Monthly Archives: Abril 2013

Carta para Lena Dunham

querida Lena Dunham,

tudo bem? eu sei que essa coisa de mandar carta é um pouco antiquado e tal, e pelo que eu vi no Girls seus personagens são bem mais modernos e tudo, mas convenhamos: estou escrevendo em português e num blog. isso nunca chegará a você mesmo.

eu poderia até chamar este texto de muitas outras coisas, mas gosto de “carta” (era pra ser carta aberta, mas achei deveras pomposo – tipo a pompa de “deveras”, “carta aberta”, essas coisas).

assisti toda a primeira temporada de sua série. apesar de muita gente que eu gosto e respeito ter odiado, consigo assumir publicamente que eu gostei do que vi. dentre um monte de cenas e elementos, acho justo ao seu ego (e à minha justificativa) citar ao menos as primeiras lembranças que tenho.

gosto muito de a personagem principal ser você e de que ela tenha o seu padrão de beleza. se a Hannah fosse uma magrela de cabelo escorrido, com ancas suntuosas e peitos enormes, o seriado perderia demais. cavocar esse espaço pra outros formatos de corpos é lindo, é certo, é assim que tem de ser.

sem falar que é muito corajoso você se mostrar nua tantas vezes sem ter todos os atributos típicos de borracharia (evito dizer o que acho de suas tatuagens pra que esses comentários não ganhem o peso irônico que não devem ter).

gosto da demarcação de espaço da série: não somos o Sex & The City. 3 amigas seguindo um pouco padrão da série da Carrie, mas com muito mais atitude (a saber: a criativa protagonista com graves problemas, mas que é massa; a patricinha recatada com problemas de relacionamento e com restrições sexuais, e a porra-louca que tenta encobrir sua solidão com ideia de espírito livre). juntam-se a elas uma personagem alucinada e típica de humor, Shoshana, que poderia por toda a série a perder pela falta de realismo, mas funciona. Shosh alivia a seriedade de Girls, além de ser a deslumbrada com Sex & The City, pondo as cartas na mesa (muito boa essa, Lena) (ah, quase me esqueço da cena do crack, que é genial).

adoro a trilha sonora da série. o tipo indie medzzo dançante, medzzo mimimi é meu tipo de som. bate aqui, lena o/

voltando ao papo “estudos culturais“, acho que você concorda comigo que nossa sociedade continua puta machista e, por isso, é demais ver meninas no poder, mulheres tomando atitudes, jogar ao público moças enfrentando o mundo. juntando isso com a pegada realista da série, temos mais um ponto pra você e sua obra, Lena.

acho que os coadjuvantes vão bem, principalmente o Adam que é tão esquisito quanto a Hannah (acho isso bom, meu sonho é ser cada vez mais esquisito). e eu adoraria ter pensando na cena do muro cheios de cartazes de ‘sorry’.

e, é claro, todo mundo já falou, mas sua percepção sobre essa geração que fazemos parte, de quase 30 anos sem nenhum respaldo financeiro, poucas oportunidades, uns desesperados por carreira profissional mesmo sem nunca ter tido uma, interconectados, solitários e tal (vou chamar essa galera de “fodidos”, ok?). tua série chegou na hora certa falando desses fodidos, centrando o foco nelas, nas fodidas. sensacional!

(agora, Lena, você até imagina, né? é o momento do maldito mas. ah, essa adversativa canina que tanto barra um vendaval de elogios e se abre às críticas.)

Lena, xuxu, algo aconteceu na segunda temporada de Girls. tenho cá meus palpites, e tenho certeza (visto que não lerá) que não se importa que eu PALPITE.

claro, a pressão depois da visibilidade e do sucesso da primeira temporada deve ter sido foda e tudo, mas a segunda começa mal. você se esqueceu dum lance essencial pra Hannah: a fodidice. sim, ela não ter mais dinheiro dos pais e nem conseguir se segurar em empregos e se desesperar pra pagar contas enquanto tenta escrever, isso dava o tom da série. se ela está tranquila com isso e começa a arranjar trabalhos como escritora, o interesse começa a baixar.

essa personagem precisa estar em conflito permanente, ela tem de ganhar e perder e ir em frente (ou pro lado ou atrás). mas não, ela está lá, sussa. seu único problema são os namorados (ou peguetes), que não duram mais que um episódio. ou seja, não são problemas duradouros.

