Monthly Archives: Outubro 2012

O mar parecia um sátiro contente após o coit*

Eu e Osvaldo

Media_httpwwwdestaque_cjgwl

[da exposição do Museu da Lingua Portuguesa, em SP: Oswald: culpado de tudo!]

eu sempre gostei de Oswald de Andrade e nunca tinha lido.

gostava sem saber que ele existia.

aí um dia eu li aqueles poemas pau(brasil) pra toda obra, aquela demolição da frase feita e do clichê, aquele humor meio sem graça, uma desseriedade muito da importante. parecia que eu abraçava uma dose concentrada de de açaí com macaunaíma.

daí eu li o Memórias sentimentais de João Miramar. Aì eu li o Serafim Ponte Grande. Aí eu entendi que sempre gostei do Oswald e da sua dança sem rebolado com as palavras.

(há de se confessar que lembro NESTE instante que tive um contato enganoso com o Oswald de Andrade pela citação em um CD da Legião Urbana – como é difícil confessar Legião hoje em dia – que era do Serafim: “O Brasil é uma república federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus” – – descobri depois que a texto se completa com “depois todos morrem” e aquilo me pareceu aperta-coraçãosamente sério –. hoje eu penso que SP da época devia ser bem diferente da de hoje pro Oswald falar em árvore)

 

Ítaca com Serafim

com o aluno O. de Andrade eu soube qual o tipo de texto que eu gosto, que eu faço (cof!), que eu sou (cof, cof, cof!).

eu preciso ter muito cuidado pra não copiar o Oswald. a tentação é vergonhosa e poderosa.

e o lance com o Oswald é a sem-vergonhice.

mas e aí eu peguei pra reler o Serafim Ponte Grande (possivelmente alucinado pelo cinema de Sganzerla, que conversa tanto com a obra de Oswald, que é preciso mandar os dois embora de casa pra dormir) a diversão bate records a cada releitura, claro.

nessas, voltando de algum lugar, paro perto das máquinas pague quanto quiser de livros no metrô.

 

A história de como Lielson de Andrade encontra um livro e de que maneira isos o leva a postar em seu blog

Media_httpwwwlivrospe_vljtt

lá, estava ele ele: Pinto Calçudo ou Os últimos dias de Serafim Ponte Grande. eu descobri: José Ramos Góis Pinto Calçudo, expulso do romance por Serafim Ponte Grande, foi cumprir seu ostracismo numa máquina de livros. fez sentido demais!

convencido que se tratava de um ensaio sobre o Oswald, fiz o investimento em cash.

na leitura circular que sempre faço (orelhas, quarta capa, primeiro parágrafo, cinta/sobrecapa e índice – não nessa ordem) descobri que era uma obra de ficção de Sérgio Augusto Andrade.

que inveja, que desbunde, que delícia!

Sérgio faz um contralivro ao não-livro Serafim Ponte Grande, contando a história a partir da perspectiva do coadjuvante, Pinto Calçudo. as relações com a obra de Oswald estão muito além do óbvio, embora Augusto de Andrade (também queria ser de Andrade, parece que dá certo pra escritor) emule com maestria o humor oswaldiano.

o livro, como sua contraparte, é uma cesta de piquenique de gêneros literários, com alusões claras ao Ulysses de Joyce e a Mario de Andrade, por exemplo. e muita putaria, óbvio. pra tornar ainda mais agravante, essa pérola é o primeiro livro do Sérgio.

é um híbridão, que mistura ensaio, ficção, paródia, desrespeito e homenagem pra falar de Oswald. isso sim é entender do que se fala. se não sacanear, não tá certo. se for muito respeitoso, entendeu errado. se explicar demais, enche o saco.

 

Última frase em busca de um fecho imponente a um texto

não se digere antropofagicamente oswald, se rumina.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Simples consulta

Já conhece aquela do cara que foi no médico e daí tava lá na sala de espera e…

Media_httpimgcallpost_qlfdi

– senhor [_}?

– sim?

– pode entrar, o doutor ^~^ vai atender o senhor agora.

– obrigado.

The-passive-aggresive-door-holding-game

– bem, [_}, o que posso fazer por você? 

– tá.. é o seguinte, ^~^: estou com um probleminha…

– Doutor…

– ahn?

– Doutor, pode me chamar de Doutor ^~^.

– mas aposto que você não fez doutorado, né?

– a lei permite que eu use esse nome e eu gosto. por favor, me chame de DOUTOR…

– certo, estou com um desconforto nas costas.

– tá, exatamente, onde é esse desconforto,  [_}?

– Mestre…

– oi?

– me chame de mestre.

– porque eu deveria…

– é que ainda não terminei o doutorado, na real, acabei de entrar.

– isso é um pouco infantil,  [_}…

– MESTRE  [_}. somos duas crianças em acordo, então, doutor ^~^: a lei me permite isso e eu gosto.

– você acha mesmo necessário…

– com certeza acho.

– bem, “mestre”  [_}, onde é sua dor?

– à esquerda, abaixo da omoplata, “doutor” ^~^.

– não gostei das aspas…

– sabe que doutor DE-VERDADE é um grau maior que mestre, né?

– eu sou de verdade! e posso exigir que me chame de doutor, que vai parecer sempre melhor que mestre. vire-se, por favor.

– pensei uma coisa: era mestre dos magos ou doutor dos magos.

Media_httpuploadwikim_erryj

– sei que é Doutor Estranho, não mestre estranho.

– nunca quis ser mestre de RPG? porque doutor de RPG, só se for um clérigo apelão… e é webmaster, né? não webdoc. acho isso significtaivo. sem falar que um bom jogador pode ser um mestre da bola.

