Monthly Archives: Maio 2012

Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Três (p. 1)

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eis o famoso monólogo de Stephen Dedalus, tanto citado, que muita gente diz ilegível. se por não ler você quer dizer não entender de todo, é exatamente isso. é possível catar diversas referências, mas isso é mais para uma megacuriosidade e se você fizer absoluta questão de saber tudo que rola na cabeça de Stephen (o que são os caldeirões de carne do Egito?), tem duas chances: uma é olhar as notas da edição da Objetiva do Ulisses, traduzida pela Bernardina Pinheiro e outra é a acessar o Ulysses annotations. comentarei uma ou outra aqui.

a técnica aqui é o tal do monólogo interior. o narrador em terceira pessoa sofrerá interferências e mutações a partir do fluxo de pensamento de Stephen Dedalus. Vamos ver como isso funciona aqui no primeiro parágrafo:

(e o Caetano e a Bernardina, sensatamente, excluíram um tal de marisêmen e maribodelha que tinha na tradução do Houaiss)

“A inelutável modalidade do vísivel: pelo menos isso se não mais, pensada por meus olhos. Assinaturas de todas as coisas que estou aqui para ler, ovamarinha e algamarinha, a maré entrando, aquela bota enferrujada. Verderranho, pratazul, ferrugem: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele os sabia corpos antes de sabê-los coloridos. Como? Metendo a cachola neles, claro. Vá com calma. Calvo ele era, e milionário, maestro di colore che sanno. Limite do diáfano em. Por que em? Diáfano, adiáfano. Se você consegue enfiar os cinco dedos é um portão, se não uma porta. Feche os olhos e veja.

Stephen fechou os olhos para ouvir suas botas triturarem estralantes conchas e algas.[…]” (p. 140-141)

o capítulo começa na voz do Stephen. ou melhor dando voz aos pensamentos de Stephen. ele olha para o mar, vê algas, águas e uma bota. depois, fecha os olhos e anda cegamente pela praia, ouvindo o som de seus passos.

o texto em itálico é italiano, e é dito por Dante na Divina Comédia para se referir a Aristóteles, que é o dono conceitual do parágrafo. o papo de diáfano, limite de cores, inelutável modalidade do visível são ideias aristotélicas que o Stephen relembra e cita. até algumas ideias de estudiosos de Aristóteles são citadas.

mas, e isso é importante na maquinaria narrativa desse capítulo, a palavra Aristóteles não foi usada (e nem será) embora boa parte de seus conceitos estejam no capítulo. a proposta não é apontar, mas rodear. não há uma clareza sobre o fluxo de pensamento. “Feche os olhos e veja.” mas ao se analisar no miúdo, chega a ser bonito a maneira que o Joyce os ordenou.

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quanto às ações, o que rola é basicamente está nesse gif tosquinho aí de cima. o Stephen anda pela praia de olhos fechados e pensa em Aristóteles, se lembra de Paris, pensa nos livros que gostaria de escrever, lembra do caminho pra casa da tia, se imagina lá, mas não vai, vê dois cachorros um vivo e um morto, fica com medo de ser mordido (pelo vivo), senta pra escrever, está sem papel, usa um pedaço da carta do Deasy, pensa no cadáver de um homem afogado, percebe-se sem o lenço e deixa a meleca que tirou do nariz numa pedra na praia.

ah, informação que só teremos depois. o óculos dele tá quebrado, então em vários momentos Stephen fica na dúvida sobre o que viu. diáfano, adiáfano.

