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Uma cena roubada do mundo entre o trem e o ponto v. 1

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Em um pequeno condomínio de prédios iguais, um menino de boné e mochila  e um senhor de camisa branca abotoada, balançando as chaves, saem pelo portão para a calçada mal cuidada:

“…mas já tô me fodendo lá das 10 às 6, o que ma…”

“olha a boca! depois não sabe porque o supervisor pega no teu pé!”

“tá, tá… mas olha: tô lá diretão, todo dia das 10 às 6, no sábado, das 10 às 4… sério, quem trabalha no sábado até às 4?”

“Você tá com 16 anos. já devia tá ganhando mais…”

“porra, dou o cu lá o dia inteiro e no sábado. não tenho jeito de fazer mais… que foi?”

“Que que eu acabei de te falar?”

“.?.”

“Sobre o supervisor? Cuida essa boca, filho…”

“tá, tá… porra, mas que que eu podia fazer de diferente? não tenho como pegar outro trampo!”

“Acontece que você vai ter de abrir mão de algumas ‘ideias’ que você colocou na cabeça…”

“Como assim? Que ideias?”

“Com 16 anos, você já devia tá pegando uns 2600/ 2800, não esses milão aí.”

“Tá, tá, mas que eu tenho que fazer diferente pra ganhar mais?”

“Então: tem que pegar um emprego das 8 às 6, usar outras roupas, botar sapato, cortar esse cabelo…”

“Ah, também não fode, né? Pra quê? Até parece que ser boy de escritório vai me ajudar a ganhar mais…”

“Mas é assim, Kauê. se começa de baixo e quando vê já é gerente.”

“Pai, de boa, as coisas não são assim…”

“E eu, Kauê? Cheguei onde estou como? Não foiu dando o cu, não… foi trabalhando, ficando direto no escritório, até o chefe reconhecer o teu empenho, o teu talento. é assim que as coisas funcionam.”

“Mas pai, tu tá nessa há anos e nunca chegou lá em cima. Além do mais, eu edito vídeo. Gosto disso. Não quero carimbar papel num escritório…”

“Pelo menos é um trabalho de verdade. que mal há em ‘outorgar veracidade’ a documentos?”

“Mas pai, não quero um trabalho de verdade. Só quero, sei lá, ter um dinheiro, que você e a mãe não me encham o saco e ficar com a Jaque.”

“Encher o saco? estamos é preocupados com seu futuro. é preciso um emprego estável.”

“Pai, tudo é impermanência. por isso quero pegar a Jaque agora, porque depois, sei lá, vai que ela muda demais, começa a curtir um outro som, ler umas coisas erradas…”

“Para tudo! Você quer ficar com uma garota pelo tipo de música que ela ouve?”

“Ué, óbvio. Não dá pra pegar alguém que curte bosta universitária.”

“Tua mãe não gosta do rei ou do tremendão.”

“Mas agora a merda tá feita, né? Tem trocentas prestações do apê pra pagar, tem que dar jeito na infiltração na parede, filho pra estudar, essas coisas tudo aí.”

“Filho, você tá se ouvindo?”

“Tô pai, tu precisa sacar essa impermanência melhor. Eu te explico outro dia.”

Os dois entraram num carro seminovo com 31 prestações a pagar. O pai de Kauê ficou balançado pela certeza do IPTU e pela tal impermanência. Kauê lembrou de Jaque cantarolando Winter Wooskie.

 

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