Monthly Archives: Junho 2012

Leiturosseia do Ulysses – Éolo

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[página da adaptação para os quadrinhos de A odisseia, de George Pichard]

nesse episódio, que está no Canto X da epopeia de Homero, o Odisseu valoroso (Ulisses, pros íntimos e latinos) conta suas desventuras na corte do rei Alcino.

James Joyce usa o episódio em que Ulisses desembarca na ilha do deus Éolo – sim, aquele que é vento. Lá, o grego chora as azeitonas pro Éolo, que diz que vai ajudá-lo,e dá um saco com todos os ventos, mas Ulisses não deveria abri-lo.

aí Homero faz o que sabe melhor: mostrar a cobiça humana. os marinheiros de Ulisses ficaram putinhos porque ele é quem leva os elogios e os presnetes por onde passa enquanto eles ficam ali criando calo na mão (por causa dos remos). acham por bem, portanto, pegar parte do tesouro para si, e abrem a sacola com os ventos.

uma grande tempestade se forma e o barco é jogado de volta à ilha de Éolo, que dessa vez, expulsa os visitantes, por não terem seguido seu conselho e terem se mostrado amaldiçoado pelos deuses.

em Ulysses, o capítulo está cheio de ventos, ares, brisas e dispositivos que colocam o ar em movimento. e no paraleo mais óbvio, Bloom é expulso pelo editor do jornal quando retorna com uam contraproposta para o anúncio, negando a esse Ulisses também a ajuda.

no próximo capítulo, os Lestrigões. saia daí, mas volte.

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Sete

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[Henri Matisse para uma edição ilustrada do Ulysses]

esse capítulo é delicioso e de formato extremamente moderno: fluxo de consciência, diálogos e trechos cortados em pequenos capítulos.

há a agilidade do jornalismo e seus textos curtos – perceba que os pequenos trechos são intitulados com manchetes jornalísticas. o modelo narrativa é da Entimemática. explico

um entinema é um silogismo sem uma das suas partes, por ela ser pressuposta. exemplifico com o mais clássico dos silogismos (é o mesmo exemplo da wikipedia também):

1) Todo homem é mortal;

2) Doutor Sócrates é homem;

3) logo, Doutor Sócrates é mortal.

um entinema seria: Todo homem é mortal, logo, Doutor Sócrates é mortal.

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foi?

observe como isso vai rolar nos diálogos e na narrativa: haverá inbterrupções, causos abandonados, falas cortadas, além de muita correria, típica de uma redação de jornal. muitas figuras de linguagem de retóricxa estão polvilhadas por todas as páginas do capítulo.

Bloom vai até o jornal Freeman para acertar alguns anúncios que vendeu e acertar negócios. enquanto isso, o dono do jornal conversa com algumas pessoas. Stephen chega até lá para trazer a carta que Deasy escreveu lá no capítulo dois – mas Bloom e Stephen não se encontram ainda.

quando estão saindo para almoçar, Bloom volta correndo para falar com o editor e é escorraçado de maneira grosseira por ele, que não aceita a contraproposta de anúncio do Shawes, cliente do nosso protagonista.

gosto muito desse capítulo é de um trecho dele que o editor da tradução mais recente do Ulysses no Brasil, André Conti, escreveu uma coluna pro blog da Cia. das Letras.

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Leiturosseia do Ulysses – Hades

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto XI da Odisseia, com Ulisses contando sua história para o rei Alcino]

esta é a primeira vez no livro que Joyce vai deslocar uma cena da Odisseia da sequência de eventos criada por Homero. antes de chegar ao Hades, no canto XI, Ulisses se encontrar com Éolo, com os Letrigões, com o Ciclope e com Circe, cenas que no Ulysses são posteriores.