 

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Dois (p. 2)

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[a imagem é do artista David Byers Brown, que fez um desenho pra cada canto da Odisseia. esse é o III]

o segundo capítulo do Ulysses de Joyce se refere a uma cena deste canto, que é o encontro de Telêmaco com Nestor. Telêmaco consegue um barco e vai até Pilos, ter uma real com Nestor, que é um dos aqueus sobreviventes da Guerra de Troia e se ele sabe o que aconteceu o seu velho, o Ulisses.

o paralelo aqui é com o Deasy, que faz às vezes de Nestor. dá conselhos e indica caminhos. porém, Nestor é legal e o Deasy é um reaça. se bem que todo soldado grego depois de 10 anos cercando Troia deve ser um reaça…

uma coisa que faz muita gente se perder numa leitura como a Odisseia são os epítetos e as nomenclaturas. perceba como a rasgação de seda (qual é o tecido mais adequado à época para a metáfora?) é geral e que a famílai é muito importante.

várias vezes o nome da pessoa é substituída pela expressão “filho do pai”, que em grego se faz malomeno assim: o filho de Atreu é Atrida, de Peleu, Pelida, de Cronos, Cronida. sacou?

vale ficar atento a isso que as coisas passam a fazer um sentido medonho quando você descobre que todos aqueles nomes são da mesma pessoa e há só um personagem e não dezoito. e o Homero era chegado num epíteto, do tipo “a de róseos dedos” é a deusa Alvorada que, veja você, traz o nascer do sol.

na Odisseia, Nestor empresta uns cavalos e encaminha Telêmaco até Menelau. o tema do Deasy é sobre doença nos cavalos e encaminha uma carta pelo Dedalus.

não perca, no próximo capítulo, Stephen Dedalus anda de olhos fechados pela praia!

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Dois (p. 1)

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Vamos ao nosso sobranceiro e fornido guia da leitura do Ulysses. se tu chegou agora e quer entender o que está acontecendo, leia as postagens cronologicamente e tudo ficará bem, eu prometo.

este segundo capítulo é mais curto e de leitura muito mais rápida que o primeiro. o estilo catecismo (pessoal) é esse estilo cheio de perguntas e respostas do texto. ainda estamos na Telemaquia, ou seja, acompanhamos Stephen Dedalus.

e onde começa o capítulo? começa no meio da aula de história (que é a arte desse capítulo) que Stephen dá a seus alunos.

e os alunos gostam de Stephen? Olha, até gostam, mas ele não aquele professor transformador. mal bate o sinal saem a toda para jogar Hockey.

todos eles se vão? Não, um menino, Sargent, pede ajuda a Dedalus, que muito de má-vontade, atende ao piá.

mas porque má-vontade desse tipo? porque ele acaba por se reconhecer naquele menino frágil e odioso, que mesmo assim, é amado pela mãe.

isso quer dizer que retoma-se o espectro da mãe a assombrar o senhor Dedalus? sem dúvida retoma-se.

tá, mas e daí? daí o senhor Deasy chama Dedalus ao seu gabinete para lhe pagar o salário.

mas só isso? não, o senhor Deasy também pede para que Stephen leve uma carta que ele escreveu denunciando uma conspiração judaica-manchesteriana para acabar com a moral do gado irlandês, acusando-o de ter febre aftosa.

e o senhor Deasy deve ser levado a sério? não, ele é um preconceituoso, elitista, monarquista e antissemita. evite esse tipo de companhia.

e o Stephen joga a carta do nazista avant la guerre fora? não, ele a guarda no bolso e ainda tem de ouvir uma piadinha antissemita no fechar do capítulo.

mas cadê a história, que é a arte desse capítulo? infiltrada nos diálogos, principalmente história da Irlanda que dá as caras no papo de Deasy e Dedalus.

bacana! tem alguma citação bacanuda pra mostrar? sim, anotei algumas:

“O rosto de menino cegamente perguntava à janela cega.

Fabulado pelas filhas da memória. E no entanto foi de algum modo como se não como a memória fabulou. Uma frase, então, de impaciência, o baque das asas do excesso de Blake. Ouço a ruína de todo o espaço, vidro estilhaçado e alvenaria desmoronada, e o tempo uma lívida flama final. O que nos resta então?” (p. 124) – Stephen diante da indecisão de um aluno em responder-lhe.

