Monthly Archives: Junho 2013

Eu morri um pouquinho ontem

desde ontem, eu não consigo ficar em paz.

dentro de mim uma PM paulistana massacra minha mansidão e lança bombas de feito moral que fazem meus pensamentos se dispersarem. por isso o texto, qual manifestante perseguido, escorre pela rua que não tiver bloqueada e se desarticula pra poder se reerguer e ir de novo outro dia. chega de metáforas cafonas.

em casa, ontem eu sentia que devia estra lá, no meio do povo, gritando por aquilo que acredito. isso começou a corroer e continua aqui, corroendinho. e só não fui pela mais singela covardia: medo de apanhar, de ser preso, de tomar um tiro. pois com a polícia de SP você não precisa fazer nada errado, basta que eles não gostem de você. pensei que eu seria uma vergonha viking e sofreria bullying. e que seria tratado como um personagem de terceiro escalão da Ilíada.

os homens de cinza e preto.

a fumaça era branca, os hematomas roxos, a PM cinza com coletinho verde limão, o sangue vocês sabem como é. da mesma cor das flores que uns manifestantes tentarem entregar a PM e eles não aceitaram. a flor negada e a náusea da fumaça.

a polícia armou uma ratoeira com os manifestantes: conduziu-os à Consolação e os cercou por todos lados com tiros, bombas e botinadas.

os homens de preto e cinza com o escudo em riste.

São Paulo não consegue falar de outra coisa, não consegue pensar em outra coisa. nem eu.

o solo do nosso país parece adubado e pronto pra germinar uma nova ditadura.

tem gente que achou legal a ação policial e chamou manifestante de vagabundo, com o clássico vai trabalhar. se você é desses, o que está fazendo aqui ainda?

os homens de preto e cinza com o escudo em riste e em linha.

pessoas ajoelhadas recebem tiros, me lembrou Saigon. Grupos de 5 ou 6 espancam pessoas caídas, me lembrou Laranja Mecânica. pessoas tomam tiro na cara, me lembrou a página policial dos grandes jornais. mas vai sair no Cotidiano ou Cidade.

eu ainda tremo e meu estômago tá esquisito. e eu nem fui lá. eu só respiro o ar poluído por uma pimenta moída de indignação, incapacidade, revolta e brutalidade.

decepção plena com o omisso prefeito do partido de esquerda – tenho certeza que não foi pra isso que as pessoas votaram nele. ele me fez lembrar do padre Vieira e de um lindo sermão sobre os pecados de ação (Geraldo Alckmin) e dos pecados de omissão (Fernando Haddad).

os homens de preto e cinza com o escudo em riste e em linha marcham.

às vezes eu acho que se os franceses fossem os paulistanos, hoje eles seriam regidos pelo Luis LXIII. penso na ideia utópica do passe livre e que já foi utópico o voto feminino, o fim da escravidão, a queda da monarquia, a alfabetização universal, o fim das jornadas de trabalho de 18 horas, o casamento igualitário. nem tudo isso já se conseguiu de modo pleno, mas nada mais disso é chamado de utópico.

“só estava cumprindo ordens” – os manifestantes também, só que ordens estabelecidas por eles mesmos. os únicos desobedientes era aqueles que nem eu, que queriam, mas refugaram.

eu entendo que foi a PM que começou a pancadaria na quinta. eu não entendo a razão. a de que era pra manter a ordem não cola, visto todos os tiros dados pelas própria polícia a esmo causaram pânico em todas as pessoas ali por perto. a de que era pra não interromper o trânsito na Avenida Paulista, bem

quando ninguém falava, reclamavam de uma geração sem voz. quando passou a se falar em fóruns e redes sociais reclamou da geração do sofá. quando se foi às ruas, reclamou-se do barulho. admite, você só quer reclamar daquilo que não te põe em risco, né?

os homens de preto e cinza com o escudo em riste e em linha marcham pela Avenida Paulista. não há ninguém só os homens truculentos, um tanque e alguns cavalos. o povo não está lá. o povo corre. eles aravam a terra praquele plantio que falei lá em cima.

perdi muita fé, desanimei forte. eu morri um pouquinho ontem.

segunda-feira, eu vou.

