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Estreia de A consciência de Zeni

Que tenho tocado um blog com os parças Liber e Paulo eu já falei. Tenho avisado direto quando rola alguma coisa lá, só que dessa vez acho mais legal porque é minha estreia como colunista, com A consciência de Zeni (O nome roubei de uma brincadeira que o Leandro Melite fez comigo).

Vocês podem ler minha carta pro Guazzelli, comentando sua HQ Apocalipse Nau LÁ NO BALBÚRDIA. O bacana foi que o autor leu e comentou na sua página do Facebook.

Abaixo, são as imagens do caderno onde escrevi o texto com minha já muito criticada letra.

AN 1

AN 2

AN 3

AN 4

AN 5

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Carta aberta a Lielson Zeni

queridão, queridão

recebo triste suas últimas palavras, amigo. sei que a coisa nos últimos tempos parece esquisita (ou melhor, TÁ esquisita), mas tu não pode se abater. mas o que a gente pode fazer, não é?

(tô até vendo aqui que sua azia pode atacar hoje, cuidado na alimentação!).

a leveza é uma qualidade (lembra do Calvino e suas propostas pra esse milênio?) e não há que se pesar com os heróis se mostrando humanos. como bem disse a Van, vivemos a ferreira goullartização da MPB. é triste, mas vale uma piada.

o ciclo de Vico fala da época dos deuses, seguida da época dos heróis, estamos na época dos humanos. a seguir o eterno retorno.

realmente, é decepcionante ver Caetano, Gil e Chico,  as vozes antes caladas que agora exigem silêncio. é triste mesmo. bem mais triste que o Corinthians que não faz gol.

sabe que eu ia adorar só me preocupar se o Corinthians corre risco de cair ou não? estudar a tabela do campeonato, fazer contas.

mas falemos de coisas boas! soube que terminou mais uma versão do longa-metragem, parabéns. ainda há trabalho pela frente, mas tá indo, né? grande ideia do Aristeu falar desse tema bem nessa época, né?

aliás, você viu o que aconteceu dia 15? prenderam um monte de gente no RJ alegando vaguezas como “dano a patrimônio”, “corrupção de menor”, “formação de quadrilha”. tinha um povo preso todo por formação de quadrilha. só isso. que quadrilha boazinha que não comete crime, né?

mas, claro voltemos ao que importa. viu que a Visual Editions tem livro novo? coisa linda!

tu percebeu uma coisa? Chico-Caê-Gil gritam pelo direito de calar e calam pelo direito de gritar. nem uma puta linha sobre a situação dos professores no Rio de Janeiro. nada! soube que deram um tiro num homem? não se sabe quem foi, mas a PM tentou “recuperar a bala” antes de qualquer coisa. estranho!

voltando ao foco: ainda pensa em chamar aquele livro de Cadê Amarildo? não acho que seja aproveitar de nada, mesmo que não tenha nada a ver com o pobre homem que sumiu. na verdade, tu viu que até o Jornal Nacional aceita a ideia da morte do Amarildo em uma sessão de tortura? parece que foi uma coisa meio Vlado: “forçamos a mão, galera. o cara morreu.”

sabe, também ando meio triste com isso tudo. fico perturbado mesmo. ontem quando vi na TV aquelas prisões arbitrárias, a tentativa de vilanizar os professores, me (te) fez perder a fome. não tô conseguindo dar conta. hoje de manhã vi o Racionais MCs retwitando o Procure Saber.

não sei se é exagero, mas quando resolvi escrever essa carta, eu pensei: vou escrever aqui porque eu posso. nesse momento, o que eu faço ainda não é chamado de corrupção de menores, formação de quadrilha, ataque à intimidade do trio da decepção Caetanoberto Buarque, não é considerado vandalismo. ainda podemos escrever num blog. que pouco que nos resta, não?

lá longe, depois das montanhas de estrume e atrás do gás ~moral~, aponta um estadinho totalitário, com pessoas aplaudindo quem atira e quem bate.

cara, me diz o que a gente pode fazer?

abraço esmaecido, Lz

PS – evite as redes sociais se não consegue lidar com tanta desgraça.

PS 2 – é nóis!

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Carta aberta a Cazuza

Caro Cazuza,

Sei que você tá bem morto, mas eu precisava recorrer a alguém e você foi o primeiro que me ocorreu. Como anda o Além-Vida?