“O píer de Kingstown, Stephen disse. Isso mesmo, uma ponte desiludida.” (p. 125) – aula de Stephen

“Para eles também a história era uma estória como outra qualquer repisada demais na memória, sua terra, uma loja de penhores.” (p. 125) – Stephen sobre seus alunos

“Tem de ser um então movimento, uma manifestação do possível como possível.[…] O pensamento é o pensamento do pensamento. Plácida luz. A alma é de certa forma tudo que existe: a alma é a forma das formas. Súbita, vasta, placidez incandescente: forma das formas.” (p. 126)

“Ela não era mais: o trêmulo esqueleto de um graveto queimado no fogo, um odor de jacarandá e cinzas úmidas. Ela o salvara de ser pisoteado e havia ido, mal tendo sido.” (p. 129) – Stephen, sobre a imagem da mãe morta.

“Pela página os símbolos mourejavam em dança grave. Graciosos na arlequinada de suas letras, usando gorros de quadrados e cubos. Deem-se as mãos, cruzem, saúdem o parceiro: assim: diabretes da imaginação dos mouros.” (p. 129) – narração de Sargent fazendo a lição de matemática.

“Como ele era eu, esses ombros caídos, essa falta de graça. Minha infância se curva a meu lado. Longe demais por que possa pôr-lhe a mão uma vez ou levemente. A minha está distante e a dele secreta como nossos olhos. Segredos, sílices silentes, repousam nos palácios escuros de ambos nossos corações: segredos exaustos de sua tiranias: tiranos desejosos de se ver destronados.” (p.129-130) – Stephen se reconhecendo no pequeno Sargent.

“– Eu tenho medo dessas palavras grandes, Stephen disse, que nos deixam tão infelizes.” (p. 133) – Stephen em diálogo com Deasy.

“– A história, Stephen disse, é um pesadelo de que eu estou tentando acordar.” (p. 137) – diálogo com Deasy.

pra mim, essas duas últimas frases são tatuáveis de tão boas.

 

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“Chegou a hora de ler o Ulysses” – Sergio Rodrigues

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abaixo vai o texto do Sergio Rodrigues, publicado em seu blogue sobre o Ulisses, de James Joyce e sua nova tradução. concordo com ele, mesmo eu sendo um cara entusiasta dos enigmas joyceanos no livro. vai o texto:

“CHEGOU A HORA DE LER O ULISSES – MAS SEM STRESS

Se você for um daqueles que contemplam a obra-prima de James Joyce a certa distância, com um misto de fascínio e pavor, sem jamais se animar a encarar suas muitas centenas de páginas, saiba que seu nome é legião.

Talvez você tenha passado batido pela tradução pioneira de Antonio Houaiss (Civilização Brasileira, 1966) porque ela tem fama de erudita demais – “será que ele usa todas as palavras do dicionário dele?” – e um estranho “Sims” como palavra final, quando o original é um simples Yes. (Millôr Fernandes, irreverente como o próprio Joyce, sugeriu a tradução “É”, como num grito de orgasmo.)

Pode ser ainda que a versão mais coloquial da professora Bernardina Pinheiro (Objetiva, 2005), que procurou tornar o “Ulisses” menos intimidador, mais joycianamente brincalhão, e ainda restituiu o “Sim” de Molly Bloom à sua singularidade, também não tenha sido suficiente para levá-lo a encarar o tijolo.

Nesse caso, quem sabe você está se sentindo finalmente tentado a dar uma chance a Leopold Bloom na recém-lançada tradução de Caetano Galindo (Penguin/Companhia), que consumiu dez anos de trabalho, contou com a “coordenação editorial” de um tradutor experiente como Paulo Henriques Britto e vem embalada numa capa elegante e cabeçuda como o próprio romance – embora também, como a versão Houaiss, tenha encontrado sua letrinha da discórdia na decisão de manter um ípsilon anglófilo no coração do título: “Ulysses”.

