Monthly Archives: Novembro 2010

listas, sempre listas

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Pra que serve uma lista se não pra instaurar a polêmica? Até lista de compra do mercado acaba em dissonância, não tem jeito.

Alguém me tuitou uma lista de 30 HQs que você deveria ler. Claro que fui dar uma olhada e não gostei. A lista é bastante focada na HQ norte-americana das líderes de mercado, Marvel e DC, o que não é um problema em si, mas um problema em até. Porque até tentam se fazer de ecléticos com um Maus acá e um Persépolis Alá, mas não enganam. Porque até umas bicheiras como Rising Stars e Invencível entram na correria pra fechar 30.

E como diz o mestre, quem sabe faz ao vivo. Isso aqui é blog (ao morto), mas imbuído desse espírito empreendedor. Portanto, em vez ter achaquilhos de bambi, resolvi sugerir a minha lista. Antes disso, vale uns ‘mãs’:

1) A lista foi pensada como indicações para quem lê pouco ou nunca leu HQ (evitando, assim HQs que são homenagens às próprias HQs);

2) Vou me esforçar pra incluir histórias fechadas, de diversas origens (evitando pérolas eternas como Sandman e Homem-Animal);

3) Também vou me esforçar pra apresentar HQs menos conhecidas do público médio (evitando Peanuts e Disney);

4) A lista foi dividida em algumas postagens (evitando um tripão);

5) Se eu me encher o saco, vai ser menos de 30 e se me empolgar, mais (evitando o desgosto do bloguista);

6) A ordem da bagaça não representa a importância da bagaça, a qualidade da bagaça ou a predileção do bagaceiro (evitando malentendidos na leitura)

7) É minha festa, então eu convido o quadrinho que quiser (evitando todos os que não estão abaixo e nas outras postagens).

 

NOVA YORK – A VIDA NA GRANDE CIDADE (Quadrinhos na Cia.)

Will Eisner é autor obrigatório para os quadrinhos. Esse norte-americano é uma das ausências de que me ressenti na lista que linquei lá em cima. E esse álbum além de ser Eisner, é Eisner inspiradíssimo. E melhor: é 1 que vale 4. O tijolão de mais de 400 páginas carrega Nova York – A grande cidade, Caderno de esboços, O edifício e Pessoas invisíveis. Nova York traz histórias de uma página de situações urbanas, passadas na primeira metade do Século XX. O edifício é a trama de 3 fantasmas ligados a um prédio no centro de Nova York. Caderno e Pessoas trazem mais olhares sobre essa cidade que cria e maltrata o humano.
Um material sensível, forte, humano até última gramatura do papel e fodidíssimo. [Momento autojabá] Mais detalhes na resenha que fiz pro Universo HQ. E compre aqui.

Indicado com força para: quem gosta de histórias urbanas (quando isso não queria dizer ultraviolência, gírias e tráfico); quem gosta de um lirismo cotidiano; quem é ser humano.

A CAIXA DE AREIA – OU ERA DOIS NO MEU QUINTAL (Devir)

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Lourenço Mutarelli largou os quadrinhos há algum tempo. E o desgraçado parou justamente quando produziu sua obra mais densa, mais emocional e mais equilibrada. O roteiro de Mutarelli nunca foi tão bom quanto neste trabalho. E o seu texto aqui é superior aos seus livros em prosa. Até o formato pequeno de caderno tem a ver. Caixa de areia marca um rompimento no modo do artista fazer quadrinhos, seja no tema ou na arte, mas sem perder sua característica intimista e forte. O enredo é da família de Mutarelli diante de problemas cotidianos e observações sagazes e, em paralelo, dois personagens em um carro. Tá aqui a resenha no Universo HQ.

Indicado com força para: quem gosta de um lirismo cotidiano; quem gosta de teatro do absurdo; quem acha que a vida precisa de uma loucurinha pra valer a pena.

MAUS (Quadrinhos na Cia.)

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Esse tá na lista da Empire. Também, o trabalho do Art Spiegelman é do nível ‘puta merda’. Se você faz parte do grupo que tem nojinho de histórias sobre o holocausto, recolha seu nojo onde bem entender e LEIA o único gibi que já levou um prêmio Pulitzer. Existem doses cavalres de metalinguagem na segunda parte e doses homéricas de humanidade em cada página. O sonho de todo quadrinho é ser tão forte e impactante quanto Maus. O que se conta é a biografia do pai de Art Spiegelman e como ele sobreviveu à segunda grande guerra mundial, e a história da criação do próprio álbum que se lê. Os personagens são retratados de modo muito cruel e sem autopiedade. Ah, e todo mundo é zoomorfizado: os judeus são ratos, os alemães são gatos, os poloneses porcos e por aí vai. Segue a resenha no Universo HQ. Segue a sugestão de compra.

Indicado com força para: quem gosta de histórias vicerais; quem gosta de outras visões de animais humanizados (ou humanos animalizados); quem gosta de histórias de sobreviventes; quem quer aprender metalinguagem de HQ.

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o primeiro paciente do dia no consultório do Dr. Carlos Factotum

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muitos pacientes passam pelo consultório de Carlos Factotum, pois ele tudo faz e a todos cura. pelo menos é isso que está na mensagem da espera telefônica. e esses pacientes são um povo esquisito, viu?

ontem esteve aqui uma senhora que andava com dificuldades para respirar. Doutor Factotum descobriu que ela estava respirando AR em caixa alta, com casos de negrito entre uma mólecula e outra. receitou-lhe três tapas nas costas e um ALT F3. mais uma cliente recuperada e satisfeita. graças ao doutor.

agora mesmo ele atende um tipo estranho. marcou uma consulta de emergência ontem. perguntou se tinha horário, disse que pagaria particular, se eu poderia arranjar um horário melhor pra ele. expliquei que o Dr. Factotum não pega plano de saúde e tudo, mas que quebraria a dele e o coloquei no primeiro horário da manhã.

cheguei de manhã e ele já aguardava na porta. quando lhe dei a ficha pra preencher, me disse que era esse o problema, era escritor e estava com bloqueio. tudo que conseguia fazer era uma página em branco mal pontuada e com problemas de revisão. o terceiro na semana. todos estranhos.

ah, ele começou a gritar. já sei o que o Doutor está fazendo: agulhas nas mãos e cortes na ponta dos dedos. método simples: isso impede que o rapaz escreva.

e ele passará a culpar essa situação e não a procrastinação ou o medo ou a si mesmo. ele deixará de ter bloqueio. ele terá uma verdadeira incapacidade de escrita. e lá vai ele com as mãos enfaixadas, feliz. libertar-se da culpa é dar as mãos à tranquilidade. no caso dele, dar o braço.

tenha um bom dia, senhor.

ele voltará em 10 dias para mais cortes e substituição das agulhas.

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