acho que Girls teve uma perda considerável quando o Adam se afastou. existe uma reação boa entre Hannah e ele e isso se perdeu.

outro ponto: no segundo episódio da segunda temporada (2×02) já fedia a algo podre. por deus, Lena, o que é aquela cena da Jessa e da Hannah num piquenique no meio da tarde, bebendo vinho e brincando com filhotinhos? sim, é isso mesmo: cheiro de Sex & The City!

não fique chateada. lembre-se, você nem leu isto mesmo! e por isso vou continuar a reclamar mais um pouco.

a amiga patricinha Marnie não evoluiu, e continua naquela aporrinhação de pega e volta com o ex, embora a perda de emprego tenha posto ela numa situação interessante. assim como aconteceu com Jessa e o fim do seu casamento. Aliás, Lena, que cena aquela do final do episódio 2×04, hein? ali tá um recurso muito bom da série, quebrar o drama com o grotesco. você faz isso dum jeito que funciona bem demais. e a Shoshana também está virando uma personagem mais séria, que me parece ruim.

Lena, eu tentei evitar, mas eu não consigo. o motivo dessa carta é o episódio 2×05. eu tentei colocar tudo de modo muito racional até aqui, mas estamos perto do ponto em que eu perco o controle.

Migona, o quinto episódio da segunda temporada de Girls é o PIOR EPISÓDIO DE QUALQUER SÉRIE QUE EU JÁ TENHA VISTO (e eu assisti Sex & The City e Chaves). a coisa é tão tenebrosa que valeria usar em aulas num exemplo negativo do que deve ser feito (desculpa a sinceridade).

o realismo que é o tom da série é traído e a coisa vira um conto de fadas da menina pobre encontrando seu príncipe encantado. Lena, que é isso? até tu caindo nesse papinho Disney way of life? você até é carregada nos braços dele depois de desmaiar.

o príncipe em questão é um 40ão, médico (capaz de faltar ao trabalho pra passar o dia trepando com a primeira estranha que lhe bateu à porta), cara quadrada, separado. ah, sim e clichê.

o conflito desencadeador de toda a ação é ridículo. o vizinho gatão que está incomodado com sacos de lixo a mais na sua lata, porque (coisa que ele não sabe no começo do episódio) a Hannah perdeu a chave da lixeira e aí espalha o lixo em latas alheia pela vizinhança. sério, é isso mesmo? parece trama de filme pornô em que qualquer coisa vira desculpa pra sexo.

aqui chegamos num outro problema: porque todos os caras que a Hannah pega são lindos, de corpos malhados? nenhum gordinho, nenhum magrelo. por um lado há o enaltecimento da diversidade de corpos, por outro não (não nego, entretanto, que o corpo feminino é muito mais reprimido e se se deve escolher, a escolha certa foi feita – porém, você não precisava escolher).

eu preciso te confessar, Lena: estava assustado e irritado com essa trama capenga (tanto, que já torcia pra você acordar ou algo do gênero, pois esse clichê seria um alívio perto do que estava na tela) e então me dei conta de que no episódio TUDO é falado, na melhor tradição da novela global brasileira: Hannah está triste e se sentindo só e ela diz que está triste e se sente só; Hannah está confusa, ela diz que está confusa. Lena, o que aconteceu com você? nem nos piores momentos da série, o roteiro esteve tão amador e ruim, a ponto de um amador perceber.

reveja o episódio. repense. não faça mais isso com seus expectadores e com você mesma. eu nunca esperei a profundidade de Tony Soprano, o humor de Seinfeld ou os múltiplos enredos de Madmen em Girls, mas também não esperava ver um Malhação cool que se passa no Brooklyn e legendado.

Lena, não sei se voltarei um dia pra série, o trauma foi intenso. acho melhor que cada um de nós siga seu próprio caminho agora. tenho certeza que você não vai sentir falta deste expectador aqui. se um dia desistir de fazer um Sex & The City sujinho mas arejado, me avisa. vou ter prazer em ver.