Será que chegou a hora de ler “Ulisses”, afinal?

Por que não? Se as inevitáveis comparações entre as três traduções, esse surpreendente luxo brasileiro, já ocupam hoje um time de eruditos – e continuarão a ocupar por muito tempo – o certo é que a ideia de “tradução definitiva” para uma obra tão apinhada de jogos de linguagem e referências subterrâneas como “Ulisses” é ridícula. Em vez de ficar esperando pela corporificação dessa miragem, começar imediatamente é uma decisão tão boa hoje quanto teria sido em 1966.

O único conselho que me parece importante é o seguinte: não leve “Ulisses” tão a sério, é só um livro. Grande, influente, inovador, ambicioso – certo. Elogiado por ninguém menos que Jorge Luis Borges com palavras fortes: “Mais que a obra de um único homem, o ‘Ulisses’ parece o trabalho de muitas gerações” – OK. Mais até do que isso, é provavelmente o único livro na história da literatura que conseguiu conciliar o máximo de vanguardismo com o máximo de “popularidade” – entre aspas porque se trata de uma popularidade erudita, com perdão do paradoxo, mas de todo modo resistente à passagem do tempo e com traços inequívocos de beatlemania, cosplay e outros componentes de histeria.

Tudo isso é verdade, mas é sempre bom ter em mente um alerta sábio de Raduan Nassar: “Reverenciam-se mitos de modo obsceno. Tem gente que fala em Joyce ou em Pound e parece que está dando cria”. Para contrabalançar os possíveis efeitos emburrecedores dessa mitologia, ajuda saber que um compatriota de Joyce, o escritor Roddy Doyle, declarou há poucos anos que o “Ulisses” era superestimado e “teria melhorado com uma boa edição”. Não se trata de dar razão ao autor de “The Commitments”, apenas de aproveitar o efeito benéfico de sua coragem herética.

Esse efeito benéfico é o de ler “Ulisses” em busca de prazer, não de charadas, enigmas, paralelos com Homero, piscadelas variadas. É claro que, com muita frequência, o prazer que houver virá de charadas e piscadelas, o que é ótimo. Acontece que inverter as prioridades, deixando de ser um leitor de carne e osso para ser um exegeta de pincenê, é para a maioria das pessoas a forma mais garantida de estragar a leitura e abandoná-la antes da página 20. Não por acaso, é também uma traição ao espírito de Joyce, um sujeito dotado de altíssimos teores de molecagem que, diante do reverente culto acadêmico que inaugurou, talvez reagisse com um ataque de flatulência e meia dúzia de palavrões.

O homem não era flor que se cheirasse. “Enfiei (no ‘Ulisses’) tantos enigmas e charadas”, disse, “que ele vai manter os professores ocupados por séculos, discutindo o que foi que eu quis dizer, e esta é a única forma de garantir a imortalidade.” É um dos traços de sua genialidade que essa declaração seja ao mesmo tempo uma verdade e uma gozação, duas faces de uma moeda que nunca para de girar. Vladimir Nabokov, que percebia o risco de enxergar apenas o lado sério da questão, atacou violentamente o autor do mais famoso “guia de leitura” do romance, Stuart Gilbert, “um chato”, afirmando que “seria uma completa perda de tempo procurar paralelos próximos (com a ‘Odisséia’) em cada personagem e cada cena do livro”.

Pode ser que o conselho não sirva para todos. Foi o que me serviu. Quando, após anos de relutância, finalmente li “Ulisses” (no original), fiquei surpreso de descobrir que o livro é – nem sempre e não só, mas certamente também – apaixonante, sensual, engraçado, cheio de efeitos sonoros, cromáticos e olfativos de um certo dia em Dublin, tudo plasmado em frases de musicalidade irresistível. Quanto a “entender” tudo, esmiuçar tudo, dissecar a borboleta, deixo para aqueles “professores ocupados por séculos”. Com todo o respeito, tenho mais o que fazer.”