Ulisses, aconselhado por Circe, vai até o Hades, que é a morada dos mortos, para conversar com o sábio Tirésias e descobrir um jeito de voltar pra casa mais susse, pois desde daquela época os portos já estavam virando rodoviárias (#Cidadãogregosofre) e aproveita pra colocar a conversa em dia com várias parças que caíram na guerra de Troia, tipo o Agamenon e Aquiles (aquele do calcanhar).

para conversar com os mortos há todo um ritual com sacrifícios animais. somente a alma que beber o sangue sacrificial recuperará a memória  e o dom da fala e poderá trocar uma ideia com o autor do sacrifício. em Ulysses, Bloom acompanha todo o cerimonial de enterro e ao contrário de Ulisses que é sempre ouvido por suas “palavras aladas”, Bloom é grosseiramente cortado diversas vezes por diversas pessoas diferentes.

no livro do Joyce, Bloom e aqueles que o acompanham falam com de mortos e lembram deles o tempo todo. uma relação bacana é que o defunto Paddy Dignam morreu do coração de tanto beber e na Odisseia um dos companheiros do Ulisses morreu na casa de Circe porque tava travado de vinho e caiu do telhado. ou seja, o álcool abotoou o paletó dos dois.

muitas histórias de afogamento e de se molhar ou nadar e cair na água, não só neste capítulo, mas em todo o livro, fazem paralelo com os marinheiros de Ulisses que naufragaram ou morreram no mar.

Bloom também conta os presentes no enterro e são 12 e mais ele, assim como Alcino tinha 12 reis e mais ele a receber Ulisses. sem falar no óbvio 13, número místico até o radical.

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Bloomsday

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é em 16 de junho que começa a jornada de Leopold Bloom e Stephen Joyce dentro do livro Ulysses.

os nerds joyceanos comemoram essa data, normalmente enchendo a cara e gritando seus trechos favoritos do Ulysses.

a gente dá feliz bloomsday pras pessoas?

“Shut your eyes and see.”

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Seis

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[Kirsty White em desenho para uma edição da Penguin do Ulysses]

finalmente, Leopold Bloom vai para o velório de Paddy Dignam. o capítulo começa com Bloom sendo convidado a ir na mesma carruagem que Simon Dedalus (pai de Stephen), Martin Cunningham e Jack Power.

enquanto o carro passeia por Dublin em direção ao cemitério, os personagens conversam e contam causos, como o o menino que caiu no rio Liffey e foi resgatado pelo cós da calça com um gancho ou do defunto que rolou para fora do caixão numa curva mal-executada pelo cocheiro. Simon não vê seu filho Stephen, embora ele tenha sido avistado de passagem pelos demais passageiros.

por todo o capítulo os mortos serão lembrados e como é habitual na Irlanda, no Brasil ou onde quer que se junte mais de 3 a gracejar, surgem os comentários preconceituosos. no caso, contra estrangeiros, judeus e suicidas. o pai do Bloom é um estrangeiro, judeu e suicida, tornando o nosso caro Leopold vítima dessa porra toda.

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o modelo narrativo aqui foi chamado de incubismo por Joyce. uns teóricos doidões atribuem isso ao demônio sexual masculino íncubo, que estaria como que possuindo o capítulo e sugando-lhe a energia.

eu, irresponsavelmente imodesto, não vejo bem isso. acho que o incubismo pode ser de incubado, como se o narrador estivesse dentro dos personagens, particularmente, Bloom. seria um narrador-pomba-gira que baixa no personagem.

evidências que enxergo pra isso: aqui a técnica de o narrador usar o léxico do personagem é mais exemplar que qualquer capítulo anterior. a descrição feita da missa e seus rituais é cheia de termos coringas, de quem não conhece o ritual católico, tipo um judeu feito o Poldy. os pensamentos de Bloom – sobretudo sobre morte e mortos, claro — mas também da trepada dele e da Molly que resultou no filho já morto, Rudy — – entram no meio da descrição das ações o tempo todo (sob esse aspecto uma versão reduzida do terceiro capítulo).

no final, Bloom dá um aviso pra John Henry Menton com quem ele quebrou o pau jogando bocha uma vez, que o seu chapéu está torto, deixando-o “sem saber onde enfiar a cara” (MÃE, Minha). esse senhor Bloom é demais.

ah, e apesar de estar em comic sans, aqui está um puta artigo sobre este capítulo:

http://p-www.iwate-pu.ac.jp/~acro-ito/Joycean_Essays/U06_insurrection&life.html

(copia, cola e dá enter porque essa porra de ‘p-www’ zoa com os códigos html)

“Obrigado. Como estamos magnânimos hoje.”