Já que você é um morto, posso me permitir pular alguns preâmbulos e alguns fingimentos sociais, beleza? Por isso, não posso dizer que te achasse um grande cantor, mas servia. E também te achava um chato, tipo riquinho mimado enlouquecido com molho de beatnik. Calma, que o lance é assim: eu te achincalho agora e depois te elogio (é, né? preâmbulo social é coisa de vivo, desculpe). Continua lendo.

Tenho certeza que se convivesse contigo teria revisto minha posição pacifista e te socado na fuça. Até porque você era mais magro do que eu sou. Mas independente disso (ou seria apesar disso? Além disso?) suas letras e o que tinha pra dizer era sentido pra mim. Sentido no sentido (rá!) de que eu entendia aquilo.

Adoro coisas do tipo “disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso”, ou “eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer, pra poder te negar no último instante”. Se eu quiser, fuçar a memória a internet eu acho mais (vou polvilhando pelo texto, tá? Pra não ficar chato – por mais que eu acho que você não ficaria constrangido).

Mas, bicho, preciso te falar: as coisas aqui tão muito loucas. O povo tá jogando futebol, tem choro, samba, rock e a coisa aqui tá feia. Bem feia. Tem personalidade símbolo da luta contra a ditadura chorando por uns mirreis de possível biografia deles. (cá entre nós, desculpe se é teu amigo, mas quem vai querer biografar o Djavan?).

Vamos pedir piedade, senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde”.

Sabe o livro que tua mãe escreveu sobre você? Parece que a coisa caminha pro seguinte: se ela não quiser, ninguém mais pode contar tua história. Só vamos ter a visão dela. Num futuro longo e tórrido talvez eu não possa nem tornar pública essa carta pra você sem ter de remeter uns tostões pra alguém (então, vou aproveitar enquanto ainda posso falar alguma coisa).

Aí um cara que escrevia música com o Raul e depois quebrou o pau com ele virou o escritor brasileiro mais lido no mundo. É, o Paulo. Pode isso, cara? Então, ele queria que uns escritores convidados pra Frankfurt fossem amigos dele e não de quem escolheu a lista. Aí ele ficou puto e diz que não vai mais.

Nessa mesma Frankfurt, onde rola uma feira do livro e o Brasil é homenageado, na abertura, o Luis Ruffato, um escritor que acho que não é da sua época, levantou várias questões sobre nosso país. Aí vem gente dizer que ali não é lugar de falar essas coisas. Onde é, então? Trancadinho em casa? No protestródromo (nem vou te falar como a coisa tá lá no Rio)?

As coisas regrediram. Pessoas pedem menos liberdade, há cartilha de como protestar e tem escritor que acha que a literatura não é “lugar pra isso”. Se o Chico Buarque pode estampar decepção num dicionário, eu posso ilustrar decepcionado.

Cara, meus heróis não morreram de overdose (nem você, seu tratante). Meus heróis se mostraram uns merdas. Escritores que preferem o jogo da cena literária em vez do jogo da literatura; músicos que em vez de compor, lutam contra os direitos dos outros (os mesmos que avacalharam com o Simonal, legal lembrar). Escritor que se nega a falar da vida, músico que apoia censura prévia. Meus heróis são uma farsa.  Ideologia, eu tenho. Eu queria é que meus “heróis” e meus inimigos no poder também tivessem.

Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.”

Abração,

Lielson

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Carta para a senhora com quem trombei no metrô

cara senhora cujo nome eu não sei,

(na verdade, em vez de carta, podíamos tratar tranquilamente esse pequeno texto direcionado a você por bilhete.

algum estudioso mais atencioso dos gêneros pode bater pé e dizer que isso não é bem uma carta, por mais que tenha um destinatário. afinal, esse destinatário nunca receberá a carta e nem é ficcional. com exceção da profundidade, angústia e qualidade literária, é a Carta ao pai, do Kafka.)

enfim, quando bati em você com meu ombro ossudo ao descer do trem, você me gritou se eu não enxergava.

sim, senhora enxergo.

mais que isso: enxergo e a vi entrar no trem. a vi vindo em minha direção. e fiz absoluta questão de te dar uma ombrada.

por quê?

porque você entrou no trem enlouquecida antes que eu pudesse sair, o que é a coisa mais estúpida que alguém pode fazer. como encher algo que não foi esvaziado?