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Um (p. 2)

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[a imagem aqui de cima é David Byers Brown que fez uma ilustra para cada canto da Odisseia e se reporta ao Canto I (a de baixo é do canto II).]

essa partezinha do guia aqui é dedicada aos paralelos com a Odisseia de Homero. essa é a parte pra os nerds da literatura, que vão obcecadamente querer encontrar os detalhes.

obviamente, eu mesmo passo longe de dar conta, mas a cada nova leitura, tanto da Odisseia quanto do Ulysses, é possível perceber uma ou outra coisa.

sobre a Odisseia, informações bem gerais:

é uma obra épica (no sentido de gênero), escrita em versos e em grego por (supostamente) Homero, milhares de anos atrás. há um gigantesco arranca-rabo teórico se a Odisseia foi composta oralmente ou não, se Homero existiu ou não, se o livro é uma obra contínua ou um ajuntado de diversos outras pequenas epopeias.

a trama geral é o Ulisseus (ou Odisseu daí Odisseia;  a Eneida é a aventura de Enéas, a Orestia de Orestes e por aí vai) tentando voltar para casa depois de 20 anos longe. Telêmaco está crescido e sua casa foi infestada de usurpadores que pretendem se casar com Penélope, mulher de Ulisses, já que ele pode estar morto. no final ele volta, mata todos os pretendentes e tudo fica bem.

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[Telêmaco bate boca com o povo pedindo ajuda pra botar a casa em ordem; cagaram pra ele.]

alguns estudiosos dividem a Odisseia em pequenas aventuras aventuras menores, miniepopeias: Telemaquia, Ulisses contando sua história, Descida aos infernos, retorno à Ítaca… elas variam conforme o estudioso, mas a tal da Telemaquia é meio sucessinho e sempre tá por ali. ela trata das aventuras de Telêmaco em busca de seu pai, Ulisses, nos 4 primeiros cantos do livro.

(a divisão da Odisseia que chegou até nós é de 24 cantos. a ideia de canto é pela apresentação oral dos versos da epopeia e pelo seu ritmo dado pelo tipo de verso: hexâmetro datílico (ahn?)

eu explico: um hexametro são 6 (hexa) pés métricos. um pé métrico são 3 sílabas poéticas. o datílico é o tipo de pé métrico. o que faz um pé métrico mudar em relação ao outro é a ordem das sílabas poéticas, que se dividem em dois grupos: longas e breves.

ué, mas as sílabas não são fortes (tônicas) ou fracas (átonas)?

em português, sim. pois nosso idioma não usa o recurso da duração vocálica para criar sons significativos. por exemplo, sabiá, sabia e sábia diferem em onde está o acento tônico, ou seja, em qual é a sílaba mais forte.

no grego (são diversos dialetos usados na Odisseia, mas serei irresponsável e chamarei tudo de ‘grego’) de Homero, as sílabas não tem tonicidade, tem duração. num exemplo bem tosco, é como se dizer que sabiá significasse uma coisa diferente de sabiááá.

e a alternância entre vogais longas e breves constitui o ritmo do texto em grego – o latim também é assim.)

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no primeiro capítulo do Ulisses, Buck Mulligan tira um sarro do nome do Dedalus, um nome absurdo, já que grego, mas o dele, Malachi Mulligan, também são dois dátilos, que veja você, é o pé métrico usado na odisseia homerica. rá. que piadinha pra nerd, hein? (eu avisei lá em cima).

há também uma citação em grego no meio do texto ‘ Epi oinopa ponton’, que é usada para descrever o mar para onde Dedalus e Mulligan olham, que também está na Odisseia.

