Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Um (p. 2)

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[a imagem aqui de cima é David Byers Brown que fez uma ilustra para cada canto da Odisseia e se reporta ao Canto I (a de baixo é do canto II).]

essa partezinha do guia aqui é dedicada aos paralelos com a Odisseia de Homero. essa é a parte pra os nerds da literatura, que vão obcecadamente querer encontrar os detalhes.

obviamente, eu mesmo passo longe de dar conta, mas a cada nova leitura, tanto da Odisseia quanto do Ulysses, é possível perceber uma ou outra coisa.

sobre a Odisseia, informações bem gerais:

é uma obra épica (no sentido de gênero), escrita em versos e em grego por (supostamente) Homero, milhares de anos atrás. há um gigantesco arranca-rabo teórico se a Odisseia foi composta oralmente ou não, se Homero existiu ou não, se o livro é uma obra contínua ou um ajuntado de diversos outras pequenas epopeias.

a trama geral é o Ulisseus (ou Odisseu daí Odisseia;  a Eneida é a aventura de Enéas, a Orestia de Orestes e por aí vai) tentando voltar para casa depois de 20 anos longe. Telêmaco está crescido e sua casa foi infestada de usurpadores que pretendem se casar com Penélope, mulher de Ulisses, já que ele pode estar morto. no final ele volta, mata todos os pretendentes e tudo fica bem.

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[Telêmaco bate boca com o povo pedindo ajuda pra botar a casa em ordem; cagaram pra ele.]

alguns estudiosos dividem a Odisseia em pequenas aventuras aventuras menores, miniepopeias: Telemaquia, Ulisses contando sua história, Descida aos infernos, retorno à Ítaca… elas variam conforme o estudioso, mas a tal da Telemaquia é meio sucessinho e sempre tá por ali. ela trata das aventuras de Telêmaco em busca de seu pai, Ulisses, nos 4 primeiros cantos do livro.

(a divisão da Odisseia que chegou até nós é de 24 cantos. a ideia de canto é pela apresentação oral dos versos da epopeia e pelo seu ritmo dado pelo tipo de verso: hexâmetro datílico (ahn?)

eu explico: um hexametro são 6 (hexa) pés métricos. um pé métrico são 3 sílabas poéticas. o datílico é o tipo de pé métrico. o que faz um pé métrico mudar em relação ao outro é a ordem das sílabas poéticas, que se dividem em dois grupos: longas e breves.

ué, mas as sílabas não são fortes (tônicas) ou fracas (átonas)?

em português, sim. pois nosso idioma não usa o recurso da duração vocálica para criar sons significativos. por exemplo, sabiá, sabia e sábia diferem em onde está o acento tônico, ou seja, em qual é a sílaba mais forte.

no grego (são diversos dialetos usados na Odisseia, mas serei irresponsável e chamarei tudo de ‘grego’) de Homero, as sílabas não tem tonicidade, tem duração. num exemplo bem tosco, é como se dizer que sabiá significasse uma coisa diferente de sabiááá.

e a alternância entre vogais longas e breves constitui o ritmo do texto em grego – o latim também é assim.)

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no primeiro capítulo do Ulisses, Buck Mulligan tira um sarro do nome do Dedalus, um nome absurdo, já que grego, mas o dele, Malachi Mulligan, também são dois dátilos, que veja você, é o pé métrico usado na odisseia homerica. rá. que piadinha pra nerd, hein? (eu avisei lá em cima).

há também uma citação em grego no meio do texto ‘ Epi oinopa ponton’, que é usada para descrever o mar para onde Dedalus e Mulligan olham, que também está na Odisseia.

Joyce dividiu seu livro em 3 partes: Telemaquia, Odisseia e Nostos. Telêmaco é Stephen Dedalus, Leopold Bloom o Ulisses e Molly Bloom é Penélope. os três primeiros capítulos são a telemaquia joyceana.

o usurpador do filho, que são os pretendentes em Homero, em Joyce são Buck Mulligan, a coroa inglesa perante a Irlanda e a igreja católica diante do ceticismo de Dedalus. “- Eu sou criado de dois senhores, Stephen disse, um inglês e um italiano.” (p. 120)

no Ulysses há várias citações a um homem afogado e em Homero muitos aqueus (o povo de Ulisses e Telêmaco) são mortos no mar pela fúria de Poseidon, defensor dos troianos.

Tanto Dedalus quanto Telêmaco tem uma preocupação constante com sua mãe, mas por razões diferentes.

em Joyce não vejo uma representação de Atena, que acompanha Telêmaco o tempo todo na Odisseia. isso quer dizer duas coisas: que eu não vi a referência ou que é mais uma investida na ideia do cotidiano do homem comum e não-heroico (a nova ortografia proíbe esse hífen, mas eu, maloqueiro ortográfico, uso assim mesmo) que terá seu ápice em Leopold Bloom e nesse sentido, é o oposto de Ulisses.

vamos para o segundo capítulo?

2 comentários

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2 responses to “Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Um (p. 2)

  1. Ivone Sampaio Parente

    Como se pronuncia Dedalus? Qual a sílaba forte?

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