Monthly Archives: Janeiro 2011

Da folha de S. Paulo – O aeroporto tá parecendo rodoviária

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Mais uma vez, reproduzo aqui o texto de Antonio Prata para Folha de S. Paulo, publicado no caderno Cotidiano de hoje.

ANTONIO PRATA 

O aeroporto tá parecendo rodoviária


Se o Brasil continuar crescendo e distribuindo renda, quem é que vai empacotar nossas compras? 


O FUNCIONÁRIO do supermercado empacota minhas compras. A freguesa se aproxima com sua cesta e pergunta: “Oi, rapazinho, onde fica a farinha de mandioca?”. “Ali, senhora, corredor 3.” “Obrigada.” “Disponha.”

A cena seria trivial, não fosse um pequeno detalhe: o “rapazinho” já passava dos quarenta. Teria a mulher uma particularíssima disfunção neurológica, chamada, digamos etariofasia aguda? Mostra-se a ela uma imagem do Papai Noel e outra do Neymar, pergunta-se: “Quem é o mais velho?”, ela hesita, seu indicador vai e vem entre as duas fotos, como um limpador de para-brisa e… Não consegue responder.

Infelizmente, não me parece que a mulher sofresse de uma doença rara. Pelo contrário. A infantilização dos pobres e outros grupos socialmente desvalorizados é recurso antigo, que funciona naturalizando a inferioridade de quem está por baixo e, de quebra, ainda atenua a culpa de quem tá por cima.

Afinal, se fulano é apenas um “rapazinho”, faz sentido que ele nos sirva, nos obedeça e, em última instância, submeta-se à tutela de seus senhores, de suas senhoras.

Nos EUA, até a metade do século passado, os brancos chamavam os negros de “boys”. Em resposta, surgiu o “man”, com o qual os negros passaram a tratar-se uns aos outros, para afirmarem sua integridade.

No Brasil, na segunda década do século XXI, o expediente persiste.

Faz sentido. Em primeiro lugar, porque persiste a desigualdade, mas também porque todo recurso que escamoteie os conflitos encontra por aqui solo fértil; combina com nosso sonso ufanismo: neste país, todo mundo se ama, não?

Pensando nisso, enquanto pagava minhas compras, já começando a ficar com raiva da mulher, imaginei como chamaria o funcionário do supermercado, se estivesse no lugar dela. Então, me vi dizendo: “Ei, “amigo”, você sabe onde fica a farinha de mandioca?”, e percebi que, pela via oposta, havia caído na mesma arapuca.

Em vez de reafirmar a diferença, reduzindo-o ao status de criança, tentaria anulá-la, promovendo-o ao patamar da amizade. Mas, como nunca havíamos nos visto antes, a máscara cairia, revelando o que eu tentava ocultar: a distância entre quem empurra o carrinho e quem empacota as compras.

“Rapazinho” e “amigo” -ou “chefe”, “meu rei”, “brother”, “queridão”- são dois lados da mesma moeda: a incapacidade de ver, naquele que me serve, um cidadão, um igual.

Não é de se admirar que, nesta sociedade ainda marcada pela mentalidade escravocrata, haja uma onda de preconceito com o alargamento da classe C, que tornou-se explícito nas manifestações de ódio aos nordestinos, via Twitter e Facebook, no fim do ano passado.

Mas o bordão que melhor exemplifica o susto e o desprezo da classe A pelos pobres, ou ex-pobres que agora têm dinheiro para frequentar certos ambientes antes fechados a eles, é: “Credo, esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!”. De tão repetido, tem tudo para se tornar o “Você sabe com quem está falando?!” do início do século XXI. Se o Brasil continuar crescendo e distribuindo renda, os rapazinhos, que horror!, ganharão cada vez mais espaço e a coisa só deve piorar. É preocupante. Nesse ritmo, num futuro próximo, quem é que vai empacotar nossas compras? 

antonioprata@uol.com.br

@antonioprata

 

Aqui um vídeo do Marcelo Adnet – que acho que todo mundo já viu – que vai na mesma linha do texto:

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Procura-se

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Procura-se uma forma de fugir do carnaval brasileiro.

não preciso me alongar falando de quê e porquê odeio o Carnaval. 

