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Caixas de papelão

nasci no interior, em Francisco Beltrão.

é, Beltrão é uma cidade ali do sudoeste paranaense com pesada influência gaúcha, com menos de uma centena de milhares de habitantes, com um cinema, umas duas livrarias de “volta às aulas” e duas bancas de jornal. entre outras coisas da vida, foi ali que conheci os gibis (eu lia todos eles: Disney, Mauricio de Sousa, Recruta Zero, Luluzinha, Tex, Zagor, Conan e, os meus favoritos na época, super-heróis).

eu tinha direito a comprar tantos dinheiros (a moeda brasileira na época trocava mais de nome do que programa do SBT) em HQs por mês — foi um bom acordo com minha mãe na época da inflação medonha que mordia as ancas brasileiras semana a semana.

(vale dizer que na época as HQs mensais de heróis tinham o mesmo tamanho das revistas da Mônica de hoje – o tal do formatinho)

mas nem só de consumo eu engordava minha coleçãozinha, afinal, doações sempre eram bem vistas pelos chanceleres da Lielsonlândia. eu lembro de passar horas relendo aquelas histórias e traçando novas relações que ou estavam no roteiro por acaso, por descuido ou só não estavam.

as HQs ainda inspiravam poucos filmes (um Conan, outro Super-HOMEM), mas a programação completa dos megaeventos dos bonecos dos Comandos em Ação da rua Alagoas, 857 tinha vindo das revistinhas.

(esses bonecos deixavam de ser “brinquedos militaristas americanos” pra se tornarem aventureiros multidimensionais, em crossovers com playmobils e bonecos de plástico sem movimento, bonecos do Rambo e He-Man, numa harmonia étnico-bonecal de encher as tardes infantis. todos esses heróis eram equipados com novos dispositivos criado por durex e papel alumínio.)

depois de me formar em Pato Branco, cidade rival com ensino técnico federal (atual UTFPR, eterno CEFET) e tentar trabalhar de eletricista no Rio Grande do Sul, entrei numas de fazer Publicidade e me mudar pra Curitiba. Daí, passei na UFPR e me fui pra Curitiba em 2000, onde fiquei até 2011, quando vim pra SP.

ou seja, na casa dos meus pais (que já chamei de minha casa) estão todo o material da minha infância. espalha-se por dentro e sobre armários, embaixo de camas e até, insensatos pais, do lado de fora. a infância que fui (sim, porque se tem um relógio ou um ventilador; a vida “nós somos”) está compactada em caixas de papelão.

a cada visita aos meus pais nas férias, eu relia uma ou outra, tirava o pó matava traças e ia pra minha vida de hoje. ano passado estava decidido a vender o que desse no Mercado Livre ou doar pralguma biblioteca. mas espera um pouco, já volto pra cá.

eu trabalho na Mauricio de Sousa Produções, no editorial. e quando minha mãe comenta isso com outras pessoas, muita gente pede autógrafo (do Mauricio, claro!). dessa vez, levei algumas revistas assinadas pelo chefe. uma delas era prum menino chamado Alan (ou Allan, não sei). e piá me aparece na casa dos meus pais bem no dia em que comecei a mexer com aquela infância.rar.

ele me disse que gostava muito de HQs e que tinha 27 gibis. 27? só isso?

pensei em lhe dar mais alguns da minha antiga coleção e dar uma anabolizada no repertório de HQs dele. o Alan surtou quando eu comecei a trazer os pacotes com as revistas. depois de um toque esperto da Van, resolvi passar minha “herança” toda pra ele (imagino que umas mil revistas) (o pai do garoto precisou buscá-lo com um carro, que nós lotamos o porta-malas). o Alan tava bem feliz, ele não se continha de agitação, corria pra lá e pra cá: ele agora tinha uma coleção de HQs! eu olhava pra ele e sabia exatamente o que era aquilo.

se eu já tô um pouco longe dela, que minha infância vá ser com o Alan. que a infância que ele É seja tão feliz quanto a minha foi com aquela pilha de papel colorido. que a minha infância saia de caixas de papelão e continue mais um pouco por aí.

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