Minividas

quando criança eu não tive videogame (internamento em casa), nem bicicleta (externamento na rua); e o pior, sempre fui ruim de bola.

portanto, eu anêmico e algo autista me divertia com gibi e bonequinhos: os gibis me acompanham até hoje, embora tenham virado coisa de intelectual de lá pra cá – se chama graphic novel agora.

Quanto aos bonequinhos, eles ficaram em caixas, em um forte apache desmontado, na minha mochila, e em posições estratégicas. havia um sábio general e um planejador brilhante entre eles. havia, entre eles, tudo.

seres sob meu controle em um mundo meu, onde eu não tinha anemia, jogar bola não importava e meus desenhos eram fantásticos. todos eles me apoiavam e se aventuravam: dos plásticos de faroeste e super-heróis paralisados que eram estátuas vivas, aos gigantes que eram os bonecos semiarticulados do Rambo e do He-Man, passando, claro, pelos Comandos em Ação em armaduras de papel alumínio e polegares quebrados.

Todos aqueles bonequinhos (action figures é coisa de colecionador), dentro da meu quarto, representavam momentos de batalhas épicas exterrnas dentro da minha cabeça. Volta ao mundo em 80 quartos. vivi muito mais ali do que até hoje. o Cronotopo é um bicho estranho, seu Bakhtin.

Hoje, pelo menos há 16 anos sem mexer neles, sinto falta. e eles, devem sentir ainda mais falta da vida que levavam: bem guardados, rodaram Francisco Beltrão inteira, conheceram Curitiba e as autoestradas. mas o perigo maior sempre esteve na parte de cima do armário.

e, sabe, eles revivem mais um pouco na minha cabeça de quando em quando.

eu ajeitava com durex um bonequinho que perdeu o braço; um cara fraco ganhava poderes por causa de um trapo ao redor do pescoço ou de um pedaço de papel alumínio e cola; os vilões e os heróis eram caras conhecidos, e se escondiam na caixa de sapatos no meio do quarto.

acho que estou sempre manipulando bonequinhos etéreos da minha cabeça: e eles são um belo time! se um erra, logo o outro chega de Turbo Submarino; um mundo caótico organizado por mim e sob meu controle.

e no final, até quando os vilões ganham, eu ficava feliz.

hoje, com bem menos graça, invento outras coisas na cabeça. eu não sei se elas são legais pros outros, mas eu quase me divirto tanto quanto antes. agora os bonequinhos dormem no temido armário e contam as velhas histórias. acho que as ouço às vezes.

NdioComandos_em_aoHomem-aranhaHavocTurbo_submarino

4 comentários

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4 responses to “Minividas

  1. vanzin

    Lindo, Zê. Você não me viu quase chorar enquanto empilhava os pratos da nossa pizza, mas que lindo! Você tem as melhores histórias com bonequinhos sem polegares na sua cabeça (achei que eles caiam apenas das Barbies falsificadas que eu tive).

  2. Lielson Zeni

    és um moça bela e emotiva, sua emotivamente bela!:>)

  3. Rafael Urban

    Caro, muito simpático o seu blog. Um ab,Rafael

  4. Lielson Zeni

    simpático é o seu comentário, Rafael. agradecido!

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