Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Três (p. 1)

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eis o famoso monólogo de Stephen Dedalus, tanto citado, que muita gente diz ilegível. se por não ler você quer dizer não entender de todo, é exatamente isso. é possível catar diversas referências, mas isso é mais para uma megacuriosidade e se você fizer absoluta questão de saber tudo que rola na cabeça de Stephen (o que são os caldeirões de carne do Egito?), tem duas chances: uma é olhar as notas da edição da Objetiva do Ulisses, traduzida pela Bernardina Pinheiro e outra é a acessar o Ulysses annotations. comentarei uma ou outra aqui.

a técnica aqui é o tal do monólogo interior. o narrador em terceira pessoa sofrerá interferências e mutações a partir do fluxo de pensamento de Stephen Dedalus. Vamos ver como isso funciona aqui no primeiro parágrafo:

(e o Caetano e a Bernardina, sensatamente, excluíram um tal de marisêmen e maribodelha que tinha na tradução do Houaiss)

“A inelutável modalidade do vísivel: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele os sabia corpos antes de sabê-los coloridos. Como? Metendo a cachola neles, claro. Vá com calma. Calvo ele era, e milionário, maestro di colore che sanno. Limite do diáfano em. Por que em? Diáfano, adiáfano. Se você consegue enfiar os cinco dedos é um portão, se não uma porta. Feche os olhos e veja.

Stephen fechou os olhos para ouvir suas botas triturarem estralantes conchas e algas.[…]” (p. 140-141)

o capítulo começa na voz do Stephen. ou melhor dando voz aos pensamentos de Stephen. ele olha para o mar, vê algas, águas e uma bota. depois, fecha os olhos e anda cegamente pela praia, ouvindo o som de seus passos.

o texto em itálico é italiano, e é dito por Dante na Divina Comédia para se referir a Aristóteles, que é o dono conceitual do parágrafo. o papo de diáfano, limite de cores, inelutável modalidade do visível são ideias aristotélicas que o Stephen relembra e cita. até algumas ideias de estudiosos de Aristóteles são citadas.

mas, e isso é importante na maquinaria narrativa desse capítulo, a palavra Aristóteles não foi usada (e nem será) embora boa parte de seus conceitos estejam no capítulo. a proposta não é apontar, mas rodear. não há uma clareza sobre o fluxo de pensamento. “Feche os olhos e veja.” mas ao se analisar no miúdo, chega a ser bonito a maneira que o Joyce os ordenou.

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quanto às ações, o que rola é basicamente está nesse gif tosquinho aí de cima. o Stephen anda pela praia de olhos fechados e pensa em Aristóteles, se lembra de Paris, pensa nos livros que gostaria de escrever, lembra do caminho pra casa da tia, se imagina lá, mas não vai, vê dois cachorros um vivo e um morto, fica com medo de ser mordido (pelo vivo), senta pra escrever, está sem papel, usa um pedaço da carta do Deasy, pensa no cadáver de um homem afogado, percebe-se sem o lenço e deixa a meleca que tirou do nariz numa pedra na praia.

ah, informação que só teremos depois. o óculos dele tá quebrado, então em vários momentos Stephen fica na dúvida sobre o que viu. diáfano, adiáfano.

 

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