 

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Cinco

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto IX da Odisseia, com Ulisses contando sua história para o rei Alcino]

nesse quinto capítulo, nosso querido amigo Leopold Bloom vai andar um pouco por Dublin enquanto espera o horário do enterro de Paddy Dignam. evidencia-se aqui que, ao contrário do Ulisses da Odisseia, quem tem tido casos fora do casamento é Molly. ou melhor, casos carnais, porque leopold Bloom mantém uma relação amorosa via carta com uma mulher sob o pseudônimo de Henry Flower.

e também recebeu da sua palavramante uma flor seca no envelope.

esse é um capítulo muito bem amarrado ao episódio homérico e, diferentemente de antes, vou colocar todas as minhas observações nessa mesma postagem e partimos em um dia próximo para o capítulo 6.

o episódio de referência é o dos lotófagos, ou dos comedores de lótus (permaneça perceptivo para flores nesse capítulo), que é um trecho dos mais miúdos na Odisseia (capítulo IX, versos 61 a 78). e esse capítulo é bastante exemplar do tipo de relação que Joyce constrói entre o seu livro e a epopeia homérica.

explico:

na Odisseia, os lotófagos passam o dia inteiro comendo flor de lótus e fazem porra nenhuma – tipo quase todos nós na internet – e alguns homens que o Ulisses mandou lá ver qualé entraram nessa pira (literal-metaforicamente) e foram arrastados por seu valoroso capitão de volta ao mar.

no livro do Joyce não vai ter ninguém chapado ou comendo flor, mas o capítulo todo estará obnublado, como se o narrador tivesse meio anuviado. o estilo narrativo que Joyce chamou de narcisismo tem tudo a ver com o ficar dentro de si e não agir muito bem no mundo exterior, até que a água te afunde na realidade.

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todo o capítulo é preguiçoso, segue um “dolce far niente” e termina com o Bloom tomando um banho. todos os aromas e sabores são valorizados aqui, como se os sentidos de Bloom fossem muito mais aguçados.

ele encomeda um perfume de flor de laranjeira para Molly (esse cheiro é associado a ela durante todo o livro) e compra um sabonete com odor de limão. a última cena desse capítulo é Bloom flutuando na banheira e seu pau sendo comparado a uma flor.

(uma avaliação pelo viés do grotesto e do baixio corporal rende horrores nesse livro)

Bloom anda pela cidade, vê vitrines de chá, encontra McCoy, que faz Bloom lembrar do golpe da mala – que se não me engano, rolou num conto do Dublinenses – apanha a carta da Martha, a amante datilográfica, se livra do envelope, resolve encomendar o perfume de flor de laranjeira e comprar um sabonete para o banho, e antes de se lavar, cruza com Garnizé Lyons que lhe pede o jornal emprestado, age d emodo estranho e sai correndo. Bloom entra no banho e é isso.

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SLLT « Blog da Companhia das Letras

Por André Conti


A geladeira de James Joyce: 1. Ligar para o banco; 2. Lavanderia; 3. Forjar na forja da minha alma a consciência incriada da minha raça; 4. Ligar para a mamãe

Ainda estou me acostumando com a ideia de que o Ulysses finalmente saiu. Pelo que andei conversando com o Galindo, tradutor do bicho, ele também estranhou. Só posso imaginar. Os anos de discussão, ansiedade e trabalho que passamos em cima do livro representam uma fração dos anos de discussão, ansiedade e trabalho que o Galindo passou desde o início da empreitada, mais de uma década atrás.

Agora, nosso filho criado no porão e alimentado por debaixo da porta resolveu que é gente. Fica de pé sozinho. Não precisa mais de nós.

No sétimo episódio de Ulysses, o sr. Bloom visita a sede do Freeman’s Journal, onde tenta negociar um anúncio. Num determinado momento, ele para diante das máquinas de impressão do jornal:

“Sllt. O cilindro inferior da primeira das máquinas projetou sua bandeja com sllt a primeira fornada de mãos de jornais dobradas. Sllt. Quase humano o jeito que ela fica slltando pra chamar atenção. Fazendo o melhor que pode pra falar. Aquela porta também estava slltando quando rangia, pedindo pra ser fechada. Tudo fala à sua maneira. Sllta.”