Joyce dividiu seu livro em 3 partes: Telemaquia, Odisseia e Nostos. Telêmaco é Stephen Dedalus, Leopold Bloom o Ulisses e Molly Bloom é Penélope. os três primeiros capítulos são a telemaquia joyceana.

o usurpador do filho, que são os pretendentes em Homero, em Joyce são Buck Mulligan, a coroa inglesa perante a Irlanda e a igreja católica diante do ceticismo de Dedalus. “- Eu sou criado de dois senhores, Stephen disse, um inglês e um italiano.” (p. 120)

no Ulysses há várias citações a um homem afogado e em Homero muitos aqueus (o povo de Ulisses e Telêmaco) são mortos no mar pela fúria de Poseidon, defensor dos troianos.

Tanto Dedalus quanto Telêmaco tem uma preocupação constante com sua mãe, mas por razões diferentes.

em Joyce não vejo uma representação de Atena, que acompanha Telêmaco o tempo todo na Odisseia. isso quer dizer duas coisas: que eu não vi a referência ou que é mais uma investida na ideia do cotidiano do homem comum e não-heroico (a nova ortografia proíbe esse hífen, mas eu, maloqueiro ortográfico, uso assim mesmo) que terá seu ápice em Leopold Bloom e nesse sentido, é o oposto de Ulisses.

vamos para o segundo capítulo?

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Leiturosseia do Ulysses – Capítulo Um (p. 1)

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no primeiro capítulo do Ulysses acontece as seguintes ações (fundamental reforçar que este é o tipo de livro que não importa muito as ações, mas sim como elas são contadas; ou seja é uma obra muito mais de linguagem do que de enredo – certo, podemos discutir em teses e mais teses o que é linguagem e o que é enredo, mas acho que isso ilumina um pouco a estrada de letrinhas que percorremos. mas então por que, por São Patrício, tu vai me falar do enredo se ele pouco importa? seilá, imaginei que um GUIA DE LEITURA [coff, coff] como este precisaria conter as ações que criam a cena e… ah, me deixa!):

– Buck Mulligan, um amigo picareta de Stephen Dedalus, sobe no parapeito de uma torre com um pote cheio de espuma de barbear, um espelho e uma navalha. ele e Dedalus passam algum tempo ali, olhando para a baía, enquanto o falastrão do Mulligan… bem, fala muito, e Stephen Dedalus, o mala, fica ali sofrendo as dores do mundo. Dedalus se dá por ofendido por algo que Mulligan disse-lhe um tempo atrás. comentam sobre um inglês, Haynes, que está com eles na torre (que á alugada).

– descem, uma fritura enche a cozinha de fumaça, conversam, chega a velha que vende leite, eles comprarm e ficam devendo um tanto.

– Mulligan descobre que Dedalus vai receber hoje e pede-lhe dinheiro emprestado para beber.

– vão para um pequeno lago nadar. não. Mulligan nada enquanto Haynes tenta conversar com Dedalus, que é um blasé do cão e lhe dá pouca atenção.

– Dedalus, em diversos momentos da narrativa, é atormentado pela lembrança da mãe recém-falecida e por um cavalar sentimento de culpa de não ter orado com ela em seu leito de morte.

– Mulligan conta pra Haynes que Dedalus consegue provar ALGEBRICAMENTE que o neto de Hamlet é o avô de Shakespeare, mas Dedalus, o maleta, se recusa a dar mais informações.

– Dedalus é atormentado pela ideia de estar sendo picaretado por Mulligan. a última palavra do capítulo é “Usurpador.”

– o capítulo termina com Dedalus se afastando para ir à escola onde leciona história, e combina de se encontrar com haynes e Mulligan 12h30 para almoço.

