Monthly Archives: Julho 2012

Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Doze – Ciclope

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto IX da Odisseia, com o ciclope enchendo o caverão de vinho]

a história se passa num boteco, onde o Bloom vai para esperar a chegada de Cunningham. enquanto espera, é maltratado por algumas outras pessoas e principalmente por um personagem chamado Cidadão. e seu cão babento, claro.

gosto muitíssimo deste capítulo. o narrador é um personagem não identificado, que também está nessa mesa com o cidadão. aflora o preconceito contra estrangeiros e judeus conforme as bebidas são entornadas.

o Cidadão representa o ser preconceituoso, reacionário, militarista e nacionalista. ele mantém a postura de que está sempre certo, e tem uma visão limitada, que não admite questionamento. ele é o ciclope do episódio homérico.

como os ciclopes tinham um olho só, não tinham perspectiva. assim como o Cidadão que não enxerga nada em perspectiva.

na Odisseia, Ulisses e sua tripulação são aprisionados por um ciclope, Polifemo, que pretende os devorar um a um. o monstro sai durante o dia para pastorear suas ovelhas e coloca uma enorme pedra na entrada da caverna que impede a saída dos marinheiros.

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[adaptação xuxu em HQ da Odisseia, por George Pichard]

Ulisses, matreiro que só, arma um jeito de escaparem: embebeda o ciclope e afia um tronco de árvore que ele usa para furar o olho do monstrengo. depois, amarram-se junto às ovelhas para poderem fugir da caverna, já que Polifemo sentia pelo tato o que estava passando e permitia a saída das ovelhas.

no final ainda, Ulisses diz que o nome dele é Ninguém e dá uma trollada de linguagem no ciclope, que pede ajuda aos outros ciclopes, e explica que ninguém o deixou cego. no final, todo mundo foge e Polifemo atira pedras contra os barcos.

no Ulysses do Joyce, o combate acontece ideologicamente (embora o Cidadão atire uma lata em que o cachorro nojetão dele come contra o Bloom no final do capítulo). eles sentam lá, discutem, Cunningham chega, Leopold vai embora, e mói o Cidadão com respostas inteligentes sobre o sionismo.

quando ao modelo da narrativa, me dá até comichão na barriga de comentar: chamado de gigantismo pelo Joyce, ele usa de paródia de diversos estilos e de vários formatos, tipo cartas e atas, sempre com um discurso que busca engrandecer o ato mais banal, como o Bloom subindo as escadas que tem uma descrição de tom bíblico, lembrando a ascenção de Elias aos céus. aqui tem uma bela anotação sobre esse capítulo.

além disso, quem narra a história, mormente, é aquele personagem desconhecido que não gosta do Bloom, o que gera um ponto de vista muito batuta pra história.

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Onze – As Sereias

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto XII da Odisseia, com Ulisses amarradão no canto das sereias]

nesse capítulo, Bloom vai parar no bar do Hotel Ormond (o preferido dos músicos de Dublin) para comer e ouve a cantoria do lugar. entre os cantores, Simon Dedalus. as canções reverberam em Bloom que repensa seu caso por carta com Martha e em como vai fechar o anúncio do Shawes.

o capítulo é todo dedicado a música, com diversos trechos de canção e recursos textuais que apelam a musicalidade. isso que o estilo narrativo tem a ver com o paralelo homérico.

esse é o capítulo das sereias, no qual Ulisses pede para ser amarrado ao mastro pra poder ouvir o cântico das sereias, que atraem homens ao mar e a morte. desse paralelo Joyce resolveu fazer um capítulo musicalizado. Há um belo artigo sobre a música na obra de Joyce.