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Primavera Sound – dia 2

para o segundo dia de espetáculos, demos uma de espertinhos: caminhar pouco e ainda tirar uma sonequinha no hostel antes de encarar os desafios musicais do Primavera Sound do dia do BLUR.

é claro que o clichê virou contra o clichezeiro: dormimos por demais e perdemos o Kurt Vile & The Violators (raios!) e indo pra lá entendemos que tínhamos perdido, há 2 horas, o Mulatu Astatke (o cara que está na trilha do Flores Partidas) (raios duplos!!).

chegamos a tempo do Daniel Johnston, só que não (raios triplos!!!). o cara tocou em um teatro que pedia retirada de ingresso e é ÓBVIO que não tinha mais no em cima da hora que chegamos (raios múltiplos!!!!!!).

malzaê, Dani

frustrados, fomos encher a cara com um SENSACIONAL pacote de churros a 3 merkels (descobriríamos depois um lugar fora do principado do PS em que as guloseimas podiam ser abatidas por amorosos 1,20 merkel). conduzimos o pacote de churros pro único palco com arquibancada que fortuitamente tinha uma banda a começar a tocar: os portugueses do PAUS.

PAUS, de Lx

o show foi beeeeem legal. não é todo dia que se vê uma banda de Lisboa com DOIS bateristas. parecia que a Nação Zumbi criou uma filial lusitana. ficamos satisfeitinhos com o acaso e fomos pra primeira grande emoção do PS: ver o Breeders tocando o Last Splash!

além de ser uma banda que conheço bem, tocando um disco que gosto muito, o Breeders foi o primeiro show internacional que eu vi na vida, lá em Curitiba. lembro de ter deixado de comer vários lanches pra economizar pro ingresso. BONS TEMPOS!

Breeders, foto de Deep Beep

no ponto de vista emocional, as Deals mandaram um lindo show. a banda tocou aquilo que sabia e foi bem legal, menos pelo som. sim, quando você pensar que só no Brasil o som fica uma merda, repense. quase todas as músicas tinham pequenos cortes, que não vassouravam as canções, mas empatavam a foda.

satisfeitos e um tico putos, fomos para o Jesus & Mary Chain, mas não sem antes dar uma olhada no Jozef Van Wissem & Jim Jarmusch X Sqürl (sim, aquele Jarmusch mesmo).

não tinha ninguém por lá e aposto que o próprio Jim preferia ver o J&MC, mas foi legal chegar o mais perto que eu provavelmente vou conseguir chegar de um dos cineastas norte-americanos que mais curto. sem falar que era certa compensação por perder o show do Mulatu.

o som é bem aquilo que você acha que o Jarmusch deve fazer e isso é bom.

depois, não teve mais jeito: encarar os tiozão do noize.

Jesus & Mary Chain + My Bloody Valentine = Just Like Honey (foto do Popload)

putz, foi massa, mas duas coisas pegaram (uma é culpa minha e a outra meio que também): eu conheço muito pouco Jesus & Mary Chain e estava bem ansioso pra ver o Blur (sim, sou putinha).

quando a moça do MBV entrou no palco, mal sabia eu que seria a única vez que ouviria a voz dela, mas falo disso na próxima postagem. esse foi um momento indie por excelência e Just Like Honey  é importante pra mim desde Encontros e Desencontros (da Sofia Coppola que já teve barra tem rolo barra casamento com o cara do Phoenix), fechando uns círculos meio MÍSTICOS aí.

mas o FACTO é que o show deles não comoveu, embora não possa ser ripado de modo algum. me parece que os fãs piraram com força, mas pode ser só impressão, já que eles piravam em outros idiomas.

nos vai e vem de nossos quadris pelo Parc del Fòrum, voltamos ao palco lááááááá do outro lado pra ver o menino James Blake. Aliás, esse Overgrown dele é um xuxuzinho.