É uma das minhas passagens favoritas no livro. É também um dos grandes exemplos da capacidade infinita do sr. Bloom de humanizar as coisas. Máquinas, objetos, pessoas, animais: em Ulysses, tudo fala à sua maneira. Agora esse Ulysses, que foi só do Galindo, depois da Sandra e da Beatriz, aí de alunos e amigos, e então do Paulo Henriques e um tiquinho assim meu, pode falar à sua maneira.

Digo um tiquinho sem sombra de falsa modéstia. O texto final que recebi, fechado pelo Galindo e o Paulo Henriques, havia sido pensado à exaustão. Meus pitacos frequentemente esbarravam na lógica interna do romance, onde uma determinada escolha vinha precedida e sucedida de justificativas no próprio texto. De modo que aprendi um bocado sobre Ulysses tendo minhas sugestões recusadas. Aprendi também um bocado sobre tradução, edição, livros em geral.

O que não quer dizer que algo da minha experiência com o livro não esteja ali, ainda que esse algo seja muito específico. Um dos temas centrais do Ulysses, afinal, é a amizade. E essa tradução nasceu em torno de uma série de amizades. Li o romance pela primeira vez com um amigo, o Alê, em voz alta e todas as quintas. O texto final também foi resolvido por dois amigos, o Paulo e o Galindo. E o Galindo e eu falávamos do livro muito antes de o projeto de edição da Cia. existir.

Um pouco dessa dimensão afetiva não deixaria de transparecer num romance tão preocupado em esmiuçar as muitas maneiras em que as pessoas se ligam umas às outras. Se discutimos o livro constantemente, também jogamos semanas de conversa fora, passeamos de carro por Curitiba, o Galindo tocou “Here comes the sun” no uquelele, a gente foi até Morretes por uma serra toda ensolarada, de estrada de pedra, onde comemos barreado e visitamos uma criação de tartarugas. Um dos méritos do Ulysses é registrar a vida miúda, o pedaço de conversa da mesa ao lado, um instantâneo absolutamente específico que, apoiado no domínio técnico do Joyce sobre a língua, se vale desse humanismo compassivo do autor para expandir a miudeza e a especificidade no que há de mais universal em todos nós. Espero que um pouco da nossa própria miudeza tenha encontrado lugar na tradução.

E agora, como diz o próprio Galindo na apresentação, esse Ulysses é teu. Há literalmente centenas de caminhos a serem tomados — tente seguir a trajetória da batata no bolso de trás do Bloom, por exemplo —, todos irremediavelmente pessoais. Claro que o mesmo pode ser dito de qualquer livro, em graus variados. E todo mundo tem um romance que parece ter sido feito na medida para si, em forma ou conteúdo. Mas, na megalomania do autor (“Hoje sou capaz de fazer o que quiser com a língua inglesa”), Ulysses parece alcançar uma medida mais ampla.

Basta pensar na celebração anual em torno do 16 de junho, dia em que se passa o livro. Acho revelador que, em meio a tantas obras tão ou mais célebres, apenas Ulysses tenha o seu dia. Posso imaginar a festa anual do Hamlet, com um monte de gente sorumbática, vestida de preto, falando mal do tio. Ou da Madame Bovary, com leitura de bestsellers seguida de adultério extremo e insatisfação geral. Ao nivelar a experiência por cima, exigindo atenção e paciência de seus leitores, Joyce possibilitou a qualquer um deles uma entrada igual — democrática — no livro. Por isso a festa. Por isso o carisma da obra.

Que o romance seguinte de Joyce, Finnegans Wake, tenha aparentemente realizado a operação contrária, alienando até defensores ferrenhos do Ulysses, fica para uma próxima tradução do Galindo, quem sabe daqui a dez anos.

Mas não custa deixar um teaser

* * * * *

André Conti é editor da Companhia das Letras.
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A opinião do editor da versão mais recente do Ulysses pro português.