é muito mais urgente dar um jeito de fugir.

em poucos meses, o Brasil será atacado por uma legião de desvivos chamado sambistas que atacam em blocos deixando restos de confete e serpentinas e cantadas baratas e lancça-perfume.

essas pessoas andam armadas de termos perigosos, a saber: ginga, malemolência, a alegria e a alegria do brasileiro.

somando a situação de que Rebolation foi a música do Carnaval 2010 e a tendência é piorar sempre, haja Deus nos acuda.

uma opção para interessados em cinema é fazer um curso de roteiro em Cuba. dois problemas, porém:

1) isso deve dificultar uma futura entrada na terra da oportunidade

2) 1300 euros de curso + uns 1300 dólares de passagem de avião

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uma excelente opção era Buenos Aires, mas lá o Carnaval virou feriado também e soube que a cidade se comporta mal em feriados.

resta, como alternativa, restar em Curitiba.

mais a frente eu explico como sobreviver à praga carnavalesca na capital social.


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Como era mesmo?

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Eu embarquei no ônibus e…

não, não começava assim. Era algo antes. foi quando saí de casa. ou não?

eu estava no meu quarto e ANTES de me levantar, eu sonhei que sonhava.

não, não. essa já foi queimada naquele filme meiaboca.

Eu estava em casa, tenho certeza.

era Curitiba ou Beltrão?

ou era eu mesmo? não sei, mas o que aconteceu comigo era uma volta pra mim mesmo que não consigo explicar…

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Lançamento da Café Espacial 8

nessa edição da Café Espacial tem conto da Van Rodrigues e texto meu sobre  o Godard. e tem mais:

o lugar é aprazível, a companhia agradabilíssima, a música boa. vamos?

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Sobre correr

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esses dias atrás aí comentei que me preparo “espiritualmente” pra começar a correr (não, ainda não).

não quero dar amplitude dramática e nem gerar expectativas, afinal é só um passo depois do outro. mas correr?

há quem precise fugir, chegar ou sair. mas e eu? por quê?

pra que tudo isso, Lielson?

eu lembro: vontade pura e impulsiva de correr.

eu tinha de. corri, quase caindo na calçada de Curitiba (o engenheiro de urbanismo daqui foi um pândego: pedra sabão numa cidade que só chove).

corri por causa de um filme.

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é, eu confesso um certo exagero na reação, se você aceitar uma certa verdade (minha, claro) no que escrevo.

mas eu precisava.

e corri.

não foi porque gostei ou fugi. além disso. porque precisava. (também quis correr no Radiohead, mas faltou espaço e e energia)

agora não preciso. ou eu acho que não. pra quê então?

 

 

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Quarta parte da lista

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Vamos lá, mais algumas obras indicadas para quem está interessado em ler quadrinhos, mas não sabe por onde começar. As regras que norteiam a criação dessa lista estão aqui nessa postagem.

Como o título indica, essa já é quarta vez que trato desse tema e só devo parar quando reunir umas 30 obras (ou eu me cansar). Pra ver todas as partes da lista, procure pela sugestiva etiqueta por onde começo? lá embaixo. Ou aqui.
 

Simbora?

Noturno – Giancarlo Berardi & Ivo Milazzo (Opera Graphica)

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Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo formam a dupla de criadores italianos responsáveis pela série de sucesso Ken Parker. A arte de Milazzo é um espetáculo e os roteiros de Berardi são inteligentíssimos. Noturno é um álbum curto, composto por 6 histórias, com alguma metalinguagem, algum grau de “metaHQ” e muita sensibilidade. Fellini não deixou a produção cultural italiana impune.

Indicado com força pra quem: curte quadrinhos italianos; curte histórias bem contadas; curte a arte de Milazzo.

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Copacabana – Lobo & Odyr (Desiderata)

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A arte suja de Odyr casa perfeitamente com a história de submundos criada por Lobo. Uma das melhores visões do Rio de Janeiro, desencantada, real e agressiva, mas ainda sim, muito bonita. Copacabana é imperdível. Leia a resenha AQUI.