 

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[James Joyce, essa sereiazinha da literatura moderna]

 

interessante notar que mesmo sendo muito emblemático e bastante conhecido, esse trecho das sereias na Odisseia ocupa alguns poucos versos. as sereias de Dublin são as duas garçonetes e há toda um aproveitamento da ideia de tema e voz literário em relação ao tema e a voz musical.

quanto ao modelo narrativo, é um pequena delícia. fuga per canonem é uma tirada com a técncia musical da fuga e do cânon. até onde pude apurar, não existe na música uma ‘fuga per canonem’.

a fuga, é melhor pedir pra alguém que manje de música te explicar, mas é algo meio como uma voz em um tom que canta um tema e vai se desenvolvendo e em seguida entra uma segunda voz, em outro tom, cantando o mesmo tema e assim segue, como se o tema “fugisse”. parece que o Bach era o cara da fuga.

Já o Cânone são diversas vozes cantando a mesma linha melódica que a primeira voz e retomando o que ela já fez. não sei bem se entendi a diferença, mas me parece que são técnicas excludentes entre si.

no caso do romance de Joyce, entenda voz, não por canto, mas por voz narrativa. e no começo do capítulo ele faz uma pequena apresentação dos temas que serão desenvolvidos no capítulo, coisas que alguns compositores de música erudita também fazem (parece que é o caso do Wagner). ou seja, todo aquele texto desconexo é uma trailer do que vem pela frente, mas ligado ao sentido e desligado da sintaxe.

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Dez – Rochedos Errantes

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[Mapa de Dublin]

a partir desse capítulo o grau de diversão lielsônica extrapola as escalas. a vontade que tenho é de continuar relendo os mesmos capítulos, mas sempre que me encorajo de seguir adiante, encontro outro capítulo tão divertido quanto o anterior.

temos 19 pequenos trechos da história de cidadãos de Dublin. entre eles os nossos caros Stephen e Leopold, e também Simon dedalus, as irmãs de Stephen, Rojão Boylan, e vários outros. todos eles andam pelas ruas de Dublin e a cada trecho nos oferece um ponto de vista sobre a urbanidade da capital irlandesa.

embora independentes, os trechos reaparecem encaixados nos outros como pequenas informações: descobrimos quem é o homem que perdeu o bonde no primeiro trecho e pra onde ia alguns trechos depois, por exemplo.

uma informação em um site que diz que a primeira parte, a caminhada do padre John Conmee e a última, a carruagem real que atravessa a cidade, são citadas em todos os outros trechos.

somando isso com a frase de Stephen sobre os dois senhores no capítulo 1, a igreja e a monarquia inglesa, temos uma puta ironia sobre os valores que percorrem as ruas de Dublin.

a técncia narrativa aqui chama-se labirinto, e consiste nessa deliciosa multiplicidade pontos de vista quebradas em pequenos trechos, capaz de gerar um quebra-cabeça para aqueles que pretendem encaixar todas as ações na ordem.

o episódio homérico não existe.

é, não tem.

os rochedos errantes era uma opção de navegação. a outra era passar entre Cila e Caríbdis, que foi o que Ulisses fez e é o capítulo nove do livro de Joyce. de acordo com as notas da versão da Alfaguara do Ulisses, o mito dos rochedos errantes é fruto de uma ilusão de óptica, que fazia os marinheiros acharem que as pedras se moviam para afundar os navios.

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Nove – Cila e Caríbdis

METABLOGUE ON

como me atrasei nas postagens – minha leitura de hoje encerrou o capítulo 12 do livro – vou fazer uma única postagem por capítulo, sem separar as relações com a Odisseia de Homero. esse procedimento deve continuar até eu chegar em Circe, que é um capítulo gigantesco.

