). Não tenho dúvida que muita gente vai odiar.

Embora, até pese a mão na emoção mais fácil vez ou outra, a combinação entre dramático e lírico (no sentido dos gêneros mesmo) é muito equilibrada.

Anomalisa saí sem saber o que pensar direito, tem coisas que me incomodaram, mas a cada hora que passa gosto mais dele. É outro filme monótono (no melhor sentido), mas algo diferente do da Kawase. O texto é afinado, o stop-motion é esquisito do jeito certo e várias vezes ele diz que vai te levar pra lá, e te empurra pra cá.

Esses três filmes foram bons o bastante pro final de semana. Sigamos, sigamos.

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Café Espacial 12

novamente, estamos (eu, meus cabelos enrolados e minhas células patéticas) na Café Espacial. não sei como o Sergio (o editor) ainda não notou.

tem lá um texto bonitinho sobre o Jim Jarmusch e uma HQ de 16 páginas, bravamente ilustrada pelo Francis Ortolan.

Abaixo, as duas primeiras páginas dela.

Página 1, arte de Francis Ortolan
Página 1, arte de Francis Ortolan
Página 2, arte de Francis Ortolan

Página 2, arte de Francis Ortolan

 

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Laranja Mecânica

bem, meus pequenos droogs, mesmo atacado por uma intensa dor de gúliver, vidiei ontem o sinny Laranja Mecânica e foi horrorshow.

achei muito strack (por óbvia falta de Moloko) as toltchocadas, os entra-e-sai-entra-e-sai contra as devotchkas e com a boa e velha ultraviolência, mesmo sem ter nenhum processo Ludovico.

a ética está lá, a estética está lá. e eu também estava lá, por bog!

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As garotas sujas

eu parei uns minutinhos minha vida de sempre, fui ver um vídeo e caí no anos 1990. melhor: eu voltei a entender como essa década existiu e como foi estar lá. de resto só posso dizer que gostaria de ser amigo, namorado, pega, de ter sido uma das dirty girls.

e não, o vídeo não se trata de meninas safadas derretendo de tesão por você, mas de um grupo feminista adolescente norte-americano. vê aí:

Pra ver com legendas em português, mas com qualidade de resolução inferior, por aqui.

é um trabalho de 1996 de Michael Lucid, bastante amador, com uma captação de imagens ruim, mas que expõe um momento maravilhoso daquela década. depois de ver o filme eu fui ouvir o Nevermind inteiro, ler as letras. tudo fazia sentido. o grunge e as camisas xadrez no armário ainda faziam sentido.

mas a real é que provavelmente não teria o culhão dessas gurias e estaria lá, do outro lado, falando sobre elas. minha máxima autocondescendência permite dizer que eu elogiaria alguma coisa ou outra, mas nunca passaria pro lado de lá, o lado das dirty girls. onde eu gostaria de ter estado quando penso nisso hoje.

de que lado será que eu estou hoje? me alivio dessa, e deixo o minidoc como um PS pra Lena. elas fazem o que fazem não é pra ser cool, é porque elas podem.

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