Monthly Archives: Outubro 2013

Café Espacial 12

novamente, estamos (eu, meus cabelos enrolados e minhas células patéticas) na Café Espacial. não sei como o Sergio (o editor) ainda não notou.

tem lá um texto bonitinho sobre o Jim Jarmusch e uma HQ de 16 páginas, bravamente ilustrada pelo Francis Ortolan.

Abaixo, as duas primeiras páginas dela.

Página 1, arte de Francis Ortolan
Página 1, arte de Francis Ortolan
Página 2, arte de Francis Ortolan

Página 2, arte de Francis Ortolan

 

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Carta aberta a Lielson Zeni

queridão, queridão

recebo triste suas últimas palavras, amigo. sei que a coisa nos últimos tempos parece esquisita (ou melhor, TÁ esquisita), mas tu não pode se abater. mas o que a gente pode fazer, não é?

(tô até vendo aqui que sua azia pode atacar hoje, cuidado na alimentação!).

a leveza é uma qualidade (lembra do Calvino e suas propostas pra esse milênio?) e não há que se pesar com os heróis se mostrando humanos. como bem disse a Van, vivemos a ferreira goullartização da MPB. é triste, mas vale uma piada.

o ciclo de Vico fala da época dos deuses, seguida da época dos heróis, estamos na época dos humanos. a seguir o eterno retorno.

realmente, é decepcionante ver Caetano, Gil e Chico,  as vozes antes caladas que agora exigem silêncio. é triste mesmo. bem mais triste que o Corinthians que não faz gol.

sabe que eu ia adorar só me preocupar se o Corinthians corre risco de cair ou não? estudar a tabela do campeonato, fazer contas.

mas falemos de coisas boas! soube que terminou mais uma versão do longa-metragem, parabéns. ainda há trabalho pela frente, mas tá indo, né? grande ideia do Aristeu falar desse tema bem nessa época, né?

aliás, você viu o que aconteceu dia 15? prenderam um monte de gente no RJ alegando vaguezas como “dano a patrimônio”, “corrupção de menor”, “formação de quadrilha”. tinha um povo preso todo por formação de quadrilha. só isso. que quadrilha boazinha que não comete crime, né?

mas, claro voltemos ao que importa. viu que a Visual Editions tem livro novo? coisa linda!

tu percebeu uma coisa? Chico-Caê-Gil gritam pelo direito de calar e calam pelo direito de gritar. nem uma puta linha sobre a situação dos professores no Rio de Janeiro. nada! soube que deram um tiro num homem? não se sabe quem foi, mas a PM tentou “recuperar a bala” antes de qualquer coisa. estranho!

voltando ao foco: ainda pensa em chamar aquele livro de Cadê Amarildo? não acho que seja aproveitar de nada, mesmo que não tenha nada a ver com o pobre homem que sumiu. na verdade, tu viu que até o Jornal Nacional aceita a ideia da morte do Amarildo em uma sessão de tortura? parece que foi uma coisa meio Vlado: “forçamos a mão, galera. o cara morreu.”

sabe, também ando meio triste com isso tudo. fico perturbado mesmo. ontem quando vi na TV aquelas prisões arbitrárias, a tentativa de vilanizar os professores, me (te) fez perder a fome. não tô conseguindo dar conta. hoje de manhã vi o Racionais MCs retwitando o Procure Saber.

não sei se é exagero, mas quando resolvi escrever essa carta, eu pensei: vou escrever aqui porque eu posso. nesse momento, o que eu faço ainda não é chamado de corrupção de menores, formação de quadrilha, ataque à intimidade do trio da decepção Caetanoberto Buarque, não é considerado vandalismo. ainda podemos escrever num blog. que pouco que nos resta, não?

lá longe, depois das montanhas de estrume e atrás do gás ~moral~, aponta um estadinho totalitário, com pessoas aplaudindo quem atira e quem bate.

cara, me diz o que a gente pode fazer?

abraço esmaecido, Lz

PS – evite as redes sociais se não consegue lidar com tanta desgraça.