Um abraço

Lielson

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SP é assim

“fique tranks, quem iria acordar cedo no sábado de manhã pra chegar na biblioteca Mário do Andrade as 10h e ouvir o senhor Paulo Bezerra falar sobre Crime e Castigo, detalhando lances de tradução entre russo e português por duas horas (isto aqui, ó)?”

foi assim que eu e mais sei-lá-quantos chegaram bem depois dos 175 lugares do auditório se esgotarem as 9h.

na próxima vez, chego as 7. ou fico em casa dormindo mesmo.

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Lendo Crime e Castigo

Página de uma adaptação de Crime e Castigo com o universo do Batman, por Robert Sikoryak

não, esse título não é pra soar como um anglicismo sintático (saca aquela frase que tá com cara de frase do inglês vestida de vocabulário em português?). atravesso a leitura de Crime e Castigo, é um processo ainda em ação (se você estiver lendo isso em junho ou depois é bem provável que já seja um ato concluído – mas era (é) real quando escrevi (agora)).

penso aqui no livrão do Dostoievski e na minha mãe.

já tinha começado a ler o livro antes, mas a tradução via francesa que eu encarava não tinha nenhuma das características de linguagem de que eu lia sobre (aqui sim um anglicismo sintático digno de um beijo estalado e um tapa na bundinha) quando pesquisava.

além desses beijos (termo propício pra hoje) de balada em versão baguete, li muitos textos que comentaram o livro, afinal, Crime e Castigo é clássico (e vice-versa). portanto, alguns detalhes do enredo me eram familiares.

quando resolvi que queria mais que uns beijos inconsequentes com a obra, me envolvi numa relação intensa com a tradução do russo.

mas, mesmo com toda a intensidade dos beijos polpudos, eu sabia (ou voltei a saber) durante a leitura qual o momento em que Raskólnikov cometeria o Crime do título, que o levará para o tal do Castigo.

eu leio muito no metrô. voltava pra casa depois do trabalho e o momento da machadada se anunciava.

eu desci do metrô, subi as escadas e caminhava enquanto lia (tá, eu faço isso normalmente, mas ali eu era obrigado a fazer isso – tão obrigado quanto Raskólnikov ao crime) e MESMO SABENDO O QUE VINHA, COMO O CRIME IA ACONTECER, eu não conseguia parar de ler (pensei que se a literatura tem uma razão de existir, é a de manter as pessoas lendo).

eu, repito, SABIA o que ia acontecer, mas sei lá, tinha uma esperança de ter sido enganado por todos os textos, numa espécie de trollada maior da humanidade, ou de que a memória me traía, ou de que a tradução mudasse os fatos, ou que ainda o Dostoievski do além tivesse feito uma versão popup do livro e mudado aquilo.

e aconteceu exatamente aquilo que eu sabia que ia acontecer. e eu me espantei como se não soubesse daquilo. a cena continua a me impressionar e vou lembrar dela até que o ato de lembrar deixe de fazer sentido pra mim.

no outro dia, minha mãe que nunca leu Crime e Castigo me ligou de manhã (ela só em liga  a noite em finais de semana – hábito, deixa ela – por isso, fiquei um pouco preocupado, ligar naquela hora podia ser notícia que eu não queria). uma moça,”…irmã de (alguém com quem eu brinquei uma vez numa festa de aniversário da vizinha em Francisco Beltrão quando tinha 6 anos), lembra? Então, ela morreu.” “puxa, mãe não lembro mesmo dela. morreu como?” “então, ela pulou do prédio…”

que nem Dostoievski nos leva prum passeio na cabeça do Raskólnikov, sentei num carrinho de choque e tentei trombar pelas ideias da minha mãe. por que ela me ligou?

Crime e Castigo de Osamu Tezuka

certamente, não  espera um suicídio meu (e nem eu!). ela não queria desligar o telefone e sim se manter a falar comigo. nos mantivemos na linha por quase 1 hora. imaginei que os 904 Km que nos separavam podiam colocar ela numa vontade de ouvir a voz do filho e ter certeza que tudo ia bem com ele (afinal, já ouvi dela durante férias longas em casa que era feliz em ir até o quarto e me encontrar por lá lendo gibi). via uma ligação de baixa fidelidade de celular, ela quem sabe passeava pelo meu quarto, enquanto eu construía como uma HQ esse passeio descabido pelas ideias dela, tudo enquanto falávamos de outras coisas no lugar de encarar as fragilidades de estar vivo.

uma janela a menos e se morre. uns anos a mais e se morre.

assim como ainda não acabei a leitura de Crime e Castigo, ainda não terminei de falar com minha mãe.

