O menino que salta pra alcançar o galho da árvore

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esperava pra atravessar a rua hoje quando vi um menino.

era menino assim, vestido bem de criança.

eu ouvia Yo La Tengo e ele corria ma non troppo com uma lista e (vamos afirmar, mesmo sem certeza – vamos? nós quem?) uma nota de dinheiro na outra mão.

ele correu pela faixa de pedestres sem tocar nenhuma vez no asfalto negro, pondo os pés só na parte branca da zebra. já na praça, porção de concreto cercada por carros de todos os lados, combatia Dom Quixotes e lutava contra sua altura, pulando pra tocar galhos de árvores.

meio corria, meio saltava.

não conseguiu.

parecia faceiro.

eu atravessei a faixa, hipnotizado pelo rastro daqueles movimentos. enquanto ouvia loose no more time, cause it’s been fun e pisava em todas as faixas, numa proustada, quem corria lá era eu, a cidade era Francisco Beltrão, o sol era o mesmo, o jeito de correr era o mesmo e o entusiasmo com vida era o mesmo.

 eu já fui ele. ou melhor, ele já foi eu. e eu também não conseguia alcançar o galho alto que me daria o título mundial de salto em árvore.

só uma vez ou outra.

ele desapareceu em sua correria pra bater a lista, atender a mãe e voltar pra ver seus desenhos  na TV, enquanto escolhe as cores dos personagens que inventou ontem, esparramado no chão de madeira da sala.

atravesso a rua e, sem saltar, estapeio leve uma folha em um galho.

é uma pena que ele não tenha fones. e que eu não tivesse.

na última tentativa antes de sumir do dia, ele alcançou o galho.

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