Monthly Archives: Novembro 2009

Ainda me lembro de algo

Memory_card

se bem me recordo, várias poostagens por aqui têm sido sobre o tema da recordação e da memória.

tem todo esse lado memorialista meio Proust (menos afetado – eu acho) que me ataca de vez em quando.

e ‘atacar’ é um verbo precioso nesses dias. veja só:

comprei um videogame a meses atrás; um PlayStation 2. na minha infância (e vêm lá a memória) os jogos continuavam na base do “não desligue isso por nada que eu volto amanhã pra gente ‘eliminar’ a fita” e da evolução suprema dos jogos até então, o password.

só que o tal do PlayStation (PS, pros chegados) não tem password, nem continue; tem memory card. eu já sabia disso e comprei um no mesmo momento que empacotava o console.

toda vez que você quer dar uma de JACU-RABUDO (expressão beltronenese que designa algo como ‘espertão’ ou ‘metido’), você quebra o jacu. comprei um memory card pirata.

essa pequena peça retangular de poucos centímetros quadrados é a memória do videogame. é ela que sabe por qual fase você já passou; é ela que diz quais são os níveis de poder e a somatório dos pontos.

e ela que dá pau.

já sofri dois ataques de perda de memória em menos de 6 meses.

daí fiquei pensando: e se a gente tivesse uma memoriazinha dessas? a gente ia poder literalmente trocar de memórias com alguém. mas a gente ia arriscar perder ela e não conseguir (óbvio) lembrar onde ela estava.

a gente também ia poder ficar com a memória dos que morrem. mas a gente ia descobrir que o neto preferido do Vô Tranquilo era o outro cara lá. mas, por outro lado, íamos saber do que a Michael Jackson morreu!

e, é claro, o tal memory card de gente daria pau, mais hora, menos hora. magine o tráfego de memory cards humanos, filas de pessoas no SUS tentando um novo memory card, a inundação do produto pirata no mercado negro.

não, acho melhor deixar tudo como está. mesmo que a gente não posso apagar alguma coisa, ou não lembrar direitinho de outras.

porém, um password pra recomeçar alguma fase seria de se pensar…

Street spirit (fade out) – Radiohead

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Whiteout (ou uaiteaute)

pois sexta fui lá, falei umas boabgens, fiz umas piadas sem graça e depois assinei uns livros: estava lançado em Curitiba o primeiro tomo com um texto meu a ser publicado no mundo.

mas eu queria falar da sessão de autógrafos.

que treco esquisito. ainda não sei porque alguém quer assinar um livro teórico. se eu fosse o Zé Mayer, sei lá. mas tem outra coisa: a parte que vem depois é fácil, um desenho que parece as letras do meu nome. mas e o que vem antes?

já tive branco uma vez numa palestra que eu dava no ensino médio. fui começar e                                 não sabia o que dizer. eu deveria explicar alguma coisa sobre a Segunda Guerra Mundial. mas no quadro tinha muitas datas e nenhuma ajuda.

já tive branco no meio de frases. reformulo: tenho brancos no meio de frases. pior: tenho brancos logo quando chamo alguém pra contar algo. entre o vocativo e a conquista da atenção uma pista de gelo se desenha em minha mente, com olhos outrem esperando por um sinal de informação.

já acordei de madrugada para escrever o livro mais revolucionário da literatura nacional e fiquei paralisado, vendo o cursorzinho piscar e ouvindo a ventuinha do computador.

pelo menos tinha um cursor se movendo. o que se escreve em um curto voto a alguém que resolveu comprar algo que você 1/6 escreveu?

deu branco. uaiteaute. se você desmaiar, é blecaute. no meu caso, foi só uaiteaute mesmo ou em casos mais graves, blencaute (blankout)  que nem branco tem pra ver, é só um monte de vazio.

ah, teve uma outra vez… que…

Branco

(página de Retalhos, de Craig Thompson)

Tema (Brilho eterno de uma mente sem lembranças) – Jon Brion

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