Monthly Archives: Julho 2013

A arte de sofrer

é lindo ver um time ser campeão nos pênaltis. e ser campeão nos pênaltis com bola na trave na prorrogação, com gol marcado aos 42 do segundo tempo. com atacante do Olimpia optando por escorregar em vez de empurrar pro gol e se abraçar com a taça. com um primeiro tempo em que parecia que tinha ido o boi com a corda. isso depois de uma semifinal decidida nos pênaltis também. e empatada aos 49 do segundo tempo. vinda de umas quartas de final em que formalizou sua vaga com um penalty defendido também depois dos 40 do segundo tempo. é lindo porque avacalha com a lógica. avacalha com mérito.

é lindo porque faz reluzir a mais bela essência do futebol: o acaso.

(sem falar que o grito “eu acredito” é uma coisa, hein?)

e tudo isso flui para o Atlético mineiro através de seu treinador, Cuca, aquele em desespero búdico.

não tenho forças pra me posicionar contra um homem que ama tanto o sofrimento (um metido a erudito usaria aqui ‘Werther dos Pampas’, mas deixa passar). cada bola perdida lhe dói como um dente que se vai boca abaixo, cada gol que o deixava perto do título era como um novo amor da vida.

no contexto brasileiro da viuvez do futebol-arte de domínio absoluto e numa época de futebol asséptico, ver um cara que se joga na lama e sabe aproveitar a carga negativa da vida é de encher de lágrimas. Cuca representa um futebol-difícil. jogado pra frente, que busca o gol, com variações táticas, mas que precisa sofrer. e não tem nada de fingir que vai tudo bem. na cara dele está lá, o brilho franco da dor.

o jogador que pode encontrar num Tite uma certa confiança tensa, em Cuca não tem um pai que dirá “está-tudo-bem-,-perdemos-a-vida-segue-etc”. ele não vai conseguir falar. ele vai abraçar o jogador e chorar junto. o jogador tem em Cuca um igual, não um superior.

ele não posa. é o ponto oposto de um falso modesto Luxemburgo que fugia de campo pra deixar seus jogadores comemorarem. Cuca sabe que não ganhou sozinho, mas sabe que teve importância. quando entrevistado, ele não posa, ele tenta se controlar, mas ele não é assim.

 

 

Cuca é um descontrolado, graças a Deus (ele ia preferir Nossa Senhora). seu descontrole é pacífico e necessário pruma sociedade que tende a estabilidade e a coxinharia gourmet.E foi nós, os “controlados”, quem lhe fizemos dano: tiramos a esperança de um ser humano, quando condenamos Cuca como aziago, com pena de ser sempre conhecido por sua capacidade tática e inteligência na montagem dos times e nunca ganhar nada.

não há saída lógica: você sempre vai perder no final, não importa o que faça antes. mas Cuca é um descontrolado. ele se magoa, fica triste, se desespera, e mataria seu professor de lógica para ser absolvido invocaria a mais legítima das defesas, a legítima. e Cucagenstein fez dessa Libertadores 2013 seu Tractatus Sofrelogicus (e o metido a erudito aparece aqui).

se eu acredito na beleza da falta de lógica do futebol (e eu acredito), eu só posso pedir perdão a Cuca e pensar que azarados são todos os outros que não sofreram tanto pra ganhar uma Libertadores.

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Kafkamente

quem nunca usou de um símile na vida pra se explicar?

“trabalhei que nem um imigrante andino escravizado em SP”

“você parece de vidro de tão frágil”

“minha vida é um livro aberto”

“carrego o mundo nas costas”.

uma pessoa acorda com uma miniatura do mundo nas costas. Outro personagem encontra um livro em que sua vida está toda escrita até o último dia. um menino pula da cadeira, bate a mão na mesa e vê seu braço trincar como vidro. e outro ainda se percebe como um personagem de ficção, obrigado a representar um boliviano num livro de um autor que detesta.

o querido e difícil Franz tinha dificuldade de lidar com os significados denotativos da linguagem (distúrbio identificado pela ‘patafísica como concretância). por isso humorizava e bizarizava tudo em alemão e assim criou A metamorfose, O artista da fome, O processo, O veredito, O Castelo e a lista segue.

é como se a realidade fosse tão cruel que até as palavras fossem incapazes de lhe aliviar e se tornaram somente um outro campo de batalha.

mas ele preferiu essa luta nas entrelinhas do que a vida na repartição, com o pai, com as noivas.

as lentes de Kafka não era de vidro, eram de letras.

Kafka usou sua palavra escrita pra mediar sua vida por aqui. por isso pediu que Max Brod destruísse seus textos ao morrer: ele não precisaria mais deles.

—-

hoje é aniversário de 130 anos do Kafka. aliás, não é, né? ele meio que morreu com 40 anos de idade.

fiz um mestrado que evolvia A metamorfose – se você pensar a enrolação que é um mestrado, todos as dissertações deviam ser sobre o Kafka numa espécie de homenagem torta.

(espero que a frase acima não soe como argumento de autoridade, autoridade tão temida por Franz)

dessa torteza, penso que seria uma verdadeira merda pro Franz ter sua obra ligada ao que odiou tanto, mas tanto, a ponto de fazer disso sua literatura: a maldita falta de noção engessada de um sistema desfuncional.

sim, caras, não é de burocracia que a literatura de K. fala. burocracia é mera organização e sistematização de algum processo, e também sua face mais aparente.

o problema é quando o sistema só serve pelo sistema. leis a serem acatadas porque está na lei. papéis a assinar porque um carimbo espera isso.

leiam o tcheco lá e vejam se não é isso. se não for, me desculpem.

e perdoem Kafka.

ele não é culpado das imobiliárias serem tão kafquianas.

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