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Li o Senhor Risus

Assim: não é que eu não goste de Ficção Científica (sou bem fãzoca de Vonnegut, na real), mas não sou um leitor de FC QUE COMPARECE. Leio lá de vez em quando e tal e, por causa disso, não sei relacionar Senhor Risus e outras obras, nem posicionar esse conto na literatura do autor, o russo Aleksandr Romanovitch Belyaev. Coisas da vida.

“Mas, talvez, no dia de amanhã, estaria de braços dados a uma mocinha de olhos celestes e de boca púrpura, se sentaria junto a ela em um automóvel luxuoso e a levaria ao melhor restaurante da cidade. […] Antes teria de encontrar um emprego, trabalhar como engenheiro para algum industrial, guardar dinheiro e, logo, montar um negócio próprio. Então, tudo rolaria bem.”

a capa não é essa aí, não. é só pra vocês verem como é o nome do autor em cirílico.


O conto todo se vira com dois elementos BASICÕES: a industrialização (e suas paradas desumanizadoras) e o ajuste social padrão (que não deixa de ter a ver com o primeiro). Me acompanha.

A parada rola nos Estados Unidos. Guarde isso porque é importante  pras simbologias do conto (sim, o autor, é russo mas achou mais massa passar uma história sobre consumismo e industrialização sem noção na terra que botou o Ford e o Taylor no mundo).

O autor morreu de fome em 1942 durante a ocupação nazista na cidade russa de Pushkin. Coisas da vida.


O papel da mulher na projeção de Spalding é o mesmo que o de um objeto, tipo um carro, mas dessa vez de valor social. Não existe amor no coraçãozinho do senhor Risus.

Spalding, engenheiro recém-formado, luta para ter um lugar na indústria (vai vendo). Mesmo com notas fodonas e aptidão física poderosa, Spalding fica BATENDO CABEÇA e não consegue o trampo e segue “livre no mercado de trabalho”.

“Mas comprovou muito rápido que apenas isso não bastava. As unhas lhe serviam apenas para arrancar, um dia, em um acesso de ira, o aviso colocado no portão de uma fábrica: “não há vagas”. […] Na maioria dos casos não conseguia ser recebido sequer pelo secretário, quanto mais pelo diretor. Restava apenas o recurso de telefonar da antessala. Uma vez havia tentado arrancar violentamente o fio do telefone, mas acabou sendo vergonhosamente expulso do escritório […].”

O leitor já saca rapidão que o Spalding é o cara que acredita na meritocracia (vai vendo). E quando isso o derruba, aposta tudo em se tornar um empreendedor: inventar uma patente de algo que entupa seus bolsos. Chega a conclusão que pode decompor laboratorialmente o humor e levar todos a rir (sacou o Senhor Risus?).


Surge uma noção aqui de que seria possível sintetizar os sentimentos por meio de engenharia e que, desse jeito, poderia levar as pessoas ao riso, às lágrimas. Passa até pela ideia de uma máquina de compor músicas em escala industrial (vai vendo) pra dispensar o pagamento de direito autoral (né?).

“Da sala ao lado, como um eco, podia-se ouvir soluçar, bufar, tossir, espernear, gritar e delirar a várias vozes, mas ninguém vinha ao socorro do diretor; talvez os demais também precisassem de socorro.”

O riso vira uma espécie de franquia que pode ser aplicado a qualquer negócio, aumentando as possibilidades de entrada de dinheiro. Nessa, o riso se desumaniza e passa a seguir uma fórmula certeira de funcionamento.

Sacaram que a ira inicial do Spalding leva ele ao humor?

Pietro Aretino teria morrido de tanto rir

A morte do poeta Pietro Aretino (1854, oléo sobre tela, Kunstmuseum Basel) – Anselm Feuerbach (1829–1880)


“Bekford ria, debatendo-se em convulsões, como um pássaro preso em uma rede. Estendeu a mão até o alarme, mas um acesso de riso espasmódico paralisava cada movimento.”

Tem também o lance do investidor, Bekford, se recusar a lhe pagar o acordado (ridículos 2%), o que obriga Spalding a ir pro outro lado da lei. Mas o pilantra do Bekford não é criminalizado por sua exploração  (vai vendo).

“[…] digitadoras e secretários se retorciam em paroxismos de hilaridade, semelhantes aos espamos pré-agônicos de alguma doença epidêmica terrível.”

Numa sociedade mecanizada, que tudo pode ser substituído por uma máquina industrial, o riso é uma força demoníaca capaz de arregaçar todo o sistema. Senhor Risus é sobre a força do rir diante de um mundo absurdo, de como esse riso é doloroso e torturante (se fosse uns paranauê acadêmico ia sugerir Bakhtin).

“Ele se decompunha tanto que apresentava olhos revirados, lábios azulados, sentia cólica nas costelas e lhe faltava ar.”

Não é o absurdo uma das bases do humor? Coisas da vida.

Ah, muito grato à batutíssima Balão Editorial que me enviou o ebook. Você pode comprar a obra aqui, no site da editora.

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