James Blake, foto de Eduardo Magalhães para Noize

sentamos naquele mesmo gramadão do Dinosaur Jr e nos demos conta que seria a segunda vez que veríamos o Blake. porém, se da primeira vez estávamos destruídos pelo narcotizante show do Mogwai (Sónar SP 2012), dessa vez estávamos clinicamente ansiosos pelo show do Blur, o estalo primeiro de nossa ida ao festival.

não teve jeito, abandonamos o piá cujos irmã e irmã não lhe falam (mas ele não os culpa) e fomos angariar um lugar mais perto do palco do Blur. não sei se foi o corrosivo sentimento ansioso, mas fiquei com a impressão que o disco novo de Blake é mais pra se ouvir no foninho, de buena, do que show pras massas.

chegamos o mais perto possível do palco de modo a nos garantir ainda alguma elegância espacial. a organização surpreendeu com um showzinho curto do Wedding Present, banda de que nunca tinha ouvido falar e precisei dar uma pesquisada com força pra descobrir quem eram os “caras que tocaram na área VIP antes do Blur”. mas foi massa.

a expectativa crescia e conseguimos ficar perto do MAIOR FÃ DO BLUR DO MUNDO (não tenho dúvidas disso). o escandinavo pulou o tempo todo, cantou todas e bradou os braços com força.

Blur, fodendo com tudo (foto da UOL)

os Blur entraram arregaçando: sem medo de queimar hit, porque eles têm vários, saíram aloprando com Boys & Girls. uma avalanche de hits separa esse começo do final da apresentação. foi muito do caraleo. é daqueles shows que eu conhecia TODAS as músicas de VERDADE e tinha lembranças de momentos com algumas delas.

como todo show bom pra caralho faltou tocar aquela. pra mim, foi You’re so great, mas eu meio que sabia que não ia rolar (bem diferente do Mercury Rev não tocar Godess on a highway em Curitiba – canalhas!).

depois de pular pra caralho e gritar com força, capitaneado pelo MAIOR FÃ DO MUNDO DO BLUR, até tentamos ver o The Knife, mas faltou-nos austeridade física.

pegamos o ônibus noturno e dessa vez não nos perdemos (é, esqueci de falar disso: eu ERREI o ponto de descida e paramos lá no cuelo de la cobra no dia anterior. nada que 5,60 merkels de táxi não resolveu).

esgotadíssimos, chegamos ao hostel só pensando: “And you’ve been so busy lately that you haven’t found the time/To open up your mind/And watch the world spinning gently out of time”

ou: que show do caralho (terceiro melhor do festival, segundo o DataZeni; o segundo melhor pra Van).

a seguir: as últimas apresentações!

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Primavera Sound 2013 – Barcelona – dia 1 (continua)

Os caras da organização recomendaram, mas nós não demos bola: “cheguem mais cedo pra trocar as entradas pelas pulseirinhas”.

Savages, em foto da UOL (nenhuma foto que eu tirei prestou : ()

pegamos uma fila pantagruélica, porém sem classe média sofrendo. a fila andou rapidamente se comparada com sua pantagruelice. porém, quando chegamos, as Savages já tocavam há 15 minutos. e como queríamos muito ver o Tame Impala, saímos antes do fim deste show pra ver os australianos psicodélicos.

a impressão das 4 músicas que ouvimos do Savages foi boa. foi pra lista de “ver um dia direito”.

o Tame Impala foi tão massa quanto queríamos, inclusive com o vocalista descalço (Bicho-grilo?) (aliás, faltou um gramadão pra sentar e uns animais coloridos pra correrem por ali, mas não se pode ter tudo na vida).

nunca tínhamos ido um show na gringolândia antes e até esse momento as coisas sobre organização, qualidade do som e respeito dos funcionários faziam muito sentido e tudo no Brasil parecia ser pior. e também era a primeira vez que pegávamos um festival de corre-corre pra chegar num palco a tempo. é legal, mas é uma merda. não tem que esperar muito pra ver as bandas em ação, por outro lado, causa uma neurose de compromisso e perda de parte de alguns shows.

do ponto de vista da base da pirâmide de Maslow, em Barcelona, se fosse feita a conversão de merkels pra dilmas, os preços de comida eram os mesmos dos festivais brasileiros. ou seja, aqui é caro bagaraio. lá o que era preço de puteiro era a cerveja: 11 merkels por 1 copo de 1 litro. e era Heineken (nada contra, mas heineken eu tomo em qualquer boteco daqui ou de lá).