METABLOGUE OFF

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[National Library of Ireland, onde se passa este capítulo]

esse capítulo todo se passa dentro da biblioteca de Dublin. Leopold Bloom vai até lá em busca de uma referência para o anúncio de seu cliente, Shawes, enquanto Stephen Dedalus usa sua metamaticafísica para explicar sua tese sobre o Shakespeare, o fantasma de Hamlet e graus de parentescos dos mais diversos. ou seja, a narração deste capítulo é colada em Stephen – e é muito valiosa a difernça entre os “textos” dele e de Bloom.

toda a conversa entre Dedalus e um bando é sobre Shakespeare, com toneladas de citações. para destravar todos os segredinhos desses intertextos, tem de ser um grande leitor do bardo inglês. há, claro, muitas indicações e intertextos com a literatura em geral.

outra aspecto notável deste capítulo é o uso de figuras de retórica, que invadem o texto inteiro, que teve sua técnica narrativa batizada de dialética por James Joyce. ou seja, há muita tese, antítese e síntese na formação do texto.

interessante notar o preconceito contra judeus – especificamente Bloom – que já transparece nos comentários desse grupo. e não é agora ainda que Dedalus e Bloom se encontrarão.

o paralelo homerico é o seguinte: Circe adverte o Ulisses que ele tem duas opções para sair da ilha, ou enfrentar de um lado os Rochedos errantes, que são basicamente umas pedras que se movem pra lá e pra cá (parece aquelas fases de pulo do Mario Bros.) ou enfrentar Cila e Caríbdis.

Cila é um monstro de seis cabeças que devora humanos e vive nas rochas cercadas de mar. Caríbdis é uma espécie de buraco negro aquático que atraí e naufraga navios com golfadas de água e ondas, mas até onde entendi, também é um ser vivo.

Ulisses opta por passar entre Cila e Caríbdis, mais perto de Cila, pois com o sacrifício de alguns marinheiros eles passariam por ali, diferentemente de um naufrágio que mataria a todos – claro que os marinheiros não são informados de seu papel de patê de monstro marinho.

no paralelo joyciano, Dedalus (e não Bloom) é obrigado a tomar defesas de suas posições, sendo atacado de todos os lados por argumentos contrários e passando entre eles para sair inteiro.

como curiosidade, em inglês, “estar entre Cila e Caríbdis” é o equivalente ao “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” ou “entre o fogo e a frigideira”. mais sobre isso aqui.

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Oito – Lestrigões

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eis o momento do almoço. Leopoldo Bloom vai prum forra-bucho depois de ser expulso da redação do jornal. Todo este capítulo é ligado à comida. começa com a descrição de crianças comendo doces, vai pro Bloom que compra um pedaço de bolo pra dar pros pássaros e sai em busca de um lugar pra almoçar. ele vai rodar por Dublin até entrar num pub e ficar enojado com a forma que as pessoas comem e com o cheiro do lugar. pensa sobre o vegetarianismo e resolve comer um lanche mais comedido em outro lugar.

a escolha do lugar leva Bloom a passear por Dublin, levando em conta que precisa passar na biblioteca – que será o cenário do próximo capítulo.

nesse trânsito, Bloom é informado sobre a sra. Purefoy, que está em um parto bastante difícil. ela vai ser visitada por ele no capítulo 14. a técnica narrativa chama-se peristáltica, cujo nome deriva de movimento peristáltico, que é o movimento involuntário, que por exemplo, o esôfago faz para engolir a comida. a ideia é que são movimentos não racionalizados que levam a comida ao seu lugar adequado.

no caso da narrativa, são as ações e as palavras que empurram o personagem e a atenção do leitor em direção ao final do capítulo. ou seja, o próprio capítulo conduz toda a narrativa para o seu final. há várias pistas das ações seguintes espalhadas pelo texto.

o paralelo homérico daqui é com o episódio do Lestrigões, no canto IX: um povo canibal que devora alguns marinheiros de Ulisses e destrói todos seus navios, menos um, o do valoroso filho de Laertes (o Ulisses). se eles são canibais e se portam como selvagens, o capítulo de Joyce é sobre comdia e repugnância.

atenção para indicações olfativas e palatais. depois do lanchinho do senhor Bloom, vamos para a biblioteca.

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