Monthly Archives: Março 2016

36

Tem essa coisa do ciclo, né? É legal erguer umas estacas e dar uma olhada no que aconteceu entre aquelas duas marcas. Às vezes, não é legal, só necessário. A dor te lembra que ainda tem pele, né?

Aniversário pode ser isso.

Entre os 35 e os 36, tive uma vida agitada, mas não nessa ordem: fiz uma tatuagem meio cuzona pois literatura (shut your eyes and see), tenho escrito bastante HQs, quilos de ídolos morreram, comecei a atualizar o blog com frequência, li bem uns 40-50 livros, a minha casa de infância quase foi desmontada (mas deve ir), escrevi um livro sobre meu velório, não escrevi o Mente do Macaco (mas tá quase), não escrevi o Estamos sós com tudo que amamos, minha mãe quase perdeu a perna, comecei a meditar, comecei um blog sobre HQ com bons amigos, vi cenas lamentáveis, terminei a macroestrutura de Damasco, meu pai teve – na ordem – labirintite, câncer de pele e depressão, revisei várias HQs, vi a Sharon Van Etten tocar, uma tia querida morreu, comecei a me lembrar dos sonhos, perdi o rumo, quase comecei análise, ajudei a organizar uma premiação de quadrinhos, minha relação longa e estável se fragmentou, o país que moro ficou doido, tô mais louco que o urso do Pica-pau pra pagar as contas, achei o prumo, tenho tido dias ruins como nunca, tenho tido dias pacíficos como nunca, mantive o trabalho, me endividei pra ver o Radiohead em Barcelona, tenho feito diários disso tudo, desisti e desdesisti várias vezes, novamente fiquei melancólico num dia de aniversário.

Sem dúvida um ano memorável – nem sempre massa, mas sim, criador de memórias.

Não tenho a menor ideia do que vou dizer sobre o que aconteceu nos 36 para 37, porque a impermanência é mais forte do que a gravidade. Esmagado em grãos, aquele que tenta me reconstruir, percebe a petulância de que eu sou só um corpo de pó sem nenhuma relação entre os elementos, a não ser a própria relação. Adiante, adiante pelo círculo que daqui a pouco chegamos aqui de novo.

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Lido: Graça Infinita

Terminei faz umas 2 semanas a leitura do megabitelão Graça Infinita (tudo bonitinho na proposta de ler menos livros em 2016) e já que levei tanto tempo pra ler, decidi me dar tempo pra pensar nele antes de escrever. Primeira regra sobre o clube de leitura do Graça Infinita: o livro é muito foda, não importa o quanto eu dê a entender/você queira entender o contrário disso no texto a seguir.

Acho injusto num grau paradoxal o comentário de que um livro/filme deveria ter páginas/minutos a menos. Eu só posso concluir alguma coisa a partir da leitura daquela obra como ela se apresenta (a menos que faça resenha de material que se leu pela metade). Se a obra tivesse menos de si, não há garantia nenhuma que minha impressão seria igual a de agora, mas mais feliz porque gastei menos tempo. Isso é simulação de dança imaginária projetado numa parede torta. Enfim.

O livro não me puxa o tempo todo, com momentos que acho bastante desinteressantes, como descrições de espaços físicos ou a conversa entre os agentes duplos Canadá-EUA. Entretanto, esses momentos lesos de certa forma engatilham a força dos outros que gosto muito, como toda a parte do AA ou do cara hospitalizado. Mas eu gostar ou não é problema meu, o que é inalienável é como tudo que está no livro se encaixa no projeto de David Foster Wallace pra bagaça.

Na minha leitura, a chave de tudo aqui é excesso, é disso que livro trata e é disso que o livro se constrói: há excesso de personagens, de subtramas, de páginas, de descrições, de repetições, de vozes narrativas, de listas, há excesso de uso de drogas por diversos personagens, há excesso de controle e de descontrole, de lances de sorte, há excesso de ideias, há excesso de notas de rodapé, há excesso de consumo – e aqui chegamos no nervo da coisa.

