Monthly Archives: Fevereiro 2016

Tem alguma coisa rolando: R.Nott Magazine

N. 8, Mark Rothko (1952, óleo sobre tela, 1,73 x 2,05 m)

N. 8, Mark Rothko (1952, óleo sobre tela, 1,73 x 2,05 m)

Ano passado fui convidado pelo pessoal da R.Nott Magazine pra escrever uma coluna sobre música, na sessão deles chamada RUÍDO. Já que sou fanzoquinha do ruído/mm e do Merleau-Ponty, juntei tudo, embolei e fiz uma divagação sobre música pop instrumental. Ó o comecinho da parada aqui:

   Há quem não goste de filmes com câmeras paradas e sem pressa, há quem não goste de quadros com manchas que não se parecem com pessoas, há quem não goste de livros de linguagem inconstante. Não entendo esse povo, mas beleza, cada um do seu jeito e seguimos.

           Mas de quem não gosta de música instrumental… bem, nesse caso, sou obrigado a ter pena mesmo. Nem vou falar de sinfonias e esses lances maneiros de música erudita visto que NÃO DOU CONTA, tô pra te falar de música dita pop, mais especificamente do dito post rock, que trato como a trilha sonora do dito tudo.

 +++

           É, tudo. Ponto. Trilha motivadora pro trampo mala, som de fundo pra escrever sobre música, companheira sonora do trem e, maior até que o tudo, alma do fone que me salva das conversas que não quero ouvir.

           E se você não quer ouvir, tá justo, tá correto, tá bonito, um (vamos dizer) ruído/mm (OUÇA AQUI http://www.ruidomm.com/) pode salvar sua vida. Aliás, este texto saiu de um processo de ouvir os discos da banda em looping até tudo perder o sentido e começar de novo a fazer sentido.

           Eu não sei se é besta dizer que não saber sobre o que escrever (filosofia + música), ou seja, o que me deixou sem palavras, me fez pensar em música instrumental.

           Embora a falta de palavras possa ser uma quebra de comunicação, a música instrumental sai em movimento contrário, criando uma bomba de sentidos e significados pela não-palavra. Sim, porque oIntrodução a cortina do sótão está entupido de não-palavras. Feche os olhos e veja.

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          Eu sei que o acordo ortográfico mais recente do português prevê não-hífen em “não-palavra”, mas eu gosto assim. Eu olho pra ela e fico bem. Me deixa.

O texto completo pode ser lido aqui, no site da R.Nott.

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Monkey mind

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26 de Fevereiro de 2016 · 18:42

Avulsinho 4

 

Somos um sitcom para os budas, que riem como prova de sua compaixão.

 

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As primeiras HQs de Alejandro Jodorowsky

Quando era ator e mímico, antes de escrever e dirigir Fando Y Lis, seu primeiro longa, Alejandro Jodorowsky fez quadrinhos. Ele mesmo desenhava e escrevia as Fábulas Panicas e muito desse material tá num blog maneiro dedicado a isso, no caso este aqui.

O “panica” vem do deus Pan e era esse o nome do movimento pós-surrealista que o Jodô fazia parte. Selecionei alguma das minhas favoritas, principalmente aquelas que me lembram o meu projeto São Paulo S/A (nesse momento vaidoso, vale lembrar que já fiz uma HQ com o Jodorowsky).

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Tem alguma coisa rolando: HQ Feliz natal

Mais uma HQ em parceria com o diletante profissional Zé Oliboni. Lá embaixo aquela papagaiada de sempre sobre o roteiro da HQ.

Feliz natal

***

O Zé me sugeriu que fizéssemos ma HQ temática pro natal (depois faríamos uma de carnaval também). Pensei um pouco sobre o consumo, mas descartei porque essa é a primeira ideia sobre natal depois de alegria e paz entre os humanos. Lembrei do nascimento de Cristo, com aquela violência de morte de primogênitos e da via Crucis com toda a tortura que ele sofreu até a crucificação. Pensei numa chave irônica, pesquisei um pouco e encontrei um discurso do Obama desejando feliz natal e ano-novo e anunciando a retiradas das tropas norte-americanas do Iraque. Peguei o discurso, recortei como me calhou e sugeri ao texto macio um espancamento com crucificação. Não  gostei muito da fonte, mas ela conversa com cartão de natal e ela diferencia a voz do Barack da de Michelle. Ó o roteiro, ainda com o discurso em inglês (rolou um certo empenho na edição da tradução de alguns trechos e consumiu bastante tempo).