pense: é necessário desocupar, antes de ocupar de novo. insetos sabem disso, seu estômago sabe disso. até sua lata de lixo sabe disso.

então, em vez de contorcer pra garantir sua passagem, preferi o confronto modo celta.

não lhe peço desculpas e não lhe deixo abraços

Lielson

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Carta para Lena Dunham

querida Lena Dunham,

tudo bem? eu sei que essa coisa de mandar carta é um pouco antiquado e tal, e pelo que eu vi no Girls seus personagens são bem mais modernos e tudo, mas convenhamos: estou escrevendo em português e num blog. isso nunca chegará a você mesmo.

eu poderia até chamar este texto de muitas outras coisas, mas gosto de “carta” (era pra ser carta aberta, mas achei deveras pomposo – tipo a pompa de “deveras”, “carta aberta”, essas coisas).

assisti toda a primeira temporada de sua série. apesar de muita gente que eu gosto e respeito ter odiado, consigo assumir publicamente que eu gostei do que vi. dentre um monte de cenas e elementos, acho justo ao seu ego (e à minha justificativa) citar ao menos as primeiras lembranças que tenho.

gosto muito de a personagem principal ser você e de que ela tenha o seu padrão de beleza. se a Hannah fosse uma magrela de cabelo escorrido, com ancas suntuosas e peitos enormes, o seriado perderia demais. cavocar esse espaço pra outros formatos de corpos é lindo, é certo, é assim que tem de ser.

sem falar que é muito corajoso você se mostrar nua tantas vezes sem ter todos os atributos típicos de borracharia (evito dizer o que acho de suas tatuagens pra que esses comentários não ganhem o peso irônico que não devem ter).

gosto da demarcação de espaço da série: não somos o Sex & The City. 3 amigas seguindo um pouco padrão da série da Carrie, mas com muito mais atitude (a saber: a criativa protagonista com graves problemas, mas que é massa; a patricinha recatada com problemas de relacionamento e com restrições sexuais, e a porra-louca que tenta encobrir sua solidão com ideia de espírito livre). juntam-se a elas uma personagem alucinada e típica de humor, Shoshana, que poderia por toda a série a perder pela falta de realismo, mas funciona. Shosh alivia a seriedade de Girls, além de ser a deslumbrada com Sex & The City, pondo as cartas na mesa (muito boa essa, Lena) (ah, quase me esqueço da cena do crack, que é genial).

adoro a trilha sonora da série. o tipo indie medzzo dançante, medzzo mimimi é meu tipo de som. bate aqui, lena o/

voltando ao papo “estudos culturais“, acho que você concorda comigo que nossa sociedade continua puta machista e, por isso, é demais ver meninas no poder, mulheres tomando atitudes, jogar ao público moças enfrentando o mundo. juntando isso com a pegada realista da série, temos mais um ponto pra você e sua obra, Lena.

acho que os coadjuvantes vão bem, principalmente o Adam que é tão esquisito quanto a Hannah (acho isso bom, meu sonho é ser cada vez mais esquisito). e eu adoraria ter pensando na cena do muro cheios de cartazes de ‘sorry’.

e, é claro, todo mundo já falou, mas sua percepção sobre essa geração que fazemos parte, de quase 30 anos sem nenhum respaldo financeiro, poucas oportunidades, uns desesperados por carreira profissional mesmo sem nunca ter tido uma, interconectados, solitários e tal (vou chamar essa galera de “fodidos”, ok?). tua série chegou na hora certa falando desses fodidos, centrando o foco nelas, nas fodidas. sensacional!

(agora, Lena, você até imagina, né? é o momento do maldito mas. ah, essa adversativa canina que tanto barra um vendaval de elogios e se abre às críticas.)