Indicado com força pra quem: curte Nelson Rodrigues; curte histórias cariocas sem o padrão Globo de qualidade; acredita nas boas intenções.

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Sábado dos meus amores – Marcello Quintanilha (Conrad)

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Poucos sabem trabalhar o momento como faz Quitanilha. Antes ele assinava as HQs como Marcello Gaú. Mudou de nome, mas manteve a linha de trabalho. Um Rio de Janeiro de periferia, coberto por uma dose de lirismo visual em vez de violência, embalada em arte realista. É uma das HQs que mais gosto, pra ser lida aos pouquinhos, deixando que ela mande no tempo que passa ao redor. Além de tudo, é um dos primeiros álbuns nacionais pra Ipad. leia a resenha AQUI.

Indicado com força pra quem: curte lirismo visual; acredita em um Manuel Bandeirismoda vida; curte arte realista.

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mutabilitas ueritatem ducet

vamos por a verdade, assim, em latim. pra parecer mais verdade.

A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer. (M. Q.)

ou em citação, ainda que em português, com a autoridade daquele poeta mentido, que tanto não escreveu aquilo que lhe dão.

buscamos uma verdade em nós, ali, em você, em mim, na arte. é insistente a luta pra encontrar esse graal e entorná-lo, e assim, digerir uma verdade. em gole único, pra matar rapidamente qualquer dúvida.

não confunda A verdade com os fatos de tinta desbotada, na banca do meio da quadra. nem aqueles fatos em alta definição de led, na parceria incestuosa da verdade confudida de realidade. e vice-versa.

nem creia que na solução das meias-verdades, que são apenas os fatos proibidos de se mover, a meio caminho de você.

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imposição, como a voz na mesa do bar que grita, não, na verdade…

pense pequeninas de pílulas de sinceridade. pratiquemos a verdade por inteiro, ainda que homeopática.

eis uma delas:

encontrei um punhado de músicas que em fez querer ouvir mais e de novo. e de novo o mais.

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bem vinda aos meus ouvidos, Etta! obrigado por tudo e desculpe qualquer coisa!

clichês são verdades sem ponta, incapazes de atravessar o fato (sorria, estou lhe impondo as minhas verdades).

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Da folha de S. Paulo – Meias

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Brilhante texto de Antonio Prata, para caderno Cotidiano da Folha.

Meias 

 


A gente acha que difícil são as grandes decisões. Às vezes, são as pequenas escolhas que dilaceram o coração 



