Monthly Archives: Setembro 2012

Mais uma vez, na sala de cinema

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enquanto eu subia a escada rolante da estação consolação, eu praguejei contra a senhora, toda passeante, que não deixou a esquerda livre para os apressadinhos e atrasados. que não deixou a esquerda livre pra mim.

corri pelas calçadas augusta abaixo até chegar ao cinema, interrompi uma moça confusa, que queria comprar uns ingressos pra teatro e não sabia o que fazer, e peguei meu bilhete gratuito praquela sessão da mostra.

me apressei pela porta sem funcionário pra rasgar o ingresso, achei o meio da cortina preta, entrei, localizei a Van e me sentei.

entre dois ufas e goles d’água, desliguei o celular, e fui sugado imediatamente.

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eu saí daquela sala de cinema na rua Augusta, eu estava em um mundo de granulados, luzes e cores envelhecidas.

por 45 minutos, eu vivi dentro de Vestígio.

a singela e delicada história sobre os últimos fios de vida de Uno Kawase, avó que criou Naomi, a diretora do filme.

não há muito o que falar que não pareça piegas, por isso a Naomi fez um filme – que é emocional no melhor sentido da palavra. as imagens e a construção do filme é tão certeira que a avó/mãe de da Naomi se transforma.

Uno Kawase se torna a mãe de todos nós, que todos sabemos (sem querer pensar muito nisso) que enterraremos um dia. eu nunca estarei preparado pra isso que sei que vai acontecer. pra ver que saber e entender nem sempre se entendem.

é o caminho da vida que nos tornemos órfãos.

a beleza e a sutiliza dessa ameaça tão forte, cria uma rede frágil, que enrola todo o espectador. e o expectador se vê em Uno. é certeza da vida que assim que nossos pais morrem, que sejamos os próximos.

a dicotomia dessa vidinha curta e sempre mal-aproveitada com o final certo assustam, apavoram e comovem.

se há filmes que fazem a experiência de cinema valer a pena, esse é um deles.

quando Naomi encerra o filme (“muito obrigada”), sou arremessado de volta na cadeira no meio de uma sala escura. Vanessa e eu nos pegamos pela mão e saímos dali.

eu sei que algo intenso aconteceu em mim, mas não sei se um dia serei capaz de entender.

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Gibiteria e Quinto Mercado de Pulgas

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sexta-feira conversarei com Diego Gerlach, DW e Pedro Franz na Gibiteria, na praça Benedito Calixto. vai ter lançamento de Alvoroço, do Gerlach e do terceiro volume de Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo, do Pedro. o DW e eu vamos lá pra avacalhar, embora ele possa pelo menos falar sobre a HQ que está terminando.

sábado, às 11h30, estarei em uma mesa sobre quadrinhos infantis, no Mercado de Pulgas, com Cassius Medauar (JBC) e Paulo Maffia (Abril/Disney). o evento vai ser bem pertinho do metrô Vila Mariana.

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Encrenca, de Manoel Carlos Karam

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a literatura é notória em lembrar, é um exercício de memória e lembrança (tem diferença?).

talvez, por exigir tanto da memória, que o entorno literário seja tão bom em esquecer. ou talvez seja por isso que ele é bom em solapar, pra daí esquecer.

tive a sorte de ser um “vidaloka de estante de biblioteca” (como soa ridículo isso) e emprestar livros completamente na lôca – nessas li Jean Genet, Osman Lins, Campos de Carvalho e muito mais gente que esqueci.

fui numa dessas que eu li Pescoço ladeado de parafuso, de Manoel Carlos Karam. e como aquilo era insano, doentio, lindo e sei lá mais o quê.

lembra que falei de memória coisa e tal ali no começo? pois bem, esse é o momento de justapor as informações e gerar uma ideia, que é óbvia, não?

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[Manoel Carlos Karam, por Pedro Franz]

pra mim, Karam é um autor mal-tratado pela memória literária. ele não é negado, pois para ser negado é preciso ser visto, coisa que acontece pouco com ele.

Karam morreu em Curitiba em 2007. de lá pra cá, pouco se falou de sua obra.

(meu sonho é que uma editroa bem hype lançasse a obra do cara, pros putinhas de editora comprarem e descobrirem esse material – enfim, sonhos sem creme são de graça)

pois bem, sendo eu essa criatura karamzeada ia ver Fausto e por um “erro de agenda” precisei esperar 4 horas até o filme começar. fui e comprei um livro transportável o bastante pra atravessar esse tempo.

entrei na Martins fontes da Paulista e quase levei o Tu não te moves de ti, da Hilda Hilst, mas peguei pelo rabo d’olho o Encrenca do Karam. 

o livro, em primeira pessoa, é sobre um cara que anda por uma cidade imaginária de carro, imaginando-se perseguido por uma ambulância cheia de enfermeiras sinuosas, indo e voltando de um bar chamado About, onde bebe drinks que se chamam Bambu e Gerard. esse narrador, especialista em achar coisas, vive se perdendo em pensamentos.

mas o que acontece no livro?

quase nada. mas é um dos nadas mais divertidos e habilidosos que eu li. a manipulação de tempo e espaço que Karam lança nas páginas do livro é fantástica. só lendo pra entender (Aqui tem trecho do livro.)

uma prosa vergonhosamente original salpicada de muito humor e de muitas ideias. o texto do Karam não se parece com o grande romance (sul)americano da vez, nem com “a voz” de sua geração. as pretensões são outras, de outros formatos e tamanhos.

faz falta mais escritores desse tipo, de prosa alucinada, que alucinam seus leitores.

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