Primeira coisa: letras diferentes pro presidente e pra primeira dama. Eu posso fazer isso. Os nomes presidente e primeira dama não serão usados (estão no roteiro só pra marcar que as fontes serão diferentes). Pensei tudo em roupas contemporâneas, sem usar cor de  pele.
THE PRESIDENT: Hello everybody, and happy holidays.
Um homem é empurrado no chão, com as roupas rasgadas e a testa sangrando (coroa de espinhos, mas ele tá sem ela).
THE PRESIDENT: That’s the same spirit of giving that connects all of us during the holidays.
Vários homens chicoteiam um cara caído que não se vê

THE PRESIDENT: So many people all across the country are helping out at soup kitchens, buying gifts for children in need, or organizing food or clothing drives for their  neighbors.
O chicoteamento continua, mais intenso.
THE PRESIDENT: For families like ours, that service is a chance to celebrate the birth of  Christ and live out what He taught us
O homem no chão tenta levantar
THE PRESIDENT: – to love our neighbors as we would ourselves; to feed the hungry and look after the sick; to be our brother’s keeper and our sister’s keeper.
Em pé, ele é estapeado
THE PRESIDENT: to be our brother’s keeper and our sister’s keeper.
É agarrado pelos homens e posto em pé, mas ele não tem forças.
THE PRESIDENT: And for all of us as Americans, regardless of our faith, those are values that can drive us to be better parents and friends, better neighbors and better citizens.
É arrastado meio em pé, meio caído, pelos homens.
THE FIRST LADY: So as we look to the New Year, let’s pledge ourselves to living out those values
Homens martelam homem na cruz, visão distante. Vemos todos os caras na cena.
THE FIRST LADY: by reaching out and lifting up those in our communities who could use a hand up.
Cruz é levantado pelos homens
THE PRESIDENT: So Merry Christmas, everyone.
Crucificado em destaque.muita dor.
THE FIRST LADY: Happy holidays everybody, and God bless.
Close no crucificado, que olha pra cima e fala: Por que me abandonou?

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Ouvido: A love supreme

Tem um projeto daqueles geniaizinhos no Sesc Pinheiros aqui em SP: audições históricas. Rola de convocar músicos fodões para tocar inteiro e na ordem um disco de jazz clássico.

Sexta, dia 19, eu fui lá pra A love supreme, do John Coltrane, interpretado por um quarteto (baixo, piano, sax e bateria). Não sou conhecedor de jazz e nem músico pra falar de MODO TÉCNICO sobre o que rolou, mas tenho uma relação muito louca com música, e posso dizer o que pessoalmente penso ter sentido.

Música é muito importante pra mim, tanto que é difícil, sei lá,  ler enquanto ouço; eu meio que me presentifico na canção, eu lhe entrego minha atenção (algumas vezes a proposta é me influenciar por um disco e escrever, que nem faço agora). E já que música é obviamente abstrata, sem aquela falsa imagem de concreto que a palavra vende existir, então, andar por uma canção é um caminho novo a cada audição, não tenho mapas ou memória espacial dos discos que amo.

Não tenho nenhuma relação especial com A love supreme, além de ser um disco que gosto muito e bom de doer as bochechas, mas sentir (não se trata mais de audição) ele ao vivo, com  vibração das notas ali pertinho, é comovente.

A gente ouve em casa e no trabalho e tudo, mas o jazz foi feito praquilo: indivíduos se pondo em instrumentos diante de estupefatos. É simples até.

Eu fechei os olhos e circulei pela melodia, PRESENTE, ali, sem fazer outra coisa; meu passado me empurrou ali, meu futuro, sei lá; ali, aquela música. Sentia como quando medito bem, um calor, um foco, uma lucidez mental e até um certo deslumbre tátil pelos braços. Ao final, claro, estava exausto: a música exigiu de mim, eu dela, nos entregamos até onde pudemos.

Foi auspicioso.

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Lido: Nocilla Experience

1

Livro de capítulos curtos, que vai se encontrando calmamente.