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Às vezes é preciso radicalizar

tudo ia mal, porque o dia começara esquisito. sempre que se precisa usar um pretérito mais que perfeito antes do Bom dia, Brasil ele sentia o arrepio. seu pelo levantado armava o roupão de seda chinesa.

ao sair do prédio, bateu com o carro em um ciclista que riscou todo o capô. o engarrafamento, sem dúvida alguma, tinha uma rolha. o celular, sem carga, parecia um saci moderno, rindo e lhe pregando a maior das peças: o isolamento.

chegou tarde no trabalho. à tarde.

o chefe, de canto, tossiu ríspido. podia imaginar o RH esfregando as mãos a lhe descontar horas e minutos de salário.

o chefe lhe mandou um email sem qualquer emoticon pedindo para que ele “maneirasse no uso das redes sociais”. tudo bem, a rede da firma estava sobrecarregada mesmo e ele não conseguia subir as fotos da galera na chopperia no finde.

descobriu que o dólar, que tinha baixado quando ele vendeu, subiu agora que ele comprava moeda para sua férias em Miami. aliás, os ingressos pros jogos do Heat na NBA se esgotaram e ele ficou sem.

dava pra sentir a tensão como uma mancha ao redor dele.

foi até a copa e o suco e a Club Social tinham acabado.

era um homem capaz de qualquer coisa.

pegou um resto de café frio, esquentou no micro-ondas e adicionou um saquinho de chá preto com canela.

às vezes, é preciso radicalizar.

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E nesse dia ela se foi

o metrô estava no horário de ensardinhamento. que não costuma perder o horário é o caloroso atulhamento de pessoas.

a porta se abriu diante da plataforma, mas entre ombros e braços levantados, um balão de fala pontiagudo, reservado a discussões planava por ali. uma senhora uniformizada e armada de grande bolsa (vale enfatizar GRANDE BOLSA) abria o mar avermelhado e suado a sua frente com benção de Deus e de seus ombros fortes.

o suor descia pela testa enrugada, pelas sobrancelhas cravadas e a empurrar os olhos pra baixo, a boca amarrada e insatisfeita, a mandíbula projetada. o suor estava congestionado na sobrancelha.

e o balão de discussão lá de trás, entre espirais, caveiras e hashtags, estourou sobre ela, que criou uma nova bolha, olhando por cima de seu o seu ombro e de muitos outros:

– ainda é muito cedo pra eu me estressar com você! cuida da sua vida!

o balão saiu sem pontas, mas com contorno espesso e em tipia grande. ela o deixou a  flutuar sobre os braços pendurados de trem e saiu. a acompanharam, por mero acaso, uma dezena de outros atrasados.

um jovem de mochila nas costas, cabelo de Hitler sobre a cabeça e trejeito de comédia ruim atacou o balão deixado como um desgosto com outro balão bastante espetado, de letras tremidas e grandes.

– vai, vai, vai! corre! sai desse mundo que aqui já tá cheio demais [talvez ele tenha usado “D+” — há imprecisão nos estudos dos hermeneutas sobre esse ponto]

a fala fez com que ela virasse o olhar para trás e visse, além do texto, o rapaz lhe dar as costas num protesto afetado. as portas do metrô fecharam e o comboio seguiu seu tique-taque. ela sorriu como quem entende, jogou a bolsa no chão como quem não se importa, abriu os braços ao lado do corpo como se na ginástica laboral e ficou ali sem mais comparações.

quando fechou os seus olhos e atraiu os olhares dos presentes na plataforma da Consolação, de miúdo, flutuou. mal se percebia no começo e parecia ser coisa de um mal-entendido, um mal-visto, mas ela flutuava acima. o teto da estação se abriu, a calçada deu licença e ela continuou a subir, sem importunar o trânsito.

acima, acima, acima até alcançar um bastão que imediatamente abriu em guarda-chuva e assim subiu elegante mais um pouco. quando fechou o guarda-chuva, desapareceu e ninguém mais estava lá.

o congestionamento chegava a 50 km e ainda era de manhã.

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