Tame Impala, foto da Noize

voltando ao Tame Impala, os caras mandaram todas aquelas músicas que você queria ouvir dos discos deles. aquele som hipnótico com o crepúsculo vindo (anoitece lá pelas 21h30 nessa época) me deram a impressão que todo o Tame Impala é uma música só, mas não no mal sentido da coisa. belo show, que trouxe o arrependimento de não ter ido ver os caras no Cine Joia aqui em São Paulo.

em seguida fomos ao Dinosaur Jr.

Dinosaur Jr, foto do Deep Beep

a melhor definição em português pro show dos caras é vaitomarnocuputamerdaquetesãopacaraleo.

ou algo por aí. sentamos lá no fundo no gramadão pra ver qualé. eu saí transtornado. e transformado.

(explico: nunca curti o Dinosaur Jr antes. uma vez me emprestaram 3 discos pra ouvir: Galaxie 500, Dinosaur Jr e Dashboard Confessional – me tornei fã do Galaxie, odiei muito o Dashboard e não curti o Dinosaur Jr, mas me sentia envergonhado em dizer isso. não sei o porquê. mas sentia. passei anos tentando escutar os caras, vez por outra, sem aquilo fazer muito sentido das orelhas pra dentro, mas com algo a me dizer “aguarde e verá a verdade”. e a verdade veio a mim em forma de um show PODEROSO. foi quase nível Mogwai. as distorções, os barulhos, os cabelos brancos balançando, de repente, tudo aquilo encaixou e meu mundo ganhou Dinosaur Jr. obrigado, caras.)

acho difícil falar sobre um show que te toca fundo (ui!). é pra estar lá e ouvir.

meio extasiado, nos entregamos aos prazeres da vodca Finlandia. afinal, primavera de cu é rola.

(dizem os jornalistas que foi a PRIMEIRA VEZ que fez frio no PS de Barcelona – valeu roteirista da minha vida).

em seguida, uma tortuosa escolha: Bob Mould, The Bots, Postal Service ou Deehunter se acotovelando no mesmo horário. fomos no último.

não conhecíamos, mas liberamos os indies dentro de nós e fomos naquele espírito desbravador de bandas.

(eu sei que os caras já estão por aí faz um tempão, mas eu nunca tinha ouvido)

Deerhunter, foto da UOL (quase joguei um sanduíche que tinha na mochila pra ele)

a apresentação foi ótima. mais uma banda que reforça o retorno aos anos 1980 de modo saudável (tipo as Savages). o cara MAIS MAGRO DO MUNDO e vocalista da banda, Bradford Cox, entrou de vestido e maquiado, já angariando alguns pontos por bizarria.

depois desse pegamos a última pontinha da última música do The Bots e fomos de volta ao gramadão, esperar o Grizzly Bear.

estávamos SANGUE DOCE (como diria meu pai) com esse show, porque tínhamos visto eles tocarem poucos meses antes aqui em SP. aí o frio da Primavera (sic) agiu com mão pesada. corremos do gramado pralgum lugar menos ventoso no meio do show e fomos lá pro palco do Phoenix – que era láááá do outro lado.

Phoenix, foto de Paula Rúpolo, para o Música Pavê

tô aqui pensando quando coloco pra baixar o Animal Collective se eu posso falar mal do show do Phoenix.

assim, não foi ruim, mas foi maquiadão. tipo te prometem Fanta e te dão Q-suco. me lembrou o show do Killers que vi em Curitiba. muy animadão, vocalista que corre, pra lá e pra cá, telão que explode em cores, mas tudo tão ensaiado, tão planejadinho (“na música 4 eu corro pra direita e pulo”) que me lembrou uma versão indie do Iron Maiden.

claro, os fãs piraram e tal e eu tava ainda na ressaca do Dino Piá, mas o Fênix não entrou no coraçãozinho, diferente das Selvagens ou do Urso Pardacento.

queríamos muito ver o Animal Collective (outra banda que desconheço por completo), mas as duplas frio e eu de bermuda, 6 horas de show e visita ao museu do Tapiés nos bandaram pro ônibus noturno, que parava lá do ladinho do Hostel. aliás, que coisa linda ônibus noturnos a cada 20 minutos, hein?

meio que isso fechou o primeiro dia. e ainda tinha mais dois.

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