2

Um tipo comprido, de bigode e terno janota se aproxima. Traga o cigarro e o abandona.

3

Eu mataria por ter pensado nessa estrutura narrativa. PORRA!

4

Esse é o segundo de uma trilogia chamada de Nocilla, mas o Brasil nunca viu o terceiro volume. O primeiro é o Nocilla Dream.

5

Tu vai acompanhando uma trama aqui, outra ali, daí algumas delas se cruzam, outras jamais se encontram, outras têm a ver tematicamente.

6

Esse é o primeiro que leio do Mallo. Gostei, viu?

7

O tipo dá um tapinha nas costas de um resenhista de blog e fala em inglês (já traduzido aqui): “desiste, tu não sabe o que falar do livro.”

8

 

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Avulsinho 3

Sonhei que lia um livro que já reli. O texto era o mesmo do livro que existe e eu sorria e me sentia feliz, pois ler aquilo me reconfortava tipo ouvir a piada recorrente de um amigo que há tempos não vê. Acordei e o texto estava tatuado no meu braço.

O braço é meu, a frase do Joyce e o trampo do @andrecostatattoo

A photo posted by Lielson Zeni (@lielsonzeni) on

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Tem alguma coisa rolando: HQ Rigor Mortis

Mais uma da lavra da parceria com o Zé Oliboni e as HQs pro Diletante Profissional. Lá embaixo falo um pouquinho sobre a ideia dessa história.

RM 1

Rigor mortis 2

Rigor mortis 3

RM 4

***

Mais uma HQ que o difícil foi achar um texto enxuto o bastante, sem ser insuficiente. Conversei com o Zé sobre a linha-mestra da história ele gostou. Aí, mandei pra ele o roteiro no corpo do email mesmo:

pro da dança
pensei uma frase na primeira página, em que tem planos detalhes do corpo e rosto e paisagem
“Quando eu  morrer, por favor,…”
quantas páginas você quiser de movimento de dança na vibe Jules Feiffer (dá uma olha no Mate minha mãe), com os painéis sem fundona última página um plano aberto (se quiser, com fundo e tudo mais)
“…dancem sobre meu túmulo.”
fred astaire debulhando:

gene kelly

A curiosidade é que pedi por Zé me usar como modelo pro personagem, porque ma época tava no meio da escrita de um livro sobre meu funeral. Tudo aqui parte de uma concepção mais festiva da morte, encarando a perda como algo natural, com desapego e pelo viés da impermanência. Tem uns molhos medievais aqui também e muito Monty Python, mas sem o humor como resultado, sendo o humor levíssimo um suavizador.

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Na estrada

Sempre quis escrever um livro na estrada, pra ver se as palavras e as ideias acompanham o o vai-e-vem de mim. Um livro não só sobre a viagem, não sobre os lugares, ou as pessoas, ou sobre o que comi, quem conheci. Sempre quis (e ainda desejo) escrever um livro sobre deslocamento.

Em Memorial do convento, José Saramago usa um capítulo inteiro pra descrever a dificuldade pra se levar UMA das milhares de pedras que ergueram as paredes do tal convento. Não é disso que falo.

Um livro que trate de sair de um lugar enquanto vai a si e trate de sair de si enquanto se permanece; um texto que ousasse falar sobre nada e fosse delicioso de se ler, como se engolir aquelas palavras fosse um docinho de festa de criança aos quais se ataca às dezenas. O texto que falasse do ir que se precisa, do ir que se basta.

Mas nunca fiz.

Sempre fico enfebrado do vetor deslocamento quando visito meus pais em Francisco Beltrão, no Paraná. Moro em São Paulo e voo até Curitiba e lá pego 9 horas de ônibus pra manter meu corpo quieto em meio à madeira de minha casa de infância enquanto a mente é atacada pelo excesso de TV, agradada pelo papo qualquer e pelos grandes projetos. A mente giragira, o corpo permanece. Na estrada na volta, o corpo é conduzido e o olho vê o mundo que me olha todo dia.

É preciso falar sobre o deslocamento. Talvez o livro de Barcelona, talvez nunca. Evito citar a velha Hilda Hilst, mas quem a conhece, sabe do que falo (e pra vocês que a conhecem, não evitei falar).

É preciso escrever sobre o deslocamento.

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