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Quatro – um adendo

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encontrei uma análise em inglês que lista umas coincidências entre o primeiro e o quarto capítulo do Ulysses que eu deixei passar: Dedalus e Bloom veem o sol ser encoberto por uma nuvem, ambos saem de casa sem a chave e outros penduricalhos.

tá aqui, ó: [Spark Notes]

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Quatro – Calipso

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[Imagem de David Byers Brown para o Canto V da Odisseia]

do mesmo modo que a Odisseia começa a narrar as aventuras de Ulisses e deixa Telêmaco um pouco de lado, aqui o Ulysses joyciano recomeça e passa a companhar a Leopold Bloom, o Ulisses irlandês.

ao contrário do herói grego, Bloom não é nada heróico, guerreiro ou distinto em relação aos demais. ele é um homem comum e pacífico. na episódio homérico, Calipso (a ninfa, não a bolacha) recebe o mensageiro dos deuses que lhe manda deixar Ulisses ir embora (ela mantém Ulisses prisioneiro como seu amante desde o fim da guerra de Troia).

por sua vez, Bloom recebe cartas e serve, como Ulisses, a sua ninfa/esposa na cama, Molly Bloom (no último capítulo, Molly será Penélope – ou seja os papéis não são únicos ou fixos). há um quadro de ninfas sobre a cama.

assim como Calipso (a ninfa, não a banda), Molly é uma figura sensual e bastante sexual, que permanece nesse capítulo todo an sua cama, recebe o café da manhã e a carta de um homem – que Bloom desconfia que seja o amante dela.

em Homero, Calipso deixa Ulisses partir para que volte pra casa e pare de chorar na praia, dá pra ele comida e condições para que parta. porém, Poseidon fica fulo com a liberação de Ulisses por parte dos deuses olímpicos (eles tretaram nas costas do deus dos mares) e arrebenta a jangada que Ulisses usava pra voltar pra casa e ele chega em terra firme, mas ainda não é Ítaca.

enquanto isso Bloom come e vai ao banheiro, para sair de casa e viver sua odisseia de algumas horas, bem menos que os 20 anos de Ulisses.

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Quatro

[desenho de James Joyce com a primeira linha da Odisseia em grego]

finalmente, o Leopold Bloom entra no livro. Cronologicamente, voltamos para 8 horas da manhã. ou seja, as ações daqui são simultâneas aquelas do primeiro capítulo. toma-se café da amnhã lá e aqui.

o Caetano Galindo, tradutor dessa versão, já disse várias vezes que quando se chega no quarto capítulo é como se alguém abrisse a janela do livro e entrasse sol em todo ambiente.

o senhor Bloom prepara café da manhã para sua esposa, Molly, conversa com a gata, dá uma saidinha rápida apra comprar um delicioso (#NOT) rim de carneiro para preparar na manteiga, tenta sair rápido do açougue pra ver uma bela bunda, perde o timing das ancas, volta pra casa, pega as cartas (uma pra ele e duas pra Molly), leva o chá da manhã pra ela, explica o que é metempsicose, fica cabreiro com uma das cartas, é lembrado por Molly (e pelo cheiro de queimado) do rim no fogo, dá uma topada na perna da cama, salva o rim da incineração, dá a parte queimada para a gata, come a outra com pão enquanto lê a carta (que é de sua filha, Milly), sente os intestinos trabalharem, vai pro banheiro, se limpa com um pedaço do jornal e ouve os sinos badalarem.

[cena de Ulysses, de 1967]

nesse meio tempo lembra-se do enterro que vai acontecer hoje (pobre Dignan), descobrimos que é uma quinta-feira, que é dia 16, e que possivelmente é junho, embora haja alguma chance pra julho e que Bloom conhece Simon Dedalus (que os leitores de Um retrato lembrarão ser o pai de Stephen).

a narrativa se assemelha a da primeira parte do livro, mas graças ao modelo de narração, aqui é mais leve, divertido e apetitoso (apesar do rim). a ideia é que o narrador joyceano, mesmo em terceira pessoa, se deixa invadir pela visão de mundo do personagem que está em sua alça de mira narrativa. esse narrador usa o léxico que o personagem usaria e tem o seu humor. isso torna os primeiros capítulos mais sisudos e a partir daqui o livro mais divertido.

bem vindo, senhor Bloom, o dito mais complexo dos mais simples homens-literatura de todas as páginas.

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