A GENTE SEMPRE acha que a mudança virá de grandes resoluções: parar de fumar, pedir demissão, declarar-se à Regininha do RH. Às vezes, contudo, são as pequenas atitudes que alteram definitivamente a rota de nossas vidas. Nessa segunda-feira, por exemplo, pela primeira vez em 33 anos, saí para comprar meias. Sou um novo homem.
Talvez o leitor ache que estou exagerando. É que não teve o desprazer de conhecer minha gaveta de meias até 48 horas atrás. Mais parecia “saloon” de velho oeste: poucos pares, estropiados, cada um vindo de um canto -tenazes sobreviventes de diferentes etapas da minha vida.
As três brancas, de algodão, haviam sido ganhas na compra de um tênis de corrida, lá por 98. A marca da loja já quase não se lia, escrita no elástico esgarçado. Pior que as brancas estavam as azuis, da Varig, do tempo em que a ponte aérea era feita pelos Electras, e as aeromoças davam brindes, não broncas.
O pé da meia azul não tinha curva no calcanhar nem na canela: assemelhava-se a um coador de café dos Smurfs. Ou dos Na’vi. O elástico era frouxo, mas o laço afetivo não, de modo que as seguia usando, ano após ano, mesmo diante dos encarecidos apelos de minha mulher.
Em bom estado mesmo só as cinza, com losangos, que peguei para completar o valor na troca de uma jaqueta, presente de natal em, sei lá, 2002. Era a minha “meia de sábado”, aquela que vestia para jantares, casamentos e entrevistas de emprego. Além dessas, havia mais três ou quatro, que de tão ordinárias nem merecem meu comentário.
Ah, caro leitor, eu era infeliz e não sabia! Uma vida com poucas meias é uma vida de expectativa e ansiedade. Toda manhã aquele suspense ao abrir a gaveta: quais estariam ali, quais andariam na longa peregrinação que passa pelo cesto, pela máquina, pelo varal?
Cheguei ao fundo do poço na sexta, 31, dez da noite. Minha mulher batia na porta do banheiro, apressando-me para a ceia, enquanto eu, sentado no chão de azulejos, encaixava as meias cinza na boca do secador de cabelos. Não queria virar o ano com os pés úmidos nem gostaria que todos me vissem, quando tirasse os sapatos para pular sete ondinhas, com as velhas meias da Varig.
Naquele momento de angústia, por trás do ruído aeronáutico do secador, dos meus gritos e dos gritos de minha mulher, pude ouvir uma voz grave, que vinha de toda parte e de parte alguma: “Antonio: tu és homem feito. Pagas as contas e impostos em dia. És casado, asseado, vacinado: por que vives nesta penúria?”
Se eu soubesse como era fácil, tinha feito antes: nem cem reais, caro leitor, custou minha alforria. Hoje, se quiser, posso ir a três entrevistas de emprego, dois jantares, seis casamentos e jogar futebol, no mesmo dia, sem repetir as meias. Não terei mais que pensar no assunto até 2019, no mínimo.
Quer dizer, mais ou menos: pois enquanto contemplo a gaveta multicolorida -de “saloon” do velho oeste, transformou-se em baile da corte- minha mulher aparece no quarto, segurando as meias da Varig com as pontas dos dedos, como se fossem camisinhas usadas: “Posso jogar no lixo?”
A gente sempre acha que difícil é tomar as grandes decisões: parar de fumar, pedir demissão, declarar-se à Regininha do RH. Às vezes, contudo, são as pequenas escolhas que mais dilaceram o coração.

ANTONIO PRATA 


antonioprata@uol.com.br

@antonioprata

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1, 2, 3, vai!

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tenho pensando em começar a correr. não metaforicamente, fisicamente. mas tem a ver.

só dou um tempo antes de começar, pra que não pareça resolução de ano novo, que já vem com etiqueta frustração (variações de Taiwan tem desistência).

comecei a procurar por isso, e descobri um mundo ao redor dos meus pés (o umbigo do falsa humildade?).

os pés não se dividem em direitos e esquerdos, da maneira que os não corredores pensam. existem trocentas classificações e até testes pra você saber qual é o tipo de tênis adequado pra você.

tenho tido dificuldade de encontrar um modelo que decente – todos os tênis de corrida que encontrei são combinações em variadas porcentagens de molonas, gel, cores berrantes e glitter.

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quem diga que isso é por causa dos meus 30 anos (quase 31). eu prefiro acreditar que é para evitar um futuro que se agarra ao batente da porta pra sair de casa. mas a verdade, provavelmente, é outra.

tem algo de por as pernas em ação pra ver a vida andar, em vez de correr. eu corro, e você espera um pouco. tem a ver com segurar a corrida do relógio baudelairiano enquanto acelero as canelas. tem a ver com a metáfora. tem a ver com a prática.

 

ah, assim que encontrar um tênis decente, eu aviso.

 

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Regimes

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Queria poder pensar em regime e lembrar de dietas. Mas no caso dos regimes totalitários e ditatoriais, a perda de peso é do inimigo do estado.

E o efeito sanfona aparece nas declarações. Caso do General José Elito Siqueira, para quem o regime é algo histórico e que passou.

Não nos envergonhemos das barrigas adquiridas e não nos ocupemos das medidas de pessoas desaparecidas. É o que é. Fala digna de um Alberto Caieiro de estrelas no ombro e quepe na cabeça.

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Esse fatalismo sobre os acontecidos é digno de uma tragédia grega. Ao herói, seu destino e paciência. Assistamos. mas no caso dos desaparecidos, não há muito espaço pra catarse.
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