Lena, xuxu, algo aconteceu na segunda temporada de Girls. tenho cá meus palpites, e tenho certeza (visto que não lerá) que não se importa que eu PALPITE.

claro, a pressão depois da visibilidade e do sucesso da primeira temporada deve ter sido foda e tudo, mas a segunda começa mal. você se esqueceu dum lance essencial pra Hannah: a fodidice. sim, ela não ter mais dinheiro dos pais e nem conseguir se segurar em empregos e se desesperar pra pagar contas enquanto tenta escrever, isso dava o tom da série. se ela está tranquila com isso e começa a arranjar trabalhos como escritora, o interesse começa a baixar.

essa personagem precisa estar em conflito permanente, ela tem de ganhar e perder e ir em frente (ou pro lado ou atrás). mas não, ela está lá, sussa. seu único problema são os namorados (ou peguetes), que não duram mais que um episódio. ou seja, não são problemas duradouros.

acho que Girls teve uma perda considerável quando o Adam se afastou. existe uma reação boa entre Hannah e ele e isso se perdeu.

outro ponto: no segundo episódio da segunda temporada (2×02) já fedia a algo podre. por deus, Lena, o que é aquela cena da Jessa e da Hannah num piquenique no meio da tarde, bebendo vinho e brincando com filhotinhos? sim, é isso mesmo: cheiro de Sex & The City!

não fique chateada. lembre-se, você nem leu isto mesmo! e por isso vou continuar a reclamar mais um pouco.

a amiga patricinha Marnie não evoluiu, e continua naquela aporrinhação de pega e volta com o ex, embora a perda de emprego tenha posto ela numa situação interessante. assim como aconteceu com Jessa e o fim do seu casamento. Aliás, Lena, que cena aquela do final do episódio 2×04, hein? ali tá um recurso muito bom da série, quebrar o drama com o grotesco. você faz isso dum jeito que funciona bem demais. e a Shoshana também está virando uma personagem mais séria, que me parece ruim.

Lena, eu tentei evitar, mas eu não consigo. o motivo dessa carta é o episódio 2×05. eu tentei colocar tudo de modo muito racional até aqui, mas estamos perto do ponto em que eu perco o controle.

Migona, o quinto episódio da segunda temporada de Girls é o PIOR EPISÓDIO DE QUALQUER SÉRIE QUE EU JÁ TENHA VISTO (e eu assisti Sex & The City e Chaves). a coisa é tão tenebrosa que valeria usar em aulas num exemplo negativo do que deve ser feito (desculpa a sinceridade).

o realismo que é o tom da série é traído e a coisa vira um conto de fadas da menina pobre encontrando seu príncipe encantado. Lena, que é isso? até tu caindo nesse papinho Disney way of life? você até é carregada nos braços dele depois de desmaiar.

o príncipe em questão é um 40ão, médico (capaz de faltar ao trabalho pra passar o dia trepando com a primeira estranha que lhe bateu à porta), cara quadrada, separado. ah, sim e clichê.

o conflito desencadeador de toda a ação é ridículo. o vizinho gatão que está incomodado com sacos de lixo a mais na sua lata, porque (coisa que ele não sabe no começo do episódio) a Hannah perdeu a chave da lixeira e aí espalha o lixo em latas alheia pela vizinhança. sério, é isso mesmo? parece trama de filme pornô em que qualquer coisa vira desculpa pra sexo.

aqui chegamos num outro problema: porque todos os caras que a Hannah pega são lindos, de corpos malhados? nenhum gordinho, nenhum magrelo. por um lado há o enaltecimento da diversidade de corpos, por outro não (não nego, entretanto, que o corpo feminino é muito mais reprimido e se se deve escolher, a escolha certa foi feita – porém, você não precisava escolher).

eu preciso te confessar, Lena: estava assustado e irritado com essa trama capenga (tanto, que já torcia pra você acordar ou algo do gênero, pois esse clichê seria um alívio perto do que estava na tela) e então me dei conta de que no episódio TUDO é falado, na melhor tradição da novela global brasileira: Hannah está triste e se sentindo só e ela diz que está triste e se sente só; Hannah está confusa, ela diz que está confusa. Lena, o que aconteceu com você? nem nos piores momentos da série, o roteiro esteve tão amador e ruim, a ponto de um amador perceber.

reveja o episódio. repense. não faça mais isso com seus expectadores e com você mesma. eu nunca esperei a profundidade de Tony Soprano, o humor de Seinfeld ou os múltiplos enredos de Madmen em Girls, mas também não esperava ver um Malhação cool que se passa no Brooklyn e legendado.

Lena, não sei se voltarei um dia pra série, o trauma foi intenso. acho melhor que cada um de nós siga seu próprio caminho agora. tenho certeza que você não vai sentir falta deste expectador aqui. se um dia desistir de fazer um Sex & The City sujinho mas arejado, me avisa. vou ter prazer em ver.

Um abraço

Lielson

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