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De um curso de quadrinhos que fiz

esse ano eu me inscrevi numa oficina de criação de quadrinhos do Lourenço Mutarelli. minha limitação no desenho é pantagruélica, mas meu desejo de desenhar é ainda maior.

(a fórmula é simples: tesão de desenho (t), teimosia (T) e desenho fei(t)o (df) -> t + T = df, sendo que T = 6t,  logo t + 6t = df  -> 7t = df -> t = df/7)

conheci gente que estava nos mais diversos níveis de produção de HQ, completando a escala de NUNCA FIZ a ACABANDO MAIS UMA DE 200 PÁGINAS. eu sempre ataquei de roteirista pela consciência de minha dificuldade com as artes visuais (e talvez eu ter escrito mais HQ que prosa ou qualquer outra coisa nos últimos tempos seja uma tentativa de conseguir, por osmose, desenhar). mas ao final do primeiro semestre todos deveriam fazer uma HQ de uma página – desenho e roteiro.

tentei primeiro meu processo básico de roteiro: procurar as ideias anotadas, optar por um ponto de interrupção da história (aka final), desenrolar ações e tá-dá: eu tinha desenhar uma HQ de 6 páginas. um ataque de lucidez causada pela doçura do creme de leite com goiabada da cantina do Sesc Pompeia me trouxe de volta. como eu desenharia tantas páginas com tão pouco tempo?  não me acadelei e fiz o que pude. abandonei essa ideia (aka foi pro caderninho pra quando eu achar um desenhista de verdade).

fui num jeito mais instintivo de fazer a coisa: ia desenhando enquanto ouvia música até que uma ideia pulasse no papel. quando rolou There there do Radiohead eu lembrei dos versos que gosto desta canção.

daí eu fiz como se fosse um exercício: alguns quadros que levassem aos versos que gosto. no meio, uns textos pra dar uma juntada em tudo. o resultado, pouco admirável, é este:

HQ-MUTA

sem nenhuma busca de comiseração dos leitores desta postagem, eu sei que isso não é bom, mas me fez feliz fazer. foi uma arte que representou pra mim uma das primeiras coisas que o Mutarelli disse na sala: “não importa desenhar bem, importa se desenhar te faz bem”. e fez, nesse caso.

adiante, no começo do segundo semestre, eu soube que precisaria fazer uma HQ de 1 a 4 páginas. ainda embebido da noção do semestre anterior (ou talvez comendo um doce de amendoim gelado) abracei logo a UMA página. mas minha demência exigia que eu tivesse uma tentativa de ~esticar os limites da linguagem do desenho + texto~. contar uma história com jornada do herói eu sei fazer (embora talvez não consiga desenhar), disse um arrogante Lielson do passado (saudades de você! um abraço!).

a primeira ideia foi de um sitcom(ics) em que Joyce e Kafka eram vizinhos de porta. a inspiração óbvia era o Seinfeld. a ideia evoluiu pro Kafka e o Joyce num rodízio de pizza, esperando o Salinger chegar. ai aparece o Beckett e diz que o Salinger não vem. não consegui diagramar isso em uma página, nem desenhar o Joyce a contento. sem falar que fiquei com medo de pagar de cuzão pelas piadinhas setorizadas, que ainda podiam não funcionar. corri pro canto chorar e pensar.

o tempo engoliu as folhinhas do calendário e a data de entrega me dava tchauzinho tomando Q-suco. mas eu insistia: precisava de algo que me agradasse. pensei numa meta-história sobre como fazer uma história quando não se desenha bem. daí ganhei uma crise de presente: porque eu sempre apelo ao metaficcional?

fiquei nessa um tempo. daí, pensando em como desenhar o que eu conseguia, provocar limites de formato da HQ e o porquê da metacoisa, fiz o que tá aí embaixo.

metalinguagem-menor

de novo, me senti feliz.

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