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Stephen Dedalus é o personagem principal de outro livro de Joyce, Um retrato do artista quando jovem, e os três primeiros capítulos de Ulysses o tem como protagonista. Boatos fortes dão conta de que ele é um alter ego do próprio James Joyce.

de acordo com as anotações de Joyce, essa cena se passa às 8h da manhã, e há muitas referências à branco e dourado e à teologia, mas não são discussões tão diretas quanto na Montanha Mágica, por exemplo. a cena é narrada ininterruptamente (só pára com as entradas dos pensamentos dos personagens).

quem sou eu pra falar isso, mas acho um capítulo ruim para começar o maior romance do século XX. Afinal, Dedalus é uma criatura soturna e chata, sem o charme literário dos deprimidos e sem a boa vontade dos personagens felizes. Ressalte-se, porém, que essa concepção do personagem está afinada com o livro, mas não é de se admirar que tanta gente desista do livro antes de matar os três capítulos com o Stephen “nuvem negra” Dedalus.

pincei uma frase notável do texto – pelo menos eu acho: “– Você contempla em mim, Stephen disse com amargo desprazer, um horrendo exemplo de livre pensar.”

das palavras estranhas citadas:

– Thalata! Thalata!, quer dizer O mar! O mar! teria sido dito por guerreiros gregos quando achavam que nunca voltariam para casa e veem as águas.

– omphalos é o nome que Mulligan dá a torre que vivem. a palavra significa umbigo, mas também é usada para nomear artefatos religiosos de pedra.

– introibo ad altare dei é latim (entrarei no altar de Deus), é o começo da missa católica.

– Chrysostomos quer dizer “dente de ouro”.

– Epi oinopa ponton = sobre o mar cor de vinho escuro.

– Liliata rutilantium te confessorum turma circumdet: iubilantium te virginum chorus excipiat – latim, oração para moribundos. algo como “Que a multidão de exultantes confessores adornados de lírios teenvolva; que o coro de virgens jubilosas te dêem as boas vindas”.

– Zut! nom de dieu! – é uma imprecaução tipo Desgraça!, Bolas! (hehehehe), Que merda…

– et unam sanctam catholicam et apostolicam ecclesiam = E uma igreja sagrada, católica e apostólica.

na próxima postagem, as relações que achei entre o primeiro capítulo, chamado de Telêmaco, e a Odisseia.

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Leiturosseia do Ulysses: introdução

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todos os comentários que farei da minha leitura do Ulysses são da edição da Penguin – Companhia.

os comparativos com a Odisseia de Homero serão feitos em postagens à parte, porque acredito que haja muito valor no próprio texto joyceano, relegado por conta da fascinação dos paralelos que ele constrói com outras obras.

e veja que sou um entusiasta dessas estruturas intertextuais explícitas, mas me parece que esse jogo do Ulysses mais tem afastado leitores normais que atraído pervertidos com taras por formas e estruturas narrativas tipo eu. dada essa condição, separo minhas impressões.

(sem falar que isso me dará tempo de ler a Odisseia ao mesmo tempo – não AO MESMO TEMPO, mas uma no intervalo da outra – com todo o respeiro, claro -, interrompendo as leituras e… entendeu, né?)

a Odisseia que releio também é da Penguin-Companhia e não, não estou sendo patrocinado por eles.

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acredito que a leitura da introdução do Ulysses é bastante valiosa, assim como a nota do tradutor.

a introdução traz uma discussão muito interessante sobre Leopold Bloom (o protagonista) como um modelo de andrógino. nada contra os machos jurubebas, mas a noção seria de um homem que se bate menos com o machismo, capaz de relações mais femininas no sentido arquetípico mesmo do termo.

da nota do tradutor pinço algo fundamental para a leitura: o livro é divertido e engraçado, não sério e para poucos escolhidos. existe um problema com o primeiro capítulo (ou com os 3 primeiros capítulos), mas comento a razão dessa minha desconfiança na postagem adequada, coisa que se a musa de Homero permitir, será amanhã.

alguma ajuda da internet: o Ulysses em inglêsum resumão para principiantes, o Ulysses adaptado para HQ e um dos diversos sites com bastante informação sobre a obra.

e para quem diz que não consegue ler o livro, não importa o que faça, vai aqui um audiolivro do Ulysses, em inglês:

 

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A leiturosseia

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Sei que meu primeiro encontro com o Ulisses de James Joyce, foi na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba.

o livro tava na lista do Cristovão Tezza como uma das opções para uma apresentação de sua disciplina. eu não fazia a matéria na época – eu não fazia nem Letras na época – mas tinha a lista e a intenção de completá-la.

eu era só um magrão do interior do Paraná que fazia comunicação, gostava muito de ler e morava numa pensão com entusiastas da primeira onda do sertanejo universitário. nesse ano, li mais de 100 livros (sim, eu anotava – ah, as ingênuas e não menos belas flores da juventude…).

mas e o Ulisses?

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sim, o Ulisses. flertei, cheguei junto e levei o livro pra pensão. achei estranho e pouco amigável, apesar de formas sobranceiras e fornidas (tradução do Antonio Houaiss). não consegui terminar.

cheguei até a quarta fase do livro, mas acabou meu continue na biblioteca e tomei um gameover do prazo. deixei pra lá.

na verdade, deixei nada! já tinha lido O retrato do artista quando jovem, aí li Dublinenses, biografias, material teórico. foi a primeira vez que li material em inglês também: li Giacomo Joyce e uns poemas em inglês do irlandês. e Stephen Hero também.

a obsessão estava instaurada. aí, surgiu Luís Bueno (que orientaria meu mestrado anos depois) e sua disciplina para a leitura do Ulisses.

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comprei num sebo a única tradução disponível (mas não única edição) em 2001 e fui pra aula do señor Bueno (a compra do livro foi uma odisseia prum estudante de bolso curto que nem eu, mas para histórias de gente sem dinheiro recomendo Os ratos, do Dyonélio Machado).

e nesse ano foi a primeira vez que li o Ulisses. foi legal, mas eu ainda tava obcecado e precisava ler de novo. mas na tradução do Houaiss seria muita dor e sofrimento (drama queen).

anos depois eu soube que a tradução da Bernardina eu ia sair. eu já era um digno estudante de Letras na época.

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soube daí que um cara que pirava no Joyce tava traduzindo o Ulisses pro seu doutorado. Era o Caetano Galindo. já tinha tido aulas com ele e conversávamos sobre Radiohead, Oasis e Joyce nos corredores da UFPR. pedi que me deixasse ler o seu trabalho.

na época, desempregado e com muita obsessão, li os 4 primeiros capítulos do Ulisses, de novo. mas dessa vez, cotejado com o original em inglês e com a tradução do Houaiss. e como a do Caetano era melhor.

(essa leitura aí me levou pra página de agradecimentos da edição do Ulysses do Galindo. deveras gentil, esse moço)

mas a edição da Bernardina saiu antes. comprei e li. dessa vez, li numas férias em Francisco Beltrão. gostei de novo, mas senti que faltava um pouco da engenhosidade joyceana que eu tinha provado no texto em inglês e na tradução do Galindo. como se o Houaiss tivesse apertado demais o parafuso do rebuscado e esquecido da diversão e a Bernardina fez o versa desse vice.

quando eu soube que o Caetano tinha acabado de traduzir e que ia sair pela Cia. das Letras, fiquei bem feliz. primeiro, porque eu poderia indicar uma versão decente do livro pras pessoas. depois porque eu poderia ler o Ulisses de novo!

(o Caetano me disse numa aula que somos sempre macaquinhos egoístas, que usamos o discurso pra se dar bem – esse é mais um exemplo).

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domingo passado comprei o Ulysses, descobri que eu era citado num dos meus livros favoritos e comecei a empreender a leitura da bagaça. e hoje resolvi fazer um diário de leitura aqui no blogue. esse é só o texto de abertura, minhas impressões estão nas postagens adiante.

não se entra num labirinto de palavras destes sem linhas inteiras e frases ocasionais sublinhadas à lápis.nos encontramos lá no último ‘Sim’.

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