Media_httpapiningcomf_fqecd

– o sócrates era doutor…

– ele era. mas aposto que se pudesse escolher ia preferir ser mestre. no rap é MC, não DC. mais um ponto pra mim.

– ponto pra você,  [_}? O…

– MESTRE  [_}, por gentileza. Doutor Yoda ele não é…

Media_http3bpblogspot_bbyhg

– olha, isso tá ficando ridículo…

– ridículo é alguém que não sabe reconhecer o valor do mestre. o desrespeito e dessignificação da autoridade do mestre é um retrocesso na educação!

– Do que você tá falando?

– não me olhe assim, não confunda autoridade com autoritarismo. me empresta teu bloco de anotações doutor ^~^.

– tó. mas pra quê você…

– tô te receitando uma Hannah Arendt pra essa situação. vou também colocar um Foucault em gotas, mas só em caso de não melhorar da sua doutorite. pelas suas pupilas posso perceber algum grau de bom senso ainda…

– mestre [_}, não tô entendendo..

– leu o médico rural do Kafka? bem, vamos fazer assim: tome essa Arendt que receitei, exercite ensaios 2 x por semana e artigos científicos outra 3. eu volto a te visitar em uns 20 dias. acha que consegue dar conta?

– sim, eu… acho que consigo…

– grande, nos vemos em 15 dias. pode me escrever um email caso as coisas fiquem difíceis. aí eu receito uns comentadores pra facilitar a entrada, tá?

 [_} levantou-se e saiu. ^~^ passou os próximos dias ansiosos pelo retorno do mestre. ocupava seu tempo com aulas de alemão e filosofia.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized

Histórias que imaginei enquanto usava o transporte público de São Paulo # 3

(primeira versão)

OU A volta para casa de Ulisses

Media_http1bpblogspot_titfc

ela, vestida de blusa de onça e jeans, atravessou a plataforma de mãos dadas com ele, que estava de tênis, calça larga e camiseta estampada.

ela, com seu salto médio, pisa firme nos olhares que a acompanham até a ponta da plataforma, onde existirão as últimas portas do trem, daqui a poucos minutos. ele, mal olha para ela. segue firme, apressando seu passo curto para não atrasar o conjunto, com olhar firme, pra frente.

ela para ao lado da última coluna, onde o teto da estação deixa de ser e o coloca a frente dela. ela olha pra baixo, mas ele não olha pra cima. ele vê um rapaz bebendo água pra apagar com antecedência o calor da superlotação. e é a partir da água, que tanto já se falou em dicionários de símbolo, que lhe fluiu a palavra, pequena como ele, mas inteira:

– água! tem?

– quer água? acho que não t… ela interrompe o texto e o raciocínio. a busca por aquilo que ela sabe não ter ocupa toda sua vida dentro da bolsa: não, não está ali.

– água? ele insiste, sem acusar, só pedindo mesmo.

– não tem, filho. quer o mamá?

– não… ela passa a mão no cabelo dele e ele se senta.

– filho, não senta no chão que tá sujo, tá?

ele apoia as costas na pilastra, se equilibra e mantém-se de cócoras. quase levanta o pescoço até ela, mas prefere olhar paras as pernas que vem-e-vão.

– … isso, é, assim pode, filho… ela coloca os óculos escuros, confere o relógio da estação, olha pra o celular, o guarda na bolsa, mas não sabe que horas são. vê um espaço no banco a alguns metros. ele, já em pé, a ronda.

– senta lá, filho. eu te espero aqui.

puxado (ou empurrado), ele vai e trepa no banco. balança as pernas. e olha pra mãe pela primeira vez. fica pouco no banco, como se o impulso que o levou até lá fosse um empréstimo a ser devolvido. corre de volta e novamente ronda as pernas da mãe.

ela leva a mão nos cabelos deles, que não a impede, nem a incentiva.

– como foi na casa de seu pai?

– …

– ele fez bolo pro você?

– não…

– mas era seu aniversário, ele não… não tinha bolo?

– tinha bolo de chocolate.

confusa pela ilógica, mas divertida pela mesma razão, a mãe continua:

– bolo de chocolate é bom.

– é…

– tava gostoso?

– me dá o carro?

ela volta a cavocar a bolsa até tirar um pequeno brinquedo vermelho. em uma exploração cinematográfica, poderia se usar um ponto de câmera em contraplongée, valorizando a inundação solar, aproximando lentamente da mão da mãe, garantido o foco no objeto envelopado pela luz natural, faiscando de vermelho. mas não, isso não aconteceu.

ele pegou o brinquedo e fez os seus personagens (que ainda emprestarei um dia) dirigirem um veículo em alta velocidade nas paredes de um edifício gigantesco. tudo é possível aos heróis.

– ó! e mostra pra sua mãe uma epifania em plástico: além do milagre de dar vida a quem não existe, ele também é capaz de tirar as rodas do carrinho. admirada como aqueles que veem sua fé confirmada, sua mãe diz:

– puxa, mas ele não é feito pra isso. cuidado pra não quebrar, tá?

– tá… as rodas voltam ao seu lugar e toda a magia se converte em um trem que chega.

ela passa a mão na cabeça dele de novo, ajeita sua bolsa e o pega no colo.

– o bolo era pra festa, não era pra mim, ele diz perto das bochechas da mãe.

– ai, Ulisses… e ela ri como fazia tempo que não conseguia.

Mãe e filho entram no trem e se sentam. o trem parte e eles navegam, juntos. marinheiros.

Ulisses errará por 14 anos até encontrar sua esposa e livrar sua casa dos pretendentes.

Deixe um comentário

Filed under Uncategorized