PS 2 – é nóis!

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Carta aberta a Cazuza

Caro Cazuza,

Sei que você tá bem morto, mas eu precisava recorrer a alguém e você foi o primeiro que me ocorreu. Como anda o Além-Vida?

Já que você é um morto, posso me permitir pular alguns preâmbulos e alguns fingimentos sociais, beleza? Por isso, não posso dizer que te achasse um grande cantor, mas servia. E também te achava um chato, tipo riquinho mimado enlouquecido com molho de beatnik. Calma, que o lance é assim: eu te achincalho agora e depois te elogio (é, né? preâmbulo social é coisa de vivo, desculpe). Continua lendo.

Tenho certeza que se convivesse contigo teria revisto minha posição pacifista e te socado na fuça. Até porque você era mais magro do que eu sou. Mas independente disso (ou seria apesar disso? Além disso?) suas letras e o que tinha pra dizer era sentido pra mim. Sentido no sentido (rá!) de que eu entendia aquilo.

Adoro coisas do tipo “disparo contra o sol, sou forte, sou por acaso”, ou “eu queria ter uma bomba, um flit paralisante qualquer, pra poder te negar no último instante”. Se eu quiser, fuçar a memória a internet eu acho mais (vou polvilhando pelo texto, tá? Pra não ficar chato – por mais que eu acho que você não ficaria constrangido).

Mas, bicho, preciso te falar: as coisas aqui tão muito loucas. O povo tá jogando futebol, tem choro, samba, rock e a coisa aqui tá feia. Bem feia. Tem personalidade símbolo da luta contra a ditadura chorando por uns mirreis de possível biografia deles. (cá entre nós, desculpe se é teu amigo, mas quem vai querer biografar o Djavan?).

Vamos pedir piedade, senhor, piedade, pra essa gente careta e covarde”.

Sabe o livro que tua mãe escreveu sobre você? Parece que a coisa caminha pro seguinte: se ela não quiser, ninguém mais pode contar tua história. Só vamos ter a visão dela. Num futuro longo e tórrido talvez eu não possa nem tornar pública essa carta pra você sem ter de remeter uns tostões pra alguém (então, vou aproveitar enquanto ainda posso falar alguma coisa).

Aí um cara que escrevia música com o Raul e depois quebrou o pau com ele virou o escritor brasileiro mais lido no mundo. É, o Paulo. Pode isso, cara? Então, ele queria que uns escritores convidados pra Frankfurt fossem amigos dele e não de quem escolheu a lista. Aí ele ficou puto e diz que não vai mais.

Nessa mesma Frankfurt, onde rola uma feira do livro e o Brasil é homenageado, na abertura, o Luis Ruffato, um escritor que acho que não é da sua época, levantou várias questões sobre nosso país. Aí vem gente dizer que ali não é lugar de falar essas coisas. Onde é, então? Trancadinho em casa? No protestródromo (nem vou te falar como a coisa tá lá no Rio)?

As coisas regrediram. Pessoas pedem menos liberdade, há cartilha de como protestar e tem escritor que acha que a literatura não é “lugar pra isso”. Se o Chico Buarque pode estampar decepção num dicionário, eu posso ilustrar decepcionado.

Cara, meus heróis não morreram de overdose (nem você, seu tratante). Meus heróis se mostraram uns merdas. Escritores que preferem o jogo da cena literária em vez do jogo da literatura; músicos que em vez de compor, lutam contra os direitos dos outros (os mesmos que avacalharam com o Simonal, legal lembrar). Escritor que se nega a falar da vida, músico que apoia censura prévia. Meus heróis são uma farsa.  Ideologia, eu tenho. Eu queria é que meus “heróis” e meus inimigos no poder também tivessem.

Ouça-me bem amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões à pó.

Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés.”

Abração,

Lielson

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