Vários dos excessos que vejo no livro se tratam de hiperconsumo e não há símbolo maior disso na obra do que o filme Graça Infinita, que as pessoas não conseguem parar de ver. Esse evento do livro trabalha num campo simbólico bem conhecidinho: mídias audiovisuais e consumo sem noção.

Outro apoio importante: o livro foi lançado nos EUA em 1996 e caiu no Brasil quase 20 anos depois. A tecnologia apontada como futuro no livro é bastante retrô, mas a chave de leitura “isso é uma obra dos anos 1990”, a década da depressão (não da Grande, mas das pequenas, que cabem entre suas botas e seu chapéu) é fundamental pra arrematar muita coisa na leitura.

Acho que uma resenha sobre uma obra excessiva deveria também se estender forçadamente, mas preferia me apoiar numa outra característica do texto do dfw: a sinceridade, que é onde acho que ele plantou a força motriz desse livro de excessos. E ser sincero, pra mim, é saber que tudo que posso falar sobre esse livro é isso que foi aqui.

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Cemitério do esplendor

Sábado vi Cemitério do esplendor do Apichatpong Weerasethakul. Acho que o que mais gosto no cinema do AW (né?) é que eu não pego muita coisa. Na real, minha razão dá um perdido em boa parte do filme, mas eu encaro com certa intuição o que me salta como cenas favoritas. No caso de Cemitério do esplendor é a cena das pessoas trocando alucinadamente de lugar nos bancos, a cena final do futebol e as teofanias (deusas comendo algo tipo ARITICUN foi demais).

Esse mundo que não entendo bem, mas vou mordendindo como posso, com os dentes tortos que tenho, é o que chamaria de realismo. Pois a realidade que a gente vive, se alguém diz que entende ou tá mentindo ou tá errado. Diante de uma incompreensão sistemática de tudo ou abraçamos as perguntas ou fugimos dela. Apichatpong torna as perguntas mais bonitas.

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Monkey Mind

MM 4

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24 de Março de 2016 · 17:23

Avulsinho 7

 

Sonhei que via aquela sua amiga, nua e usando um cobertor como capa. Ela balançava a cabeça no ritmo de uma canção que não tocava (algo como Grace). Me deitei com ela sobre o cobertor e antes de nos beijarmos, vi pela janela um filhote de gato na neve e o deixamos entrar.

Acordei e fui até janela pra sentir o vento do verão, quando olhei pra cama, vi a marca que as tuas unhas vermelhas deixaram na parede branca.

 

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Tem alguma coisa rolando: Texto na Gazeta do Povo

Ontem saiu na Gazeta do Povo de Curitiba uma matéria sobre o filme Batman vs Superman e me convidaram pra fazer um textinhinho de um futuro distópico em que Donald Trump é presidente dos EUA e o Superman seu cupincha.

O texto pode ser lido AQUI.

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Monkey Mind

MM 3

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18 de Março de 2016 · 16:44

Tem alguma coisa rolando: HQ Visita

Visita-topo

Mais uma HQ em parceria com o Diletante Profissional, Zé Oliboni. Lá embaixo aquele blablablá de onde surgiu a ideia etc.

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Sobre dispersar

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

Mario de Sá-Carneiro tem um ótimo livro de poemas chamado Dispersão (domínio público, hein? se liga).

Existe um lance matemático chamado diagrama de dispersão. Aparentemente, tem a ver com progressão e regressão de números (pessoas num gráfico são só números, isso explica boa parte das políticas públicas e privadas). Aparentemente (2), esse gráfico demonstra relações entre as medidas, o que me dá vontade de rir quando penso em “dispersar”.

Para que as cores luminosas surjam, elas precisam ser dispersadas de um feixe de luz branca.

A química cataloga tipos de dispersão que geram soluções, coloides ou suspensões. Rio (2).

Quem não consegue estar atento está disperso. Há a dispersão de manifestação por forçaàs vezes não há. Morremos e nos dispersamos pela terra e depois por qualquer lugar. Como partícula dispersa sou materialmente tão ínfimo quanto historicamente sou agora.

Há uma baita lição na dispersão, um dia eu junto os pontos.

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Lielson Zeni, tradutor de Cornellà

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Sigo na vida,  